[ Vox populi vox Dei ]

2010-05-19

« JOHANNES BRAHMS... O COMPOSITOR MAL AMADO... »

Johannes Brahms
(Hamburgo, 1833 - Viena, 1897)



Selo de Correio Comemorativo do Compositor
Evocando o Homem na juventude


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Túmulo no Cemitério Histórico de Viena

Grande plano de placa comemorativa



Esta é a "SINFONIA nº 2" de BRAHMS,
que muitos 'confundiram' com a «Pastoral» de Beethoven,
a sexta sinfonia deste compositor.
[Houve na época uma tendência para associar a linguagem musical destes dois grandes
Génios da Música]



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Johannes Brahms, comemoraria neste mês de Maio 177 anos de idade. É importante não deixar nunca de falar destas figuras que marcaram a sua e as épocas que se sucederam, e independentemente da evocação, é mister ainda prestar atenção à obra que deixaram para a posteridade.
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Foi compositor alemão, autor de obras para piano e director de orquestra. O seu trabalho cabe plenamente na última época do romantismo, aquela que melhor representou o sector reaccionário; não procurou possibilidades técnicas que supusessem uma evolução. Escreveu para orquestra (2 serenatas, 4 sinfonias, 2 concertos para piano e 1 para violino) e para vozes com acompanhamento de orquestra (Avé-Maria, «Réquiem» Alemão), canções e... muito mais!
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Brahms é uma figura que desperta controvérsias, conquanto seja praticamente impossível recusar que se trata de um dos maiores músicos de todos os tempos.
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Pessoalmente, na fase difícil que atravesso na minha vida, faço-me acompanhar por este grande autor, ouvindo-o no carro ou em casa na "Vals en La bemol mayor, Op. 39/15"! Em seguida sucedem-se outras interpretações. Porém..., a interpretação que referi é muito curta! Preenche apenas um minuto e trinta e um segundos de espaço temporal, que é proporcional à lágrima que me vai escapando, sem eu querer!
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É mesmo assim: cada toque numa tecla do piano... é uma aflição... seguida de um alívio (...)
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Sendo muito vasto o número daqueles que o admiram quase sem reservas - estou entre eles -, o facto é que também não se poderá apontar em Brahms o exemplo acabado de um autor verdadeiramente amado pelo público!
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Brahms teve uma infância muito difícil em Hamburgo, cidade onde nasceu, num dos bairros mais mal afamados da Europa daqueles tempos!
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Isto não significa que o pai - pertencente a uma família tradicionalmente ligada a uma severa formação religiosa luterana - não tratasse o filho com naturais desvelos e até com grande ternura, mas a vida obrigava-o a actuar quase todas as noites como pianista em Bares da zona portuária frequentados por prostitutas, marinheiros de arribação, aventureiros e diversos outros representantes de uma sociedade ligada à marginalidade.
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Por razões não muito claras, o pai de Brahms costumava levar o filho com ele para esses lugares de trabalho, pelo que, com o decorrer da noite, o pequeno Johannes acabava muitas vezes por substituir o seu progenitor ao piano, acabando também ele por ceder ao sono, adormecendo ternamente embalado ao colo de uma das prostitutas de serviço no local (...)
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Curiosamente, estes dois elementos, a severidade da educação protestante e uma assumida simpatia pela classe das prostitutas, sempre se conjugaram na sua personalidade.
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E essa estranha conjugação também se verifica na sua obra.
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Com efeito, até dentro de uma mesma peça, Brahms pode mostrar-se um compositor austero (havendo quem defina essas características com a expressão "neo-clássico"...), embora, subitamente, deflagrem verdadeiras explosões de romantismo e também abordagens do reportório mais popular.
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Nietzsche - o filósofo - que foi um excelente musicólogo e até um razoável compositor - considerava que Brahms ocultava-se atrás de uma imagem de severidade ou mesmo de frieza, patente na solidez formal, quase monolítica, de muitas das suas páginas, ainda que, num repente de sinceridade, fizesse confissões quase desbragadas dos sentimentos mais íntimos (...)
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Tudo isto determina que a estética de Brahms não seja facilmente classificável, podendo as atitudes extremarem-se ao ponto de uns colocarem Brahms no topo dos maiores criadores de sempre, enquanto outros o classificam como uma espécie de burocrata da música.
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Brahms tinha, sem dúvida alguma, formas diversas de abordar a expressão musical e podemos admitir que revelava em qualquer dessas situações um verdadeiro pragmatismo na forma de resolver os problemas.
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A sua música nunca é previsível, pode até ser surpreendente, mas sente-se que se trata de alguém que sabe para onde vai e que só vai para onde quer. Mesmo o 'desbragamento' de sentimentos a que Nietzsche se referia é sempre produto de uma opção previamente racionalizada (...)
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A sua primeira Sinfonia, estreou-se após largos anos de trabalho e de maturação.
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Pelo contrário, a Sinfonia nº 2 foi composta durante umas férias de Verão! Muito embora tenham características diferentes, têm ambas particularidades que podem considerar-se imutáveis no compositor.
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A necessidade de classificar, ou criticar, leva os analistas musicais a associar sistematicamente Brahms à figurar tutelar de Beethoven, pelo que até houve quem chamasse «Pastoral» à sua 2ª Sinfonia, insistindo na associação do compositor de Hamburgo ao consagrado mestre de Viena, cuja 6ª Sinfonia se celebrizou com esse nome[Pastoral]!
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Será escusado negar que existe uma relação entre certos elementos da música de Brahms e a linguagem musical expressiva de Beethoven; mas o próprio Brahms terá comentado essa constatação tão judiciosa como banal, resmungando em dada altura:
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- Até um asno percebia isso!...
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De facto, a personalidade de Brahms é tão marcante, tão poderosa, tão rica de significados originais, e em muitos aspectos até incomparável, que se torna penoso confrontar-nos com comentários críticos que façam perder tempo a explorar evidências (...)
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Dedicou grande parte da actividade ao piano, principalmente na juventude e... depois, na velhice.
Antes de terminar, e para justificar o epíteto de reaccionário em cima referido, interessa explicar que em 1860 cometeu alegadamente um erro: assinou, junto com outros músicos um manifesto contra a escola neo-alemã, de Lizt e Wagner.
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Embora não fosse afecto a polémicas, deixou-se arrastar e entrou naquela, o que lhe valeu a designação de reaccionário! Mais tarde, a opinião de Schumann alteraria a opinião pelo que a classificação foi alterada para Brahms, o Progressista!
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A sua última obra orquestral é o Concerto Duplo, para Violino e Violoncelo. É um dos trabalhos mais apaixonantes. O diálogo entre os solistas no movimento lento é um dos pontos altos de toda a produção "brahmsiniana", e vale como uma resumo de toda a sua obra!
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Todavia... o último trabalho publicado foi o ciclo Quatro Canções Sérias, onde praticamente despediu-se da vida. Ofereceu a colectânea a si próprio de presente, no aniversário de 1896.
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Johannes Brahms faleceu ano e meio depois, no dia 3 de Abril de 1897.
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Desde sempre e tal como nos dias de hoje, por muito valor que se tenha, quem tiver a pecha de mal nascido - leia-se o que se entender -, na falta de berço de ouro e uma enorme moral à cabeceira, será um «mal amado» e confundido com outros que não tocaram piano em tascas, nem adormeceram ao colo de nenhuma rapariga da alegada vida fácil!






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Fotos da Net


10 comentários:

trepadeira disse...

Meu caro César

Lembrar Brahms é sempre uma redenção.

Belo texto.
O último parágrafo é,no mínimo,"demolidor".

O tal abraço guerrilheiro,

mário

As Vozes disse...

Música de luxo para um blog de luxo..rs só poderia ser assim. " As vozes dos outros" agradecem o prémio que o Cesar nos enviou e desejamos desde já para o Alfobre de Letras longa vida, com grandes músicas e grandes textos. Logo que possível colocaremos o Prémio à vista. ( Se reparou não somos grandes artistas rssss nesta coisa de manejar com desenvoltura estes mecanismos...... rss) Abraço

As Vozes... disse...

Música de luxo para um blog de luxo..rs só poderia ser assim. " As vozes dos outros" agradecem o prémio que o Cesar nos enviou e desejamos desde já para o Alfobre de Letras longa vida, com grandes músicas e grandes textos. Logo que possível colocaremos o Prémio à vista. ( Se reparou não somos grandes artistas rssss nesta coisa de manejar com desenvoltura estes mecanismos...... rss) Abraço

Luisa disse...

Olá César,

Presenteou-nos com um belo texto que acrescentou algo em mim. Esta sinfonia é bela e contagiante, repare-se na fácies do maestro em puro deleite.

Já tinha saudades de aqui vir.

Abraços
Luisa

Anónimo disse...

Muito bem como são todos os seus posts. Descobri-o através das Vozes dos Outros e passo por aqui sempre que posso. Fernando

Henrique ANTUNES FERREIRA disse...

Avé César

Descobri-te no PANORAMA do nosso Luso de Carvalho. Vim até aqui e gostei. Primeiro que tudo, porque está muitíssimo bem escrito. Depois porque nos ensina coisas que, por vezes, passam ao nosso lado.

É o caso de Brahms que ouvi, não me sugestionou, e agora voltei a ouvir por mor deste teu exemplar texto. E estou em vias de modificar a impressão inicial...

«Desde sempre e tal como nos dias de hoje, por muito valor que se tenha, quem tiver a pecha de mal nascido - leia-se o que se entender -, na falta de berço de ouro e uma enorme moral à cabeceira, será um «mal amado» e confundido com outros que não tocaram piano em tascas, nem adormeceram ao colo de nenhuma rapariga da alegada vida fácil!»

A transcrição que me permiti fazer só representa o apreço que o trabalho me mereceu. É uma conclusão forte, mas da qual partilho e subscrevo.

Bom, agora o pedido à boa maneira portuga: faz uma visitinha à Minha Travessa para veres quem sou e se gostas do blogue. Desde já to agradeço. O Pedrão e a Tais, esses, gostam...

E se quiseres inscrever-te como meu (per)seguidor, isso então nem se fala...

Abs

Nádya Portela Duarte de Carvalho disse...

Como sou uma apaixonada pela obra de Brahms, encontrei seu blog e fiquei encantada.
Sobre o texto, concordo com o que você diz sobre sua música nos surpreender pelos contrastes. Vide as Baladas para piano, são um ótimo exemplo e escritas em sua juventude.
Parabéns.
Nádya

Keila Costa disse...

Obrigada pela gentileza de proporcionar tão bela música...dessas que oscilam como a vida...entre agonia e suavidade...
Abraços

Anónimo disse...

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Lidice Gomes disse...

Gostaria de saber o nome da música de Brahms tocada no filme Um Conto do Destino. Grato.