[ Vox populi vox Dei ]

2010-08-16

« EFEMÉRIDE do FALECIMENTO de EÇA de QUEIRÓS »


Eça de Queirós, ao morrer em Paris, a 16 de Agosto de 1900, deixava atrás de si uma obra literária de enorme interesse, onde se podem ler algumas das mais belas páginas que é possível encontrar na nossa língua.
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Das letras colheu, sim, honra e glória, e mais que tudo o direito a fixar-se de forma indelével na história da nossa cultura.


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Eça de Queirós foi diplomata. Se, como escritor, Eça foi um génio, como diplomata situou-se numa mediania que nem o esforço laudatório de alguns conseguiu disfarçar.
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Eça utilizou a sua carreira consular para escrever algumas das obras-primas da literatura portuguesa e, só por isso, valeu largamente a pena que o Ministério dos Negócios Estrangeiros lhe tenha pago o salário. O qual, no seu entender, não era suficiente, a crer no que escreve em "Uma Campanha Alegre":

«Os diplomatas portugueses passam por agradar no estrangeiro pela sua palidez! Mas não se sabe que a sua palidez vem, não da beleza da raça peninsular, mas da fraqueza de legação mal alimentada. Onde um embaixador português mais se demora, não é diante das instituições estrangeiras com respeito, é diante das lojas de mercearia com inveja! E se eles não podem alcançar bons tratados para o País – é porque andam ocupados em arranjar mais rosbife para o estômago. Se não fossem os jantares da corte e as ceias dos bailes, a posição do diplomata português era insustentável. E ainda veremos os jornais estrangeiros, noticiarem:

“Ontem, na Rua de… caiu inanimado de fome um indivíduo bem trajado. Conduzido para uma botica próxima o infeliz revelou toda a verdade – era o embaixador português. Deram-lhe logo bifes. O desgraçado sorria, com as lágrimas nos olhos.”

Que o país atenda a esta desgraçada situação! Que tenha um movimento generoso e franco! Dê aos seus embaixadores menos títulos e mais bifes! Embora lhes diminua as atribuições, aumente-lhes ao menos a hortaliça. Eles pedem ao seus país uma coisa bem simples: não é um palácio para viver, nem um landau para passear, nem fardas, nem comendas! É carne! Que o País no número do pessoal diplomático – diminua os adidos e aumente os bois.”»

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Na foto acima publicada - As cidades de Eça -, o escritor feito Diplomata desabafa: Havana... «Detesto-a esta cidade esverdeada e milionária, sombria e ruidosa - este depósito de tabaco, este charco de suor, este estúpido pauliteiro de palmeiras!»




Fotografia da época mostrando o Arco da Rua Augusta
enlutado
e o povo participando no funeral
de
Eça de Queirós

Outra panorâmica do funeral
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(é suposto estar a sair do Palácio das Necessidades)
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.Paris é a última etapa da sua carreira de diplomata. É colocado ali em 1888. Estabelece-se nos arredores da grande metrópole, em Neuilly, e é ali que passa, no aconchego de um lar, que tudo indica ter sido feliz, os últimos anos da sua vida breve.
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O ambiente parisiense marca também, e de forma bem vincada, a sua obra. As crónicas que dali escreveu vieram a constituir o volume dos 'Ecos de Paris'.
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Em 1889 funda a Revista de Portugal, que se publica até 1892 e onde, a par do próprio Eça, encontramos alguns dos melhores nomes da cultura portuguesa do tempo, que todos conhecem.
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Entretanto, também as dificuldades económicas bateram à porta da sua vida, o que não era de estranhar para quem essencialmente vivia dos magros honorários da função que exercia (vidé de novo um extra-texto acima escrito) e dos fracos proventos que lhe advinham das letras. Das letras, aliás, esperava ingenuamente Eça de Queiroz o remédio para os seus males de fortuna. Durante toda a vida não deixará de arquitectar planos, pouco realistas, em verdade, de sucesso económico.
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Era demasiado perfeccionista para fazer fortuna mediante a abundância da produção (lembremo-nos de que grande parte do deu espólio só conheceu publicação póstuma).
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Por outro lado, os seus escritos destinavam-se ao público leitor dum país onde grassava uma altíssima taxa de analfabetismo.
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Muito embora talvez muito a despropósito - mas não ofende -, apetece-me contar aqui que tive um camarada nas Forças Armadas que era descendente deste nosso querido escritor e Diplomata (a seguir direi porque acho que foi, ao contrário do que se pensa, um enorme Diplomata).
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Era o Eça de Queirós, bisneto do nosso 'ex-libris' da literatura portuguesa, quase dois metros de altura e loiro. Terá herdado as necessidades alimentares do bisavô ... "não é um palácio para viver... nem fardas nem comendas! É carne!..." - na verdade, o meu camarada tinha um apetite dificilmente igualado! Era o que na tropa se chamava "um lateiro"!... Gostava de tudo... e de tudo comia em excesso! O que lhe pertencia, mais os restos dos outros! Chegou a defender a sua ' ração', de faca e garfo em riste! Muito pior! Quando lhe agradava a comida, cospia na travessa para ninguém mais lhe tocar!
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Mas isso... era o que ele pensava pois, os outros não se repugnavam e até 'achavam' o petisco mais bem 'temperado' com cuspo!
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A minha dúvida foi sempre pensar como é que o elegante Eça (bisavô), descreveria literariamente tais atitudes alarves do familiar?!
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Lembro-me do célebre Conto "Civilização" e dos requintes sofisticados do Jacinto!... Será que o "aroma do caldo que era de galinha e rescendia... e a travessa de arroz com favas... etc., etc." desequilibraram os cromossomas do meu antigo 'colega'?
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Para terminar, vou deixar no ar uma discordância do que se costuma evocar quanto à fraca capacidade de exercício do Diplomata José Maria Eça de Queirós:
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Salvo raras excepções... não vejo quase mais ninguém que, como Diplomata, tenha sido melhor Embaixador de Portugal e da nossa Língua... do que...
EÇA DE QUEIROZ!
(...)
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8 comentários:

Luís Coelho disse...

Boa homenagem a Eça.
Muitos dos nossos valores nacionais são são distinguidos depois da morte.
É fácil num dia fazer a festa e esquecer as atrocidades que se cometeram antes.
A parte final do lateiro está com bastante humor. Com esse tamanho o homem precisava de mais ração.

Paulo disse...

Excelente homenagem...faz-nos falta o Eça!!

smvasconcelos disse...

Um post muito interessante, informativo e tributário.
E bem visto, que melhor diplomata poderia haver senão um grande defensor e propagador da nossa língua?!
bjs,

Swt disse...

Uma muito boa homenagem ao escritor que, quanto a mim, era, de facto, brilhante! As descrições, com que nos brinda nos seus vários livros, são de um surpreendente bom gosto... as suas críticas sociais e políticas são inteligentes e, ainda hoje, pertinentes.Por isso mesmo, como autor de leitura obrigatória no ensino secundário, é o que mais cativa os jovens e ainda os marca!Sou professora de Inglês, mas oiço os meus alunos queixarem-se de ser aborrecido terem de ler certos autores, mas de Eça gostam e isso observo com agrado.

Luisa disse...

Há que o ler e reler, é o nosso dever.

Excelente Homenagem.

Beijinho

Luísa

Luisa disse...

Há que o ler e reler, é o nosso dever.

Excelente Homenagem.

Beijinho

Luísa

Palma disse...

Eça sempre actual !
"Nas nossas democracias a ânsia da maioria dos mortais é alcançar em sete linhas o louvor do jornal. Para se conquistarem essas sete linhas benditas, os homens praticam todas as acções - mesmo as boas."
Eça de Queiroz

Maga disse...

Eça fez as delicias da mocidade que há tantos anos atrás eu vivi...
Li, primeiro porque era obrigatório, depois por gosto e com apetite voraz, que fazia com que devorasse Eça como se tratasse de alimento celestial... bons anos esses!
Gostei da homenagem, deu-me novamente fome de leitura...
Maga