[ Vox populi vox Dei ]

2010-01-28

« ... BOBBY..., CANIS FIDELIS ! »






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Em 1864, em Edimburgo, Escócia, vivia um idoso homem chamado John Gray. Durante toda vida tinha sido um fiel pastor de ovelhas, enfrentando bravamente perigos e intempéries para defender o rebanho.
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Com quase setenta anos, ainda conservava o coração e a habilidade de um pastor, mas não a saúde necessária. Suas pernas já não podiam escalar as pedras para resgatar uma ovelha ou para espantar um predador. E embora a família para quem trabalhava gostasse muito dele, as finanças iam mal e não podiam conservá-lo.
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Assim, mancando por fora e magoado por dentro, lá se foi ele de comboio, deixando a sua terra natal rumo a um novo lar na cidade.
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Gray fazia um pouco de tudo e ganhou muitos amigos naquela cidade de mercadores. Eles gostavam do velho Gray pelo seu sorriso simpático, e por suas habilidades nos mais variados trabalhos.
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Mas, apesar de tantos amigos, sua família era constituída apenas por ele e um cachorrinho Fox Terrier – ou Skye Terrier - que ele adoptou com o nome de Bobby.
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John Gray e Bobby eram inseparáveis e estavam sempre juntos na rotina de passar pelas lojas em busca de biscates. Todos os dias eles começavam pelo restaurante local, onde recebiam de comer em troca dos serviços de Gray.
Depois, continuavam de porta em porta, até que, finalmente, à noite, os dois voltavam para um sotão que lhes servia de refúgio.
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Dizem que muitas pessoas pressentem quando a morte lhes bate à porta. Foi assim com John Gray.
Já havia passado quase um ano desde que chegara à cidade. Agora, em pleno Verão, as colinas estavam em flor. Um dia, ao amanhecer, ao invés de levantar, o velho Gray puxou sua cama até perto da janelinha do quarto.
E lá ficou, olhando as montanhas distantes de sua amada Escócia.
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Bobby - disse ele afagando o pêlo escuro e denso do cachorro, com a mão que agora só tinha a força do amor -, é tempo de eu partir... Eles não conseguirão afastar-me novamente da minha terra.
Sinto muito, camarada, mas vais ter de te cuidar sozinho daqui por diante.
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John Gray [vitimado pela tuberculose], foi enterrado no dia seguinte num lugar pouco comum para pobres. Por causa do lugar onde morreu e da necessidade de ser enterrado rapidamente, os seus restos mortais foram colocados num dos cemitérios mais nobres de Edimburgo, o Cemitério de Greyfriar.
Entre os grandes e mais nobres homens da Escócia, foi enterrado um homem comum e simples. Mas é aqui que nossa história começa.
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Na manhã seguinte, o pequeno Bobby apareceu no mesmo restaurante que ele e Gray visitavam cada manhã. A seguir, ele fez a ronda das lojas, como ele e Gray sempre haviam feito. Isto aconteceu dia após dia. Mas à noite, o cachorrinho desaparecia e somente reaparecia no restaurante no dia seguinte.
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Amigos do velho Gray interrogavam-se onde o cachorro ia dormir, até que o mistério foi resolvido. Cada noite, Bobby não ia à procura de um lugar quente para dormir, nem mesmo de um abrigo para o proteger do frio e da chuva constantes da Escócia.
Ele ia até ao cemitério Greyfriar e tomava posição ao lado do seu dono.
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O guarda do cemitério enxotava o cachorro cada vez que o via. Afinal, existia uma ordem expressa, proibindo a entrada a cães nos cemitérios. O homem tentou consertar a cerca e até pôs armadilhas para caçar o cão. Finalmente, com a ajuda do chefe da Polícia, o pequeno Bobby foi capturado e preso por não ter “licença”.
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E uma vez que ninguém podia apresentar-se como legítimo dono daquele cachorro, parecia que Bobby teria de ser abatido.
Amigos do velho John Gray e de Bobby, que souberam do caso, foram até à Câmara local a favor do cão. Finalmente, chegou o dia, quando o caso deles iria ser presente às altas instâncias camarárias de Edimburgo.
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Seria quase um milagre salvar a vida de Bobby, sem mencionar o tornar possível, para aquele cão fiel, poder ficar perto do túmulo de seu amigo.
Mas foi exactamente o que aconteceu, como um acto sem precedentes na História da Escócia.
Antes que o juiz pudesse dar a sentença, uma horda de crianças entrou na sala de audiência. Moeda por moeda, aquelas crianças conseguiram a quantia necessária para a licença de Bobby.
O Presidente da Câmara ficou tão impressionado pela afeição das crianças pelo animal, que concedeu a ele um título especial, tornando-o património da Cidade, com uma coleira declarando este facto.
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Bobby pôde então correr livremente, brincando com as crianças durante o dia. Mas, cada noite, durante catorze anos, até que morreu em 1879, aquele amigo leal manteve guarda silenciosa no cemitério de Greyfriar, bem ao lado do dono.
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Como a religião não permitia que o animal fosse sepultado em cemitério de gente, tomaram-se diligências, e foi possível enterrá-lo próximo do portão do cemitério.
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Quem um dia for a Edimburgo, poderá ver a estátua de Bobby naquele cemitério, passados mais de 120 anos, após a sua morte;
e, também, uma nobre e acusatória mensagem ao chamado “Homo sapiens” ...
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«Que a sua Lealdade e Devoção sejam uma lição para todos nós...»


4 comentários:

Luisa Moreira disse...

César,

É dos animais, cães ou gatos, de quem eu mais espero fidelidade.

Uma linda história.

Abraços
Luisa

César Ramos disse...

Luisa Moreira,

Esta história que é real, não é nenhuma excepção.
São inúmeros os casos de animais que tomaram a mesma atitude!
Lembremo-nos, por exemplo, do cão de Mozart!
São inexcedíveis em dedicação!... enquanto certas pessoas (?) os vão desprezando...

Zoe disse...

que história mais comovente!
só me apetece chorar com estas histórias.
abraço
zoe

Maga disse...

Quando um animal nos dá o seu amor, a sua dedicação, sejamos felizes, sejamos gratos!
Não há amor mais puro, mais verdadeiro, do que aquele que um animal nos dedica... ele não sabe o que é a mentira, a hipocrisia...