[ Vox populi vox Dei ]

2010-01-04

50 ANOS SEM..., MAS COM ALBERT CAMUS!

.Imagens do Panteão Francês.
.


ALBERT CAMUS
(7.11.1913 - 4.01.1960)
.






.Camus Nobel da Literatura.
(1957)
.




.Imagem do acidente que vitimou Camus.








."É bom que não se recordem quem morreu, escritores, seja quem for, apenas nas datas redondas". Este blog apresentou em 7 de Novembro p.p. o post "Albert Camus - Efeméride - (07/11/1913 -1960)", recordando a data do seu nascimento.
Antes, no dia 20/09/2009, a propósito da publicação da obra de Jean Daniel "Com CAMUS - Como Aprender a Resistir", editei outro post a que dei o título: "MARÉS do DESENCONTRO". Não é portanto, apenas em datas redondas, ao estilo de dia de finados, que me pronuncio. Assim, estou à vontade para evocar os 50 anos do seu falecimento, 4 de Janeiro de 2010, à revelia do conceito dos 'aniversários', e por 3 razões:
.
.1ª - Acho bem, quiçá obrigatório falar, discutir e aprender a resistir com CAMUS... sempre! Estamos a assistir na França dos dias de hoje a esse entendimento, mesmo que seja por razões demagógicas.
.2ª - O NOBEL Albert Camus, faz hoje 50 anos, como já referi, que pereceu num brutal acidente de automóvel conduzido pelo seu amigo Michel Gallimard, embatendo numa árvore à beira da estrada.
Camus, escritor, 46 anos de idade, viajava ao lado do condutor e, com a violência do choque, teve morte imediata.
.3ª - Nunca tendo passado de moda, CAMUS continua na ordem do dia .
O Presidente da França - Nicolas Sarkozy - decidiu vestir esta "Camisola" e, desde Novembro p.p., desejou transferir os restos mortais do escritor para o Panteão. Sarkozy entendeu, provavelmente, que CAMUS simbolizaria a sua ideia de França, numa altura em que está aceso o debate sobre a identidade nacional. Aproveitando esta data arredondada - 50 anos - a concretização da trasladação despertaria bastante consenso no país.
.
O Presidente necessita da autorização da família; é sabido que os filhos recusaram a ideia, considerando que seria um "contra-senso" sobre o autor de O Homem Revoltado, além de que receavam uma recuperação política da direita representada pelo Presidente.
.Jean Daniel, director de Le Nouvel Observateur, amigo de Camus e autor do livro que acima já referi ('Aprendendo a resistir com Camus'), manifesta o seu desacordo por preferir que o deixem onde está sepultado, em Lourmarin, justificando ser o lugar onde Camus estudou, cantou e que o aproximou da Argélia [o meu post de 7/11 p.p. mostra a foto da sepultura - local de culto intelectual].
.Mas Jean Daniel não é da família, e apurei que esta ideia de Sarkozy já vem desde a altura em que teve um encontro com a filha de Camus - Catherine - , no final de 2007, por altura dos 50 anos da atribuição do Prémio Nobel da Literatura.
.
Estão distantes os tempos do diferendo com Jean-Paul Sartre, da crítica à posição angustiada de Camus sobre a guerra da Argélia, e das acusações de individualista incurável após a publicação de O Homem Revoltado.
.Na época do acidente, a sua morte foi recebida com um sentimento ambíguo. Embora todos reconhecessem as suas qualidades humanas, Camus, era, por essa altura considerado como um filósofo falhado e um escritor cansado. "L'Homme révolté", tinha atraído as fúrias de Sartre, que o esmagou, deixando-lhe para sempre um amargo sentimento de insuficiência. No elogio fúnebre que mais tarde lhe dedicou, Sartre recuou; mas apenas em relação ao homem, não ao filósofo. Era verdade que na altura da sua morte, ou mesmo dois ou três anos antes, quando recebeu o Prémio Nobel da Literatura, Sartre considerava Camus como um filósofo de somenos, e, sobretudo, um traidor devido às suas posições sobre a Guerra da Argélia.
.
CAMUS foi um produto da III República Francesa, duma sociedade em que era possível, mesmo para os mais pobres, através de um extraordinário sistema de bolsas, escapar, através da Educação, aos constrangimentos impostos pelo nascimento [leia-se talvez, a situação 'inferior' de francês de segunda - nascido na Argélia!] .
.
Camus não era um simples colonialista, um defensor da presença francesa na Argélia. Já na década de trinta, muito antes de os espíritos bem-pensantes de Paris [Sartre?] se preocuparem com problema argelino, CAMUS explicava "qu'une grande, une éclatante réparation doit être faite (...) au peuple Arabe". Simplesmente considerava que essa reparação era devida "par la France toute entière et non avec le sang des Français d'Algérie".
.
No entanto, no final dos anos cinquenta, esta procura de um compromisso liberal [Tony Judt] tornou-se irrelevante. Albert Camus fechou-se na concha do seu silêncio. Estava sobretudo farto e cansado.
Não queria ser o porta-estandarte de ninguém nem guia de pessoa nenhuma: «Je ne sais pas, où je sais mal, où je vais».
.
Actualmente a situação é diferente! Quase todos reclamam CAMUS, à esquerda, à direita, ao centro, escritores, filósofos, intelectuais, artistas, políticos. Começou a ser considerado «o melhor homem da França» [sic. Hannah Arendt], exaltaram-se as suas incontestáveis capacidades e qualidades humanas. Tem uma explicação esta espécie de volte face: talvez uma consequência inerente à arrogância, a mesquinhez e a ganância da nossa própria época. Uma personalidade como Camus, de origem modesta e recato instintivo, homem bom e decente, honesto, «a mais nobre testemunha dum época algo ignóbil» [Pierre de Boisdeffre], tem muito para nos atrair.
As razões deste continuado interesse por Albert Camus - que vem já da primeira metade da última década do passado século, são mais complexas; têm a ver com as posições que Camus defendeu sempre. Surpreendentemente, as razões por que se volta a Camus têm a vêr com as razões da sua rejeição nos anos sessenta e setenta!
.
Temos, a sua recusa inapelável da violência: «Il y a des moyens qui ne s'excusent pas». Esta postura de intenção, toca-nos hoje bastante porque pertencemos a uma geração que viu e percebeu, como a geração de Camus tinha visto, mas só entendido em parte [escapava-lhe a URSS, a China, Cuba, mais tarde, o Vietname e o Cambodja] a que ponto insustentável nos levam as boas intenções, se não houver atenção na escolha dos métodos.
.
Antecipando uma opinião, pouco me importa se o corpo de Albert Camus vai continuar o repouso no Panteão Francês, como pretende Sarkozy. Jean Daniel argumentou o que eu atrás já mencionei e, acrescenta, que é contra, mas não por ser anti-Sarkozy! Se a família se opõe e tudo dependerá do seu consentimento, parece-me que será uma questão de tempo para que o Presidente Francês leve a água ao seu moinho! Apenas me irrita uma coisa que também mexe com a filha de Camus (...)
Por cá também temos disto! O aproveitamento político das pessoas, para servirem interesses que desprestigiam a boa memória dos nossos, entre os que mais se distinguiram enquanto por cá andaram.
.
Catherine acha que andam a fazer do pai arma de arremesso! Mas isso já o andam a fazer desde há muito tempo! Foi vítima de 'ostracismos' por intelectualóides, que o futuro lavou a imagem e deixou-nos anjos de linho alvo!
Ela tem razão ao dizer:
.
«Sou uma cidadã republicana e o Presidente da República foi eleito democraticamente [isto é irrefutável mesmo para quem não gosta de Sarkozy]. Afinal, que um homem de Estado tenha a ideia de se virar para CAMUS já é espantoso! Os homens do Poder, normalmente não gostam de Camus.»
.
E agora, lembremos as palavras de Albert Camus, no discurso de aceitação do Nobel da Literatura:
.«Cada geração, sem dúvida, julga-se vocacionada para refazer o mundo. A minha sabe, no entanto, que não o refará. Mas a sua tarefa é talvez maior. Consiste em impedir que o mundo se desfaça.»
.
Meio século depois, parece que estamos ainda com estas preocupações. Temos de evitar a todo o custo... que este mundo se desfaça...!
.Quanto ao Panteão,...
ON VERRA...






7 comentários:

Ricardo Calmon disse...

MEU BOM CESAR RAMOS ,ALBERT CAMUS,VICEJARÁ SIEMPRE NAS DOS ESCRITORES VIDAS!AMEI!
CONTIGO ESTOU E SEMPRE ESTAREI!

TE ABRAÇO!

VIVA LA VIDA!

Luisa Moreira disse...

César,

Tem prestado um óptimo serviço, ao não deixar esquecer algumas figuras da cultura mundial, neste caso, temos de novo, com agrado, Albert Camus. Nunca é de mais, a Cultura, a Educação, e os Valores, são pedras basilares de um país.

Deixe-me discordar consigo, mas Sarkozi, ao querer transladar, os restos mortais do escritor, para o Panteão, está a querer protagonismo, porque ele está longe de ser de esquerda. Não que Camus, seja "propriedade" de alguém, mas a família tem aqui uma voz sonante, um Não.


Sarkozy está para França, como Paulo Portas está para Portugal, ouvimo-los e parecem uns defensores da classe operária. Haja paciência.

Beijinho
Luisa

Reaças disse...

Bem, tive de estudar Camus no meu 7º ano... Belos tempos.
Já agora, paraquando a homenagem a esse grande vulto da piada nacional e desenhador exímio, José Vilhena???
Ah, adorei a comparação de Sarkozy com Paulo Portas...!!!

Zoe disse...

obrigada César por nos pôr a par não só da actual polémica á volta dos restos mortais de Albert Camus, mas também de todo o envolvimento intelectual, enquanto vivo.
merci
zoe

Zoe disse...

obrigada César por nos pôr a par não só da actual polémica á volta dos restos mortais de Albert Camus, mas também de todo o envolvimento intelectual, enquanto vivo.
merci
zoe

Gin-tonic disse...

Cá vamos caminhando, caro César Ramos.
Uma dúvida o assalta: nos dias de hoje alguém lerá Camus?
Apenas dúvidas... quase a transformarem-se em certezas...
Qunato à transferência dos restos mortais de Camus, está em perfeito desacordo. Em primeiro lugar pelo oportunismo de SArkozy mas, principalmente pelo que Morvan Lebesque escreve no seu "Camus Por Ele Próprio" quando refere o enterro discreto em Lourmarin: "Um ruído terrível! Bastou um ruído terrível e ei-lo de volta à alegria da infância! Lembram-se do seu riso? Ria por vezes sem motivo. Como era jovem! Deve rir agora, deve rir com o rosto contra a terra!"
Pois é aí, no rosto contra a terra, que continuará a rir. Que se lixe o Panteão!
No mesmo livro, quase no seu final, o jornalista Roger Grenier diz: "Se me pedirem que fale dele, tudo o que encontro para dizer são coisas como esta: "Usava sempre gabardina" E se quiserem que cite algumas palavras suas, tudo o que me vem à memória são as brincadeiras da sala de redacção."
Um abraço

César Ramos disse...

JOSÉ VILHENA,
é um Artista de grande valor das Artes Plásticas, desde a caricatura política e não só, aos óleos, aguarelas, 'pastéis', etc.!

Não entendo como uma pessoa de esquerda, bastante perseguido e prejudicado pela Polícia Política, não 'adquiriu' estatuto de Resistente, e se encontra esquecido!

Se calhar, o comentador vai passar a achar menos piada ao Artista!
Mas que o homem é Óptimo, é! Sempre foi! e lutador também!

Nunca vergou!

Abençoado Vilhena!

Gozava com a PIDE!
Há histórias dele, do Arco da Velha!

César