[ Vox populi vox Dei ]

2010-01-26

« SARA (a egípcia)... A SANTA dos CIGANOS »

SANTA SARAH KALI
- escrava indiana ou egípcia -
[Considerada Padroeira dos Ciganos]
Crença que remonta aos primórdios
do
Cristianismo




Pintura a óleo, Col. Museu do Chiado - Lisboa - Portugal
Autor: Eduardo Viana (1891-1967)
Título da Obra: «Pousada de Ciganos»
(Também já foi chamada: «Acampamento de Ciganos»)

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O pintor Eduardo Viana foi discípulo de Veloso Salgado e de Columbano Bordalo Pinheiro na escola de Belas Artes de Lisboa. Foi Artista da primeira geração modernista portuguesa.
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O tema da obra expõe como em tempo se deslocavam os ciganos pelos caminhos, nómadas, montados em animais subalimentados, eles próprios desprovidos de condições de vida. Neste ambiente retratado pelo nosso ilustre pintor de arte, vamos instalar a acção da peregrinação religiosa em intenção da Santa Padroeira Sara, mãe dos Ciganos, considerada padroeira do povo cigano numa tradição - crença - que remonta ao início do cristianismo.
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Os primeiros cristãos eram perseguidos pelos romanos e Sara, uma escrava indiana ou egípcia (não se sabe ao certo) 'propriedade' de José de Arimatéia, foi capturada juntamente com as três Marias (Maria Madalena, Maria Salomé e Maria Jacobé).
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As quatro mulheres foram colocadas num barco que foi lançado ao oceano, sem remos nem provisões. Por milagre, após mais de um mês vagando sem rumo no mar, o barco aportou em Laguendoc, no Sul da França, na ilha de Camargue, um local que seria conhecido mais tarde como Saintes Maries-de-La-Mer [Santas Marias que vieram do Mar].
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Um grupo de ciganos que vivia por ali, socorreu as quatro mulheres e elas, em troca, levaram ao grupo ensinamentos de Jesus, trazendo para eles a doutrina cristã.
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Após a partida das chamadas "Três Marias", conta a História que Sara continuou convivendo com os ciganos e passou a ser chamada de SARA KALI, a palavra "Kali" significa "negra" na língua romani, ou români - idioma dos Rom e dos Sintos, povos nómadas conhecidos pela designação de ciganos; ramo indo-ariano do grupo linguístico indo-europeu. Não deve ser confundido com as línguas latinas 'romeno' e 'romanche'.
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Poucos anos depois da morte de Jesus, José de Arimatéia fugiu da Palestina, levando consigo a Maria Salomé, Lázaro e as suas irmãs Maria e Marta.
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Esse grupo aportou na costa francesa na foz do rio Ródano, a partir de onde Lázaro realizou um trabalho apostólico por toda a província romana da Gália; o local tornou-se, por isso, um dos centros de peregrinação da Europa Medieval.
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O resultado do encontro da religião antiga com as novas crenças cristãs foi o surgimento, na região, do culto de uma santa negra, provavelmente o sincretismo da Grande Mãe-Terra pré-cristã com a Virgem Maria (o que foi muito comum na Europa , durante a Idade Média).
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De acordo com uma lenda, o grupo de José de Arimatéia trouxera uma escrava negra chamada Sara; outra versão diz que Sara era uma habitante do lugar que acolheu os exilados, seja como for, cresceu na região da Camargue o Culto de Santa Sara.
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Como em todas as matérias de culto religioso, as dúvidas, os mistérios e o desconhecimento da génesis das crenças levam, todavia, as pessoas a aceitarem sem discussão as incongroências alegadamente históricas, e assumirem-nas como mistérios dogmáticos. Assim, temos que enquanto as crenças espirituais ciganas são pagãs de natureza, a maioria dos ciganos foram batizados, e respeitam a parte essencial da religião cristã.
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Voltando às movimentações peregrinas de milhares de ciganos em devoção à sua Santa, vamos encontrá-los durante toda uma noite, na cripta da Igreja-fortaleza de Saintes-Maries-de-la Mer, onde repousam as relíquias da sua patrona Sara, reunidos para rezar. Fiéis à tradicional peregrinação de Maio, as caravanas características deste povo nómada cobertas de pó, puxadas por cavalos esqueléticos, vindo de todos os cantos da Europa depois de terem vencido dificuldades sem conto na deslocação.
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Esta narrativa escrita neste início do século XXI pretende - lembremos -, dar vida ao ambiente recriado pelo pintor Eduardo Viana, tirando-os da tela a óleo pintada e colocando-os na estrada e na senda do seu fervor religioso no tempo, e na sua época.
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Vamos portanto encontrar nos terrenos que rodeiam a Câmara Municipal da pequena aldeia, as carroças quase desmanteladas, alinhadas ao lado de sumptuosos automóveis. Depois, os recém chegados ocuparam em vagas de assalto o santuário que contém os restos de Maria Jacobé, Maria Salomé e as recordações de Sara que, cada vez mais a tradição a identifica como sendo a egípcia. À sombra da cripta, os ciganos gemeram, choraram, cantaram melodias estranhas a que chamam cânticos.
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Quando rompeu a luz da madrugada, ouviu-se uma explosão de entusiasmo, em gritos de «Vivam as santas Marias!»; «Viva Santa Sara!».
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Por uma porta da Igreja, ornada de flores de papel da peregrinação do ano anterior, as urnas preciosas são trazidas para junto da multidão. É o momento de grande expectativa e emoção. Por toda a parte, as mãos estendem-se para tocar as relíquias. Os «rabomins», conforme eles próprios se intitulam, procuram beijar os cofres sagrados.
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Um turbilhão frenético sacode xailes multicolores. Por entre o fumo do incenso, distinguem-se rostos morenos, cujos olhos se revolvem em êxtase. Massas ondulantes de cabelos negros agitam-se num frenezim furioso. E ritmadas pelo bater de pesados braceletes, as manifestações redobram de intensidade: «Santa Sara! Santa Sara!».
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No fim da missa, começa a procissão. As estátuas das santas são trazidas até à praia, onde os guardas da Camargue, descendo dos seus cavalos e entrando na água, até aos joelhos, as imergem. Num barco florido reservado ao clero, o Arcebispo benze o mar e os peregrinos. Logo que as urnas voltam para a Igreja, por entre os gritos e as exclamações ensurdecedoras, redobram as rezas e os cânticos. E quando o azul da noite cai docemente do céu, eleva-se no ar a fumaça dos pequenos acampamentos.
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Em volta das marmitas, ao lado dos cavalos e de cães desnutridos, de crianças seminuas de ventres dilatados como odres, os ciganos cantam, bebem e dançam.
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Vozes roucas rompem em canções nasaladas e voluptuosas. Acordes de guitarras são levados para longe, pelo vento. Às vezes, estala o ruído de um zaragata, mas a festa continua...
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Aos primeiros alvores do dia, as caravanas reorganizam-se e reiniciam a sua eterna viagem, através da poeira dos caminhos da Europa.
Assim decorreriam os rituais, no tempo em que o nosso pintor elaborou o quadro; todavia, brevemente outra peregrinação vai ter lugar e pouco estará modificado!
Os guitarristas irão tocar ininterruptamente, nem todas as jovens satisfarão os presentes mas todas elas sabem e irão dançar, abandonarão as roulottes e os automóveis para se lançarem na cripta em histeria religiosa e, logo após um clérigo qualquer ter abençoado o mar, as mulheres lançar-se-ão nas águas purificadoras por entre as ondas, dançando com alegria e muita superstição!...
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Os ciganos, para obterem as graças do céu, irão rezar como sempre a Maria Salomé, a Maria Jocobé e...
a SARA,... a Egípcia.
(Fotos: in net)

1 comentário:

Luisa Moreira disse...

Bonita história, César. Desconhecia que os ciganos eram devotos desta santa. O óleo "Pousada de Ciganos", é lindíssimo.

Abraços
Luisa