[ Vox populi vox Dei ]

2010-09-18

« CAMILO CASTELO BRANCO: "A QUEDA DUM ANJO" »

Camilo Castelo Branco
(1825 - 1890)

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.Capa de um exemplar antigo





.Camilo Castelo Branco nasceu a 16 de Março de 1825, em Lisboa. Na sua adolescência formou-se em literatura clássica e eclesiástica, em contacto com a vida transmontana. Casa, em 1841, aos 16 anos, mas o casamento durou apenas um ano, e ingressou na Universidade. Desde então, já começa os seus problemas com autoridades, sendo várias vezes perseguido e espancado por publicações que faz em jornais. Tenta, no Porto, o curso de Medicina, e, depois, Direito. No Porto, adopta uma vida boémia, dedicando-se, entretanto, ao jornalismo. É preso pelo seu romance com Ana Plácido, mulher casada, mas depois é perdoado. Passam a viver os dois juntos, tendo Camilo 38 anos, agora. Em 1885, recebe o título de Visconde de Correia Botelho, e casa com Ana Plácido em 1888. Vive com dificuldades financeiras, instabilidade emocional e progressiva cegueira causada pela sífilis. Quando se tornou certo de que ele nunca recuperaria a visão, suicidou-se a 1 de Junho de 1890. No todo, a sua carreira literária rendeu-lhe 260 obras, entre romances, ensaios, traduções…

O tema de “A Queda dum Anjo” é a corrupção política, um tema recorrente no seu trabalho, como romancista ou jornalista, criticando a decadência da moral da sociedade portuguesa do século XIX e dos seus governantes. Calisto Elói de Silos e Benevides de Barbuda nasceu a 1815, com 44 anos no momento da acção , na aldeia de Caçarelhos, e é um erudito mergulhado constantemente nos seus clássicos de História, Cultura, Música, Vinhos, Filosofia. É um pequeno deputado do Minho, enviado como representante da região para a Assembleia, em Lisboa. É um defensor ferrenho das suas convicções “antiquadas” sobre a moral, a verdade e a justiça, e a sua cruzada eterna contra a depravação e a corrupção acaba esquecida, quando ele próprio é seduzido pelo luxo e prazer que a capital pode oferecer. Acaba por se envolver num romance extra-conjugal com uma prima muito distante. O livro é um dos mais conhecidos de Camilo Castelo Branco, um exemplo do seu estilo romântico, ainda que satírico.

Além de Calisto de Barbuda, não há muitas mais personagens com que o leitor ganhe maior contacto. O próprio Calisto é um erudito conservador, ligado ao passado, às lições da História, às antigas noções de moralidade e bondade. Vive para a sua obsessão literária, chegando a passar a noite de núpcias a ler Viagem à Terra Santa, enquanto a mulher limpava o tecto do quarto. É um intelectual, ao início, muito convicto nas suas opiniões contra os luxos a que se prestam os restantes deputados e membros da elite ulissiponense/lisbonense. É um pouco ingénuo, como quando chegou a Lisboa pela primeira vez, bebendo das fontes que os seus clássicos diziam possuir poderes mirabolantes – e quando bebeu das fontes, a garganta e o estômago arderam por quinze dias. É um homem de meia-idade, muito magro, de cara ossuda e barbeada, postura digna. Já o seu companheiro de Lisboa, o abade de Estevões, é um pouco mais boémio que o seu amigo Calisto, amando a comida e a recriação musical. É quem guia Calisto por Lisboa, afastando-o dos conselhos desactualizados dos clássicos do minhoto. É um apoiante da antiga moral, tal como Calisto, mas gosta de apreciar comida e canções, pecando com gula e luxúria enquanto membro do clero.

O romance passa-se entre o Minho, terra natal de Calisto, e Lisboa, a sua Babilónia, em 1859. O principal espaço da obra é Lisboa do século XIX, uma Lisboa poluída, entregue a um povo desgovernado e deputados desleixados, caprichosos e corruptos. É uma cidade soturna, despida da glória antiga das naus dos Descobrimentos, como diria o próprio Calisto, e pouca mais informação Camilo Castelo Branco, que é narrador heterodiegético na obra, dá sobre as paisagens e locais, deixando à dedução do leitor; cria, sim, algumas passagens mais pormenorizadas esporadicamente, principalmente relacionadas com as origens do homem-anjo minhoto.




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.EXTRACTO DA OBRA:


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«... O orador:
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Sr. Presidente!
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Que me não queiram persuadir de que estou em casa de orates!
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Que é isto? Que bailar de ébrios é este em volta de Portugal moribundo?
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Como podem rir-se os enviados do Povo, quando um enviado do Povo exclama: Não tireis à Nação o que ela vos não pode dar, Governos!
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Não espremais o úbere da vaca faminta, que ordenhareis sangue!
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Não queirais converter os clamores do Povo em cantorias de teatro!
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Não vades pedir ao lavrador quebrado de trabalho os ratinhados cobres das suas economias para regalos da capital, enquanto ele se priva do apresigo de uma sardinha, porque não tem uma pojeia com que comprá-la... »


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.DELFINS - "A QUEDA de um ANJO" (...)
[Curiosidade musical... considerando a "coincidência" do Título]

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CASA MUSEU
Camilo Castelo Branco

6 comentários:

Maria Lúcia Marangon disse...

Aqui no Brasil, estudamos Literatura Portuguesa na Faculdade de Letras. Há alguns anos, durante o meu curso, conheci os autores portugueses: Eça de Queirós, Cesário Verde, Camilo Castelo Branco, entre outros. Meu preferido sempre foi Eça de Queirós.
Abraços.

Palma disse...

Belo post sobre esse grande escritor que foi Camilo Castelo Branco e esta sua " Queda de um Anjo".
Tal como diz a Maria Lucia Eça, Cesario, Camilo sao grandes vultos das letras portuguesas. Palma

Graça Pereira disse...

Olá César Ainda bem que há posts como o teu para nos recordar a nossa riquissima Literatura! Li "A queda de um anjo" de Camilo Castelo Branco!
Nestas notas que juntas à sua obra e falas na decadência da Nação e na corrupção existente na vida boémia de Lisboa... fêz-me sorrir!
Penso que no final deste século...ou nem tanto, haverá um outro Camilo a narrar a decadência e corrupção do nosso País nos finais do sec .XX e princípios
sec.XXI... O que é que mudou?
Será que estou a ser pessimista???
Beijo e boa semana.
Graça

R. disse...

É um excelente post. Lembrar a casa e a obra nunca é demais. Lembrar o homem é, necessariamente, homenagear um génio, cuja produção e proporção qualidade/quantidade não tem equivalente na literatura portuguea.

R. disse...

Caro César, muito obrigada pela simpatia das suas palavras. O agrado pela descoberta é recíproco. Gostei muito do que aqui encontrei. Tem razão quanto à importância relativa e à utilidade prática das listas de seguidores. São igualmente úteis quando os pretendemos encontrar :) Por isso aqui fica também a minha presença registada :)

Um, garantido, 'até breve'!

Anónimo disse...

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