[ Vox populi vox Dei ]

2010-09-14

« ANDAM DE ELÉCTRICO, PARA PODER SONHAR »




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AS POBRES SOLTEIRAS

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Elas andam de eléctrico, às vezes de autocarro
e vestem gabardines mais velhas do que elas.
Cheiram um pouco a chuva, a escuro, a barro,
a naftalina, a piano e à cera das velas.
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Elas andam nas ruas mas ninguém dá por elas,
pelos seus grandes dentes, suas magras orelhas,
seus óculos de massa, suas mãos amarelas,
suas blusas velhas, suas saias tão velhas.
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E lêem os jornais de manhã à tardinha,
de manhã a manhã como quem ganha o dia,
têm rugas, verrugas e os pés de galinha
lançaram-lhes nos olhos uma rede sombria.
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Cultivam com ternura plantas e memórias
ou os filhos das outras que elas viram nascer,
ou manipulam contas, ou usam palmatórias
para secar as lágrimas que não podem reter.
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Têm fome de tudo, têm de tudo sede, têm falhas
de dinheiro, de amigos, de carinho.
Aos pares, nas feias meias, caem malhas
e é só nos largos bolsos que as mãos encontram ninho.
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Elas sabem que a vida lhes roubou os parentes
e que entre os que estão vivos há animais ferozes
e sentem longe o amor em homens sorridentes
e vêem-nos escapar em círculos velozes.
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Elas andam de eléctrico, mas também podem ir
de autocarro ou a pé, depressa ou devagar,
E encostam-se aos caixilhos para melhor dormir,
as faces junto aos vidros para poder sonhar.











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Poema de: António Rebordão Navarro
Gravação de: Francisco Fanhais
Álbum: 'Canções de Cidade Nova'
Fotos: net

8 comentários:

Marilu disse...

Acho que se as "mulheres solt eiras" lerem, não vão gostar muito, coitadas, acho que elas deveriam andar a pé, para não incomodar quem anda de eléctrico. Mulheres são sempre mulheres, independente das rugas, da feiura, das marcas que cada uma carrega na alma.São seres humanos, e em cada uma há uma história diferente. Beijocas

César Ramos disse...

Marilu,

Também concordo consigo, mas este poema foi elaborado pelo poeta António Rebordão Navarro, e cantado pelo célebre padre Fanhais que foi um lutador contra a Ditadura.
Encontra-se no disco entre muitas outras interpretações que toda a gente acha excepcionais!

Destaquei este poema, sem música, pois não a encontrei na internet, em atenção à referência que faz aos Carros Eléctricos (Bondes), pela circunstância de ser um "bilhete postal" para a Comemoração dos 138 anos de existência da CARRIS, a Empresa transportadora.

A minha "veia literária" não escreveria assim... tão tosco e duro; porém, apenas reporto o que faz parte da poesia e música portuguesas.

Um abraço... e igualmente!

César Ramos

Swt disse...

Olhe! "É como a mim"! Ando na Internet para poder continuar a sonhar! Já tenho dificuldade em sonhar sózinha!!! rsss rsss

Mar Arável disse...

Elas e eles

em todos os meios de transporte

e até nas paragens

Luisa disse...

Sonho em todo o lado, é o que resta.

Anónimo disse...

Penso que Antonio Rebordao Navarro faz aqui o retrato da sua epoca.....Um determinado tipo de mulher.... cheirando a cera de sacristia e com a moral toda `a flor da pele....Que moral ? Palma

César Ramos disse...

Amigo Palma,

O seu comentário é o raciocínio correcto, considerando que o autor nasceu em 1933 (parece que ainda é vivo) e, está tudo de acordo com uma época! Outrora, o celibato parecia uma desgraça! Muito embora, Enfermeiras, e Telefonistas da A.P.T. (antiga PT), não pudessem casar-se!... era-lhes vedado!
Ou então... iam para casa! O mesmo se passou com as "hospedeiras de bordo" da TAP!

À luz dos dias de hoje, solteiros e boa rapaziada - homens e mulheres - é o que está a dar!

Um abraço
César

Anónimo disse...

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