[ Vox populi vox Dei ]

2010-09-04

« ARTE ORATÓRIA nos TRIBUNAIS e SALAS de IMPRENSA »


Perfil de 'largo espectro'
de
orador
a
botar discurso


.
Sala preparada para uma Conferência de Imprensa

Marcus Tullius Cicero
(Romano)
Um dos expoentes da oratória clássica


.

Demóstenes
orador e político ateniense


.

Hoje em dia é raro ouvirmos qualificar alguém de Orador. O exercício da Oratória é uma Arte esquecida. Rendemos tributo a Demóstenes e a Cícero, mas se formos avisados de que alguém vai 'discursar', corremos para a saída mais próxima. E há sabedoria nessa atitude, se 'discursar' significa declamar. Nenhum dos grandes oradores jamais declamou, mas o facto é que já não existem grandes oradores. A própria ideia de oratória, nestes tempos atarefados e práticos, está a desaparecer.
.
Na sua acepção mais elevada, a oratória é uma arte dramática; é a arte de dizer as palavras que escrevemos e de representar o papel de nós mesmos.
.
Demóstenes disse que a oratória consistia em três princípios fundamentais: movimento... movimento... e movimento. Hoje temos um elemento tecnológico que tanto ajuda, como atrapalha: o microfone. Este aparelho é uma figura omnipresente em todas as reuniões públicas, e os auditórios alargaram-se em espaços em que por vezes mal se pode vislumbrar o orador, ouvindo-se apenas a sua voz.
.
Não só a enunciação de um discurso é prejudicada por este invento moderno, mas também o seu preparo. Ninguém vai decorar um discurso a fim de, imóvel como uma estátua, recitá-lo a um microfone. É melhor lê-lo simplesmente. E, uma vez que se vai ler, para quê dar-se ao trabalho de redigi-lo? Que alguém o faça, de acordo com as determinações do orador. Eis ao que chegou uma grande parte da nossa oratória política nestes nossos dias mediáticos.
.
Um inimigo mais subtil da grande oratória é o conceito de "inspiração" que lhe atribuímos. Imaginamos que um grande discurso é causado por algum impulso misterioso. Pode ser até a necessidade de nos defendermos publicamente, contra o que tudo e todos nos acusam, e julgam! Muitos objectarão quanto a esta afirmação, por considerarem a oratória no seu mais elevado sentido, redigida e decorada; deve ser, como declarou o próprio Cícero, " uma composição cuidada e meticulosa". E Cícero salientou também que, quando surge a ocasião para o discurso de improviso, o estilo do discurso principal, se foi cuidadosamente composto e estudado, vale por um impulso, que levará adiante com a mesma eloquência, "exactamente como um barco movendo-se a grande velocidade conserva o seu curso e movimento, quando os remadores param de remar".
.
Todos os granders oradores têm tido o dom de decorar palavras semelhantes ao de um músico para decorar a música.
.
Nem todos podem, é claro, decorar um discurso. E nem todos, tendo-o decorado, são capazes de o proferir com naturalidade. Isto requer um talento peculiar, ou um treino especial, semelhante ao de um actor, ou de um profissional de comunicação social.
.
Um grande discurso, no sentido da sua extensão, é uma façanha de inteligência, acção, arte literária e ginástica mental. Não pode ser feito num estado de letargia, ou por quem pense que o entusiasmo está abaixo da sua dignidade. Não pode haver improvisos, a não ser em ocasiões em que se esteja habituado a tal exercício e não se deixe intimidar por microfones.
.
De igual maneira, os impactes a que figuras públicas são sujeitas em conferências de imprensa, carecem dos mesmos anticorpos.

Símbolo da Justiça

7 comentários:

Luís Coelho disse...

Bom dia
Discursos longos, fastidiosos e cansativos que ninguém ouve.
Admiro aqueles oradores que têm o dom da palavra e que conseguem prender a atenção das plateias.
Conseguem uma linha que não foge do tema central e que segue como o fio condutor de toda a oratória.
A força e o som de cada palavra faz com que se crie um ambiente mais convidativo.
Às vezes alguns oradores tem o dom de nos provocar o sono........

São disse...

Por motivos profissionais tive que usar bastas vezes o microfone: detesto!

Um bom fim de semana.

Swt disse...

Uma bela lição de oratória! Estava tentada a partilhar na página do facebook da minha escola.

Palma disse...

Belo post sobre essa bela arte da Oratoria.E poucos nasceram com esse DOM. Ouve-se a cada canto aprendizes de oradores convencidos de que os seus ouvintes os escutam embevecidos.Era bom que pusessem os pezinhos no solo e se convencessem da sua fraca oratoria. Na verdade muitos outros existem mas que poucas vezes sao escolhidos para encantarem plateias. Abraço - Palma

Sueli disse...

Sabe, César, admiro aqueles oradores que não precisam de texto. Tudo que desejam transmitir saem-lhe naturalmente e são capazes de falar horas a fio, sem que nossa atenção deseje andar por outros cantos. São raros. Não há nada mais desagradável do que ouvir aqueles que, numa demonstração de cultura, colocam em seu palavreado sinônimos desconhecidos e não mais usados, somente para mostrar que são mais eruditos, obrigando-nos a assistir tal discurso com um dicionário debaixo do braço, após ter tomado algum energético para não dormir. Um grande abraço!

Mar Arável disse...

José Estêvão

um grande orador

que detestaria aves canoras

mais ainda os palradores

relogio.de.corda disse...

Ao ter mencionado o exemplo do orador que mal se pode vislumbrar, ouvindo-se apenas a voz... lembrei-me, sabe Deus porquê, do "nosso" Marques Mendes.
É verdade que a arte de discursar não está ao alcance de qualquer um,os actuais actores da política bem que podiam aprender a arte antes de se lançarem no filme. Enfim...