[ Vox populi vox Dei ]

2010-04-23

« UM 25 de ABRIL à GUILHERME TELL »









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No ano de 1815, quando Friedrich Schiller escreveu o seu Guilherme Tell, sopravam na Europa ventos de Liberdade e de União. Ouviam-se vozes singulares e plurais, e por vezes o grito dos grupos tornava-se confuso. Era uma época de grande força criadora, mas nem sempre com um objectivo firme ou seguro. Schiller era filósofo e poeta, dramaturgo e autor de canções, ao mesmo tempo que homem da sua época e um pesquisador apaixonado pelo passado.
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Estas actividades conjuntas faziam com que a sua voz (ou o seu canto?) fosse ouvida com atenção e inspirasse ideias de claridade e grandeza em versos sempre sonoros... mas o objectivo e o resultado eram documento ou lenda? Referia-se ao passado ou a um passado que tinha que ver com o presente?
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Repetir estas perguntas quando o «presente» se tornou passado, levanta novas interrogações. Vivemos numa época de grande memória e de grande esquecimento. Muitos dirão:
- Quem não conhece Guilherme Tell, o soberbo atirador que foi capaz de a 80 passos acertar com uma flecha na maçã colocada na cabeça do filho? Mas, seria só isso o que Schiller narrou? Trata-se apenas de uma fabulosa perícia?
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A narração não termina aí, e o assunto - que Schiller tratou com nitidez - não é apenas uma história ou um recorde desportivo. Há uma terceira figura que surge no ambiente (o malvado Gessler) que obriga Guilherme Tell a atirar a seta. Qualquer erro seria a morte do filho. Sacrificá-lo porque assim o ordenava Gessler, seu superior? No momento culminante, Guilherme Tell, perante o filho e a maçã, calcula a distância... e prepara a segunda flecha. Instantes depois acerta no alvo, partindo a maçã em duas, e consegue com a sua destreza obedecer à ordem, e ao mesmo tempo não matar o filho. Gessler, invejoso e espantado, pergunta:
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- Para que era a segunda flecha que escondeste no peito?
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E Guilherme Tell, que não sabia mentir, responde:
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- Para ti! Esta flecha iria direita ao teu coração se com a outra ferisse o meu filho.
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Esta resposta - e esta flecha - mudam o sentido da fábula. Guilherme Tell não é apenas um homem obediente. Também não é um irreflectido que se revolta antes de experimentar a sua verdadeira força. É o homem capaz de cumprir a ordem sem derramar o sangue querido. Mas se fosse outro o resultado, saberia rebelar-se e defender o que era seu.
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É curioso que este diálogo tenha sido esquecido pela memória popular. E recordam-se tantas frases escritas por Schiller a propósito deste feito! A obra original é principalmente isso: frases, declarações, grupos que exprimem em bela linguagem as suas intenções e descrevem paisagens, visto que nessa época o teatro romântico convidava as famílias a fecharem-se numa sala e a olharem para um cenário cheio de papel pintado. Durante a representação, as personagens falavam da Natureza, das correntes de água. Os pássaros, o verde da floresta, só aparecia pintado. Confiava-se na força das palavras.
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E as palavras eram tão fortes e convincentes que o Guilherme Tell de Schiller suplantou o herói do mesmo nome que viveu nos Cantões Suiços em 1300.
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Teria Guilherme Tell existido? - pergunta tantas vezes discutida por eruditos pouco sensíveis à ambiguidade poética. Ter-se-á chegado a uma resposta. Sem dúvida que Guilherme Tell existiu. E até duas vezes. Uma em carne e osso, por volta de 1300. Outra, em verso e alma, em 1800. E continuará a existir, sabe-se lá quantas vezes mais, nos muitos homens que ao receberem a ordem fulminante de disparar contra o seu próprio sangue guardarem duas flechas no peito: uma para obedecer a quem reconhecem como seu chefe, a outra para defender os seus direitos, liberdades e garantias quando estes estiverem em perigo.
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Aproxima-se o 25 de Abril, um grande dia para os portugueses. Entretanto, algo faz lembrar a falta de entusiasmo (?) que por aí anda pelos direitos, liberdades e garantias, pois, salvo melhor opinião, as pessoas mudaram muito desde 1974 para cá.
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O mundo anda em 'des-conserto' e, talvez por isso mesmo, daí o valor acrescentado da celebração deste dia e do que ele significa.
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A alegada crise económica faz com que muitos de nós coloquem as questões económicas em primeiro lugar... e se ache que nos podem tirar direitos, porque existe uma crise.
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Talvez fosse conveniente atentar que, nem todos são bons atiradores como Guilherme Tell o foi, e pode dar-se o caso de ter que utilizar mesmo a segunda flecha!
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Será bom "avisar toda a gente"... e, lembrar que não se admite o regresso dos "vampiros" que comem tudo,... e não deixam nada!

7 comentários:

Graça Pereira disse...

A comparação entre o 25 de Abril e Guilherme Tell...está fantástica!
Mas a memória do homem é curta e muitos já nem se lembrarão porque aconteceu um 25 de Abril...Outros, dão-lhe outro significafo de acordo com os seus intereses e conveniências e...quanto aos vampiros já andam por aí e já são tantos que se vão comer uns aos outros...não te lembras do filme?
Um beijo e bom fds
Graça

César Ramos disse...

Graça,

Não sei se me lembro bem do filme!
Mas que estou a ver o "filme"... lá isso estou!

Olha... eles que se comam uns aos outros, tipo ratazanas de água, desde que não nos chupem o 'sangue', como parece que estão na disposição de o fazer!

Um abraço Graça e votos de um bom fim de semana.

César

Palma disse...

Há muito quem se tenha esquecido do 24 chegando a deitar vivas a esse tempo de penúria, de atraso, de tortura, de guerra, de pata descalça etc etc. Daria para escrever uma noite inteira. É interessante que pertencendo eu a um grupo de Teatro Amador,nesta altura do anos fazemos sempre uma noite com poemas, canções, filmes o que provoca nas gerações de agora um espanto como se nunca do antigamente tivessem ouvido falar.
Possívelmente nas suas casas os familiares esqueceram ou não têm paciência para contar porque ou estão preocupados em mudar de carro de maior celindrada ou com as próximas férias na Escócia. Mas enfim....temos a obrigação moral de transmitir a este pessoal de agora o que foi o antes para que amanhã não julguem que tudo o que se conseguiu, caíu do céu com a vinda de algum Papa ou de outra personalidade idêntica. Um bom fim de semana e ViVA o 25 que mudou as nossas vidas. Palma

Austeriana disse...

As histórias com História, às vezes,tocam-se, como prova, de resto, este interessante diálogo entre os acontecimentos relacionados com o 25 de Abril e o episódio de Guilherme Tell.

FELIZ 25 DE ABRIL!

Abraço.

Reaças disse...

Viva o 24 de Abril.
Abaixo o 25 de Abril.
Viva o 25 de Novembro de 1975
Abaixo o 11 de Março de 1975

Vitor disse...

Por agora não vou deixar nenhum comentário. Pretendo apenas transmitir ao César Ramos o meu grande contentamento por o ter encontrado aqui.Espero pelo seu contacto no Facebook. Até lá, um grande abraço
Vitor Matias

César Ramos disse...

Boas,

Se o Vítor Matias é quem eu penso, então, não tenhamos dúvidas de que o Mundo é mesmo pequeno!

Vou fazer a diligência junto do Facebook, muito embora eu tenha aquilo tudo suspenso (...)

De qualquer modo, quem é conhece-me e, agradeço a sua reacção de amizade!

Até à próxima! Pelo menos por aqui,
na "reforma agrária" do Alfobre!

Um abraço

César