[ Vox populi vox Dei ]

2010-05-27

« "A TRUTA" de FRANZ SCHUBERT »

Franz Schubert
(Lichtenthal, 1797 - Viena, 1828)




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Dois 'clips' apresentando
"A Truta" em Instrumental
e cantada
( legendas em português)









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Franz Schubert [ Lichtenthal, 1797 - Viena, 1828 ], foi um compositor austríaco, criador da harmonia e modulação romântica, que deve a sua celebridade a mais de seiscentas Lieder (A Bela Moleira e Avé Maria, por exemplo), de inspiração espontânea e profunda.
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Dizer-se-à assertivamente que uma profunda tristeza marca o seu génio (...) entre muitas obras, foi também autor de A Morte e a Donzela, O rei dos Elfos, de oito ou nove sinfonias (A sinfonia inacabada), e de páginas célebres de Música de Câmara ( quartetos, quintetos [A TRUTA]).
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Recuso ser fastidioso, mas apetece-me falar destas pessoas da música que souberam eternizar-se, e fazem dos meus momentos solitários um mundo ao género do cinema, em que tudo se passa acompanhado dos sons mais variados.
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Nos filmes, a cada passo, qualquer bater de coração, qualquer emoção é envolvida por um ambiente musical empolgante, ou... muitas vezes... até não! Este tema (a truta), poderá suscitar a ideia de que sou entusiasta pela pesca! Quem me conhece pessoalmente, sabe que não é nada disso. Um dia, comprei um equipamento completo para ir à pesca e..., na hora de espetar minhocas nos anzóis, ou, pior... espetar pequenos peixes vivos naquelas barbelas, parecidas com agulhas de 'crochet', não fui capaz! Ainda para mais, quando um desses coitados, vendidos como isco, me suplicou que o deixasse! Verdade...!... "relinchou" , ou lá o som que emitiu,... suplicando que o deixasse. E deixei...! atirei-o para a água,e as minhas 'pescarias' ficaram logo ali,... à beira da muralha.

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Afinal de contas, o 'cavaleiro andante', cinturão negro de artes marciais, que parte as 'ventas' ao primeiro marginal que se portar mal na sociedade, particularmente com senhoras, crianças ou idosos, não faz mal a uma mosca e, desvia-se dos bichinhos de conta para não os pisar...!
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Como 'felizmente' também tenho os meus detratores, vou ficar à espera de alguém que - o hábito é o anonimato -, me vá questionar se, porventura para mim os bifes nascem nas árvores!
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A "Truta" é uma das mais belas e famosas canções de Schubert. Ao mesmo tempo, será também uma das mais tristes, contando-nos a história de uma truta que vivia feliz nas águas de um rio, até ao dia em que se deixou prender no anzol de um pescador ...
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Penso que o presumível leitor, começará a entender porque gosto desta interpretação musical...!
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A vida é feita destes dramas, que são naturais - ainda que não tenhamos verdadeira capacidade para os explicarmos de forma suficientemente convincente... - e se o pescador tivesse fome ou a truta servisse para tirar a fome à sua família tudo estaria certo: é a vida que se preserva e prolonga graças a outra vida...
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Pelo contrário, se o pescador tirar a vida à truta ou a qualquer outro peixe que viva feliz nas águas do seu rio apenas por desporto ou aberrante divertimento com base no sofrimento e morte de um ser vivo que é seu irmão na Natureza, parece-me evidente que se trata de um acto sádico - e não mais do que isso...!
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Schubert visitava com alguma frequência a pequena cidade industrial de Steyer. Numa dessas estadas, encontrou-se com um dos seus grandes amigos e protectores, o cantor Vogl, que seria também um dos seus primeiros e sem dúvida melhores intérpretes.
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Johann Michael Vogl era natural da região, tinha lá muitos conhecimentos, e apresentou o compositor - ao longo de toda a sua vida um homem bastante pobre, atingido em determinadas ocasiões verdadeiros estados de indigência... - a alguns amigos.
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Entre eles estava o violoncelista Paumgartner, que seria, ao que se sabe, um excelente instrumentista, quase ou mesmo um chamado virtuoso do violoncelo.
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Foi ele quem propôs a Schubert a composição de uma obra de câmara que viria a ser para violino, violeta, violoncelo, contrabaixo e piano - estrutura essa que não é de modo algum das mais comuns.
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Uma das explicações para isso estará precisamente no facto de Paumgartner ser tão bom músico, pelo que a inclusão do piano quase que condenaria o violoncelo a uma missão secundária, encarregando de pouco mais do que dos baixos.
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Nestas circunstâncias, o compositor optara por formar o quinteto com um contrabaixo que se ocuparia essencialmente desses baixos, enquanto o violoncelo iria figurar entre os instrumentos mais ligados às partes melódicas.
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A explicação é plausível, sobretudo atendendo a que Schubert era uma pessoa conhecida pela sua extrema simpatia e cordialidade.
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De qualquer nodo, a obra é magnificamente escrita, transformar-se-ia num clássico da música de câmara e o contrabaixo também não seria relegado para missões secundárias e de mero acompanhamento.
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No fundo, trata-se de uma série de variações sobre o lindíssimo tema da "Truta", o qual só aparece claramente citado depois de uma longa introdução.
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Schubert compunha com uma extraordinária rapidez, pelo que é de admitir que a peça ficasse terminada durante essas férias na cidade de Steyer, mas há também indícios de que a versão final já tivesse sido escrita de regresso a Viena, no Outono de 1819, tinha o compositor apenas vinte e dois anos de idade (...)!
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Viena foi, durante o século XVIII, um alfobre... ou melhor: um centro de cultura musical em que se encontraram os grandes mestres e se desenvolveram as formas musicais clássicas.
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Haydn deu um novo impulso à sinfonia, ao quarteto de cordas e à sonata para piano; Mozart aplicou as experiências adquiridas; Beethoven desenvolveu ao máximo as formas anteriores.
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Em Shubert vislumbra-se já um sentido lírico que irá adquirir grande força mais tarde.









Legenda
Fontes:
Algumas
consultas de obras diversas
da Biblioteca Piteira Santos
da Câmara Municipal
da Amadora.

Imagens: Selecção na Internet.


10 comentários:

trepadeira disse...

Meu caro César

Texto magnífico.
Detractores?"quando alguns concordarem comigo,mudo de posição,estou errado de certeza absoluta.
Essa dos bifes não nascerem nas árvores,tem por base a mesma maneira de estar na vida da outra,não há almoços gratuitos.Pois não.Para aqueles que só pensam em acumular dinheiro e poder,tão de acordo com a situação actual,terão sempre de pagar o que comem,enquanto os deixarem.

Um forte abraço,
mário

Keila Costa disse...

Obridada pela visita César! Os animais também são uma paixão, vejo-os tão melhores, muitas vezes, que nós humanos...e o detalhe do contrabaixo como instrumento de destaque sempre me consola, dada a sutileza do seu som, que carece mais atenção...custei a ouvi-lo, o som do baixo...confesso...mas depois que se deu...encantei-me. Abraços

Keila Costa disse...

Oi César,
Esses dias recebi a gentileza do selo Blog de Ouro. Como aprecio muito do seu blog, sua forma de dizer e sobre o que diz, gostaria de estendê-lo a você. No entrelugares tem um texto chamado Blog de Ouro que fala de algumas regrinhas sobre o selo...caso ache proveitoso o faça. Abraço grande, Keila

Graça Pereira disse...

Gosto da obra de Schubert... a sua Avé-Maria encanta-me e emociona-me...
Particularmente...gosto da Truta (não no prato...)pela sua musicalidade e pela sua própria história..
Mais uma vez o teu blog está de Parabens...pela temática e qualidade.
É um gosto visitar-te.
Beijo e bom fds
Graça

Teresa disse...

Olá César
Também gosto de algumas composições de Shubert. Mas apetece-me falar da sua atitude face aos animais, que eu admiro e partilho. E, mais uma vez, gosto da forma como escreve. Acabo sempre por me divertir a lê-lo.
Bjs

Luisa disse...

Escutei estas duas versões da Truta, gostei de ambas, nunca tinha escutado a versão cantada. Mais um bom post. Que sensibilidade a sua! É bom saber da existência de pessoas como o César.

Abraços
Luisa

Palma -Louletania disse...

Daqui de Loulé mais um elogio para o post do Cesar. Dá-se ao trabalho mas sai obra.... rsss.
Uma melodia de que gosto em especial e que o mundo inteiro conhece, é a célebre Ave-Maria melodia que por mais vezes que se oiça nunca cansa.
Ave Maria de Shubert -

Ave Maria
Gratia plena
Maria, gratia plena
Maria, gratia plena
Ave, ave dominus
Dominus tecum

Benedicta tu in mulieribus
Et benedictus
Et benedictus fructus ventris
Ventris tuae, Jesus.
Ave Maria

As Vozes dos outros disse...

A Música é realmente uma das artes que pode estar presente em todos os momentos da vida....desde a nascença à morte. As Vozes....

Sueli disse...

"Serenata" de Schubert faz-me lembrar de meu pai. Ele adorava essa música. Meu querido amigo, eu não sumi, não, é que tenho dois blogs e participo de um terceiro. Gostaria que os visitasse também: Fenixando (http://suelifenixando.blogspot.com/)e Bloggirls (http://asmeninasdoblog6.blogspot.com). Um abraãao!

Amapola disse...

Adorei esse blog. Voltarei depois, para ler com mais calma.

Um abraço.