2009-12-31
AO ESPELHO... DA INDIGNAÇÃO...!
2009-12-30
« O ASTRO REI " SOL " »


2009-12-28
«SAUDANDO LOULÉ..., RIMEI PARA ALEIXO !»

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Estátua de António Aleixo em Loulé, em frente ao Bar "Calcinha", freqüentado em vida pelo Poeta
António Fernandes Aleixo
Biografia
No emaranhado de uma vida recheada de pobreza, mudanças de emprego, emigração, tragédias familiares e doenças, na sua figura de homem humilde e simples, havia o perfil de uma personalidade rica, vincada e conhecedora das diversas realidades da cultura e sociedade do seu tempo. Do seu percurso de vida fazem parte profissões como tecelão, guarda de polícia e servente de pedreiro, trabalho este que, como emigrante foi exercido em França.
De regresso ao seu país natal, restabeleceu-se novamente em Loulé, onde passou a vender cautelas e a cantar as suas produções pelas feiras portuguesas, actividades que se juntaram às suas muitas profissões e que lhe renderia a alcunha de "poeta-cauteleiro".
Faleceu por conta de uma tuberculose, em 16 de Novembro de 1949, doença que tempos antes havia também vitimado uma de suas filhas.
Estilo literário
.Poeta possuidor de uma rara espontaneidade, de um apurado sentido filosófico e notável pela «capacidade de expressão sintética de conceitos com conteúdo de pensamento moral», António Aleixo tinha por motivos de inspiração desde as bricadeiras dirigidas aos amigos até à crítica sofrida das injustiças da vida. É notável em sua poesia a expressão concisa e original de uma "amarga filosofia, aprendida na escola impiedosa da vida".
A sua conhecida obra poética é uma parte mínima de um vasto repertório literário. O poeta, que escrevia sempre usando a métrica mais comum na língua portuguesa (heptassílabos, em pequenas composições de quatro versos, conhecidas como "quadras" ou "trovas"), nunca teve a preocupação de registrar suas composições.
Estudiosos de António Aleixo ainda conjugam esforços no sentido de reunir o seu espólio, que ainda se encontra fragmentado por vários pontos do Algarve, algum dele já localizado.
2009-12-27
A BLUSA VERMELHA DO MODELO DO ALÉM

2009-12-26
«HONORÁVEL, OU... O INDIGNO NEGÓCIO DA CHINA?»



.Liu Xiaobo, importante activista político chinês, foi condenado esta sexta a 11 anos de prisão, por subversão, depois de ter encabeçado uma petição que pedia amplas reformas políticas e o fim do domínio do Partido Comunista.
XIAOBO, escritor e ex-professor universitário, passou 18 meses na cadeia após a repressão do movimento pró-democracia da Praça da Paz Celestial (Tiannamen) de Pequim em Junho de 1989 e cumpriu três anos de sentença num "campo de reeducação pelo trabalho", de 1996 a 1999.
Foi detido novamente em Dezembro de 2008, como um dos autores da "Carta 08", que defendia a democratização da China. O julgamento a que compareceu na quarta-feira, acusado de "subversão contra o poder do Estado", durou apenas duas horas e meia.
"Tudo o que posso dizer-lhes agora é que são 11 anos", disse a mulher do acusado, Liu Xia.
A Amnistia Internacional condenou a pena aplicada a este homem de 53 anos, tendo dito que a liberdade de expressão continua a não existir na China.
A Alta Comissária de Direitos Humanos da ONU, Navi Pillay, manifestou preocupação com o veredicto e afirmou que a sentença representa um duro golpe à liberdade de expressão.
Segundo a mulher do activista, ele vai apelar da condenação. O recurso deve ser apresentado em 10 dias a partir de sábado, segundo um dos advogados de defesa, Ding Xikui.
A imprensa e os diplomatas estrangeiros não foram autorizados a acompanhar o processo nem a leitura do veredicto.
"É uma condenação muito, muito severa, que reflecte também um endurecimento político que observamos desde a preparação dos Jogos Olímpicos de 2008 em Pequim", disse à AFP Nicholas Bequelin, pesquisador da divisão Ásia da organização Human Rights Watch, baseada em Hong Kong.
"O Partido Comunista não podia deixar sem resposta o desafio da 'Carta 08'; é uma resposta muito forte.
A "Carta 08" foi inspirada na Carta 77 do fim dos anos 1970 de dissidentes da antiga Checoslováquia.
Comentários:
- Não foi um simples cidadão que foi condenado. Foi a hipocrisia mundial, em particular a Ocidental ao fazer de conta que está tudo bem e ao ter colocado lá os Jogos Olímpicos, assim como as relações comerciais e industriais. O dinheiro vale mais do que os valores humanos!
A. Franco – 25 Dez 2009 / 14:11
.- Texto adaptado de: Págª. de Esquerda
- Fotos seleccionadas in: net
2009-12-25
« 25 DICIEMBRE È NATALE,... AUGURI A TUTTI »

.La Casa di Gesu, si trova a Nazareth, probabilmente dove ci fu l'annunciazione dell'angelo. É datada intorno all'anno .=+=.
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.Con il Natale tutti i cristiani celebrano la nascita del Figlio di Dio che si fece uomo.
2009-12-21
«PLANTEI UMA ÁRVORE NO INVERNO»

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Ó minha árvore
2009-12-20
« NÃO ESQUEÇAM... AMINETU HAIDAR...! »

2009-12-19
«O ESCÂNDALO DO "ACORDO" DE COPENHAGA»

Frustrante Acordo de Copenhaga “registado” e não “acordado”
Posição final da Quercus sobre Cimeira de Copenhaga
A Cimeira de Copenhaga terminou às 15.30h, hora da Dinamarca, 14.30h em Portugal.
Após o anúncio de acordo feito em primeiro lugar pelos Estados Unidos da América, ontem à noite, negociado principalmente com a Índia, China, Brasil e África do Sul, e que foi alvo da adesão de muitos outros países, incluindo a União Europeia, um longo processo negocial que durou toda a noite veio ainda a ter lugar.
A sessão plenária recomeçaria esta madrugada pelas três da manhã. Alguns países, de entre os quais os menos desenvolvidos, Estados pequenas ilhas e América Central, a não concordarem com a forma como o texto do Acordo de Copenhaga tinha sido elaborado e negociado. Acusaram também o processo de falta de transparência e democracia, o que não deveria ocorrer no quadro das Nações Unidas. Já a sociedade civil, incluindo as organizações não governamentais de ambiente, havia sido praticamente arredada do acompanhamento das negociações num acto nunca até agora verificado em qualquer Cimeira desta natureza.
Apesar da Cimeira estar agora oficialmente terminada, o Acordo de Copenhaga foi apenas “registado” ou “tomado nota” e não “adoptado” pelos órgãos da Cimeira e suscita ainda dúvidas sobre o seu valor e enquadramento. Para tal necessitaria do consenso do plenário, com o voto favorável de todos os países, o que não aconteceu. Assim, o acordo, para além de representar um fracasso na opinião da Quercus é um documento ainda mais fragilizado. Aliás, nem o símbolo da Convenção das Nações Unidas deverá vir estar presente no texto final que, mesmo depois de terminada a Cimeira, ainda recebe algumas correcções.
Falsa partida com muitos culpados
Este acordo é uma falsa partida e não é claro que tenha o apoio dos todos os líderes mundiais. Apesar do que os líderes políticos estão a dizer neste momento, este desenvolvimento não torna o trabalho quase feito: está longe de ser justo e vinculativo. Este acordo tem muitas lacunas reconhecidas aliás publicamente no momento do seu anúncio.Os líderes falharam em conseguir um verdadeiro acordo como prometido. Ignoraram a ciência e guiaram-se por interesses nacionais. Estamos perante um atraso com muitos custos, que podem ser medidos em vidas humanas e em dinheiro perdido. O continuar do Protocolo de Quioto para além de 2012 está ameaçado.
O financiamento acordado representa menos que os subsídios dos países às indústrias de combustíveis fósseis. Os objectivos para reduzir a poluição mantêm-nos no caminho que a ciência diz levar a um aumento catastrófico de temperatura.
Na melhor das hipóteses, estamos agora confrontados com um atraso mortal que significa uma tragédia desnecessária para milhões de famílias. Os impactos vão fazer-se sentir em todos os países e mais drasticamente nas populações mais pobres dos países em desenvolvimento.
Os líderes mundiais precisam de repensar este acordo. Tal como está, irá desmoronar-se assim que analisado com mais atenção. É preciso os líderes mundiais reunirem-se novamente antes de Junho para resolverem os assuntos que ficaram pendentes agora.
Numa análise mais detalhada de alguns culpados, a Quercus identifica:
- os Estados Unidos da América (que não querem assumir por agora metas de emissões ambiciosas e vinculativas),
- a China (que se recusou a ver acompanhado internacionalmente o seu esforço de redução de emissões),
- o Canadá (por trazer uma posição muito fraca para Copenhaga e sem intenção de a melhorar, recebendo o prémio “fóssil do ano” atribuído pelas ONGs, e até
- o Brasil (que teve um Presidente a fazer ontem um discurso com um conteúdo brilhante, mas que pretende uma abertura a projectos inadequados no mecanismo de desenvolvimento limpo e que participou activamente com os Estados Unidos na elaboração do famigerado acordo).
O Presidente da Conferência (Primeiro-Ministro dinamarquês Rasmussen) foi também um contributo para um final confuso e algo infeliz (na última parte já sem ele a conduzir os trabalhos).
Sobre a União Europeia e Portugal
Na opinião da Quercus, é fundamental que a União Europeia se comprometa unilateralmente com uma redução de 20 para 40% das suas emissões de gases com efeito de estufa entre 1990 e 2020 (30% de esforço interno), dado que os a recessão económica e financeira reduziram significativamente os custos das medidas associadas.
A União Europeia deveria desde já ter assegurado a continuação do Protocolo de Quioto para um segundo período pós-2012 e foi demasiado passiva em termos negociais, apesar de reconhecermos a sua liderança. A União Europeia deve confirmar que o processo negocial deve seguir de modo firme o caminho da Convenção das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas que sem dúvida saiu fragilizado de toda esta negocial surreal e deprimente. Deve também clarificar que a contribuição financeira aos países em desenvolvimento acordada em Copenhaga é adicional.
Portugal tem também desafios pela frente e deve tomar medidas internas mais coerentes, na área do ordenamento do território, promovendo os transportes colectivos, na área da conservação de energia e eficiência energética, a par das energias renováveis mais sustentáveis, preparando-se para uma verdadeira revolução energética ao longo da próxima década, também aqui citada em Copenhaga pelo Primeiro-Ministro e que a Quercus tem reivindicado.
2009-12-18
O "BARBEIRO" de... GIOACCHINO ROSSINI

2009-12-17
[SEDE... ] SERES DECENTES (...)
.
Quando cumpria o seu segundo
mandato, Ramalho Eanes viu ser-lhe
apresentada pelo Governo uma
lei especialmente congeminada
contra si.
O texto impedia que o vencimento do
Chefe do Estado fosse «acumulado
com quaisquer pensões de reforma
ou de sobrevivência» públicas que
viesse a receber.
Sem hesitar, O texto visado promulgou-o, impedindo-
se de auferir a aposentação de militar para a
qual descontara durante toda a carreira.
O desconforto de tamanha injustiça levou-o,
mais tarde, a entregar o caso aos tribunais que, há
pouco, se pronunciaram a seu favor.
Como consequência, foram-lhe disponibilizadas
as importâncias não pagas durante catorze
anos, com retroactivos, num total de um milhão
e trezentos mil euros.
Sem de novo hesitar, o beneficiado decidiu,
porém, prescindir do benefício, que o não era
pois tratava-se do cumprimento de direitos escamoteados
- e não aceitou o dinheiro.
Num país dobrado à pedincha, ao suborno, à
corrupção, ao embuste, à traficância, à ganância,
Ramalho Eanes ergueu-se e, altivo, desferiu uma
esplendorosa bofetada de luva branca no videirismo,
no arranjismo que o imergem, nos imergem
por todos os lados.
As pessoas de bem logo o olharam empolgadas:
o seu gesto era-lhes uma luz de conforto, de
ânimo em altura de extrema pungência cívica, de
dolorosíssimo abandono social.
Antes dele só Natália Correia havia tido comportamento
afim, quando se negou a subscrever
um pedido de pensão por mérito intelectual que
a secretaria da Cultura (sob a responsabilidade de
Pedro Santana Lopes) acordara, ante a difícil situ -
ação económica da escritora, atribuir-lhe. «Não,
não peço. Se o Estado português entender que a
mereço», justificar-se-ia, «agradeço-a e aceito-a.
Mas pedi-la, não. Nunca!»
O silêncio caído sobre o gesto de Eanes (deveria,
pelo seu simbolismo, ter aberto telejornais e
primeiras páginas de periódicos) explica-se pela
nossa recalcada má consciência que não suporta,
de tão hipócrita, o espelho de semelhantes comportamentos.
“A política tem de ser feita respeitando uma
moral, a moral da responsabilidade e, se possível,
a moral da convicção”, dirá. Torna-se indispensável
“preservar alguns dos valores de outrora, das
utopias de outrora”.
Quem o conhece não se surpreende com a sua
decisão, pois as questões da honra, da integridade,
foram-lhe sempre inamovíveis. Por elas, solitário
e inteiro, se empenha, se joga, se acrescenta
- acrescentando os outros.
“Senti a marginalização e tentei viver”, confidenciará,
“fora dela. Reagi como tímido, liderando”.
O acto do antigo Presidente («cujo carácter e
probidade sobrelevam a calamidade moral que
por aí se tornou comum», como escreveu numa
das suas notáveis crónicas Baptista-Bastos)
ganha repercussões salvíficas da nossa corrompida,
pervertida ética.
Com a sua atitude, Eanes (que recusara já o
bastão de Marechal) preservou um nível de di -
gnidade decisivo para continuarmos a respeitar-
-nos, a acreditar-nos - condição imprescindível
ao futuro dos que persistem em ser decentes. _
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Crónica
Fernando
Dacosta
ALGO DE PODRE CHEIRA NO REINO DA DINAMARCA?
.(...) estaremos... em 'boas mãos'...!? (...)
.Ministra do Ambiente, Connie Hedegaard.
. "POLÍCIA DINAMARQUESA...! HERANÇA... 'VIKING' ?".
Connie Hedegaard demitiu-se da Presidência da Cimeira de Copenhaga
16.12.2009
O Primeiro-Ministro dinamarquês, Lars Loekke Rasmussen, assumiu hoje a presidência da conferência climática das Nações Unidas de Copenhaga (7 a 18 de Dezembro), substituindo a Ministra do Ambiente Connie Hedegaard.
.Esta alteração, classificada com técnica pela organização dinamarquesa, foi anunciada durante a sessão plenária por Yvo de Boer, secretário-executivo da Convenção da ONU sobre Alterações Climáticas.
.Num gesto sem precedentes, e por iniciativa do The Guardian, “56 jornais de 45 países deram o passo inédito de falar a uma só voz através de um editorial comum".
.Inventar um polícia mundial do clima
.De qualquer modo, será sempre difícil de fazer aplicar qualquer acordo. Como observa o cronista sueco Martin Ådahl, na Fokus, o Protocolo de Quioto, mais vinculativo que o texto em debate em Copenhaga, "não é aplicado pelos signatários". Por exemplo, "o Canadá, que se tinha comprometido em diminuir 6% das emissões até 2012 aumentou-as em 28%”.
"Podia ser criado um ICF – Internacional Carbon Fund (fundo internacional de emissões de carbono)”, responde Martin Ådahl, na Fokus. Tal instituição, baseada no modelo de Bretton Woods para a economia, teria por missão "verificar as emissões, supervisionar os mercados regionais e estabelecer um sistema de sanções, modelados segundo as regras de mercado livre da Organização Mundial do Comércio".
.Críticas sobre a noção de aquecimento climático
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2009-12-15
« AMOR de PASSAGEM !... "SINE DIE" (...) »

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As palavras foram escritas por MANUELA CÂNCIO REIS, mulher de SOEIRO PEREIRA GOMES, e estão bem preservadas na sua memória. Aos 99 anos Manuela Câncio Reis, a mulher que fez o escritor neo-realista rumar a Alhandra para um casamento que durou escassos anos, cortado abruptamente pela necessidade de fuga ao regime, repete memórias que transcreveu para um livro: “Eles vieram de madrugada – cartas para a clandestinidade a Soeiro Pereira Gomes”, publicado em 1981.
Recorda o dia em que o escritor ligado aos ideais do Partido Comunista Português teve que “dar o salto”. E lembra cada palavra desse livro que escreveu a pedido do marido. Manuela Câncio Reis está hoje deitada numa cama. Conserva uma lucidez intocável e um sentido de humor refinado, numa casa de repouso algures na Parede. Tem olhos azuis vivos e o dom da palavra. “Fechei a porta devagar, como se no largo ainda deserto o leve estalido do trinco pudesse atrair olhos tenebrosos para a nossa casa já vazia. Fiquei a escutar o ruído do táxi que se sumira na curva, levanto-te rumo à estrada. No rosto sentia ainda o calor dos teus beijos, no frenesim da despedida, e nos ombros a pressão do longo abraço que me deste tentando deixar comigo um pouco da coragem que levavas. «Serão apenas umas semanas», disseste”.
E as semanas transformaram-se em meses e anos. Em bilhetes transportados na escuridão da clandestinidade. Medo e ansiedade foram palavras que passaram a fazer parte do dia a dia da jovem de Alhandra.
O “pai” do Gineto, do Gaitinhas e do Maquineta de “Esteiros”, que tocava na guitarra as canções de Coimbra, onde estudou, tinha partido. A casa de família, à beira Tejo, estava agora vazia. Sem o olhar atento do escritor que acompanhava a vida dura dos operários meninos. “Um dia, na nossa primeira casa, abeirou-se da janela que dava para os telhais, em Alhandra. Enquanto apertava o cinto e ajeitava a gravata, sem tirar os olhos da fábrica, disse, ‘eu tenho que lá ir’”, conta Manuela Câncio Reis a recordar os breves tempos de casada na sua Alhandra Natal.
A informação que Soeiro Pereira Gomes recolhia nos telhais era matéria-prima que tratava nos tempos livres. Quando não estava ocupado com o trabalho de chefe dos empregados de escritório da fábrica Cimento Tejo, cargo que ocupou a substituir o pai da mulher, depois de vir de África onde esteve durante um ano na companhia de Catumbela (Angola) em 1930 para conseguir algum dinheiro para o casamento.
Em casa, enquanto Manuela Câncio Reis escrevia músicas no piano a cumprir o contrato com a emissora nacional, Soeiro trabalhava nos manuscritos. “Engrenagem” estava então em processo acelerado de escrita. Embrenhava-se o escritor contra a “ordem do Estado novo de Salazar”. Os dois escritórios eram divididos pelo corredor da casa que não era suficiente para impedir o som do piano de alastrar. “Muitas vezes lhe transtornei o trabalho”, lembra-se incomodada Manuela Câncio Reis, com dedos compridos e moldados por muitos anos de teclado de máquina de escrever e piano. “Uma vez começámos os dois à gargalhada. Ele perguntava: ‘olha lá, nunca mais acabas de tocar essa nota? Estou ali à espera para conseguir escrever’ …(risos). Acabei por colocar a surdina no pedal do piano”, confessa.
Na casa térrea, perto do Tejo, em Alhandra, Manuela Câncio Reis tinha sardinheiras em flor. Ainda não usava as molduras das fotografias para lembrar os seus “mortos”. Sobre a televisão, oferecida por uma prima, que lhe faz companhia na casa de repouso, estão duas imagens de Soeiro Pereira Gomes, nascido em Gestaçô, Baião, no Porto, mas que uma paixão trouxe a Alhandra. É o homem que por quem se apaixonou antes mesmo de o ver, mas que não reconheceu quando o foi visitar sob disfarce ao hospital, ainda na clandestinidade, mas já atingido nos pulmões pela doença que o vitimou. Joaquim Pereira Gomes nasceu a 14 de Abril de 1909 e partiu demasiado cedo, a 5 de Fevereiro de 1949. “O seu grande mal foi ter-se metido na política”, diz a mulher que lhe reconhece a entrega à causa da justiça e da luta contra a miséria. “Foi o grande amor da sua vida?”, pergunta-se-lhe. “Ainda é”, atesta Manuela Câncio Reis. E os olhos regressam à fotografia.
UM ROMANCE INTERROMPIDO PELA CLANDESTINIDADE
Manuela Câncio Reis e Joaquim Soeiro Pereira Gomes apaixonaram-se antes mesmo de se conhecerem. O estudante que se consagrou como um dos grandes vultos da literatura neo-realista era camarada do irmão da futura esposa na Escola de Regentes Agrícolas de Coimbra. O que sobre um e outro se dizia, e algumas fotografias, já provocavam admiração e interesse. Depois foi amor à prima vista na véspera do baile de finalistas na cidade dos estudantes. O vestido longo, encomendado num dos melhores costureiros de Lisboa, fez furor. O casamento aconteceu três anos depois, em Coimbra. Depois de uma visita que entretanto Joaquim Soeiro Pereira Gomes fez à Quinta da Viúva Câncio, avó de Manuela, na zona de Alhandra, que ainda hoje mantém o tanque onde os netos se banhavam nas tarde quentes de Verão. “Ele escreveu o nome na areia. Não se declarou, por respeito, estava na quinta a convite da família”, recorda Manuela Câncio Reis.
Entre o vestido branco com festa de casamento convencional e uma viagem, oferta do pai, Manuela Câncio Reis escolheu a Lua-de-mel. Início de uma curta vida a dois, ditada pela saída repentina de Soeiro Pereira Gomes, filho de uma família de agricultores do Douro, para a clandestinidade.
Muito à socapa, depois da fuga de Joaquim e da saída da prisão de Manuela encontraram-se por uns momentos, de fugida, em Lisboa, em casa de uns parentes do Zé Ralha, conta a sobrinha Isabel Câncio Reis Nunes em “Passagem”, uma biografia de Soeiro Pereira Gomes. E por breves momentos na pousada da Urgeiriça. Da prisão de Manuela nunca falaram. Os filhos nunca chegaram porque o casal procurava uma vida mais desafogada para constituir família. Os anos clandestinos foram duros para ambos. E não mais voltaram a ser marido e mulher.
“Como era agradável o nosso quarto com o seu tom rosa-velho e a sua janela em que espreitavam os gerânios quando abrias as vidraças, manhã cedo. Fazias ginástica e eu ficava a ver, meio ensonado, o teu corpo bem feito entregue aos exercícios a que o obrigavas todos os dias”, escreveu Manuela Câncio Reis sobre o marido. “Não gostavas de certos pratos. Por mais que disfarçássemos o pargo de ‘pescada’ ou de ‘goraz’ nunca te deixavas levar. “Cá está o crocodilo’, dizias no teu jeito brincalhão.
CÁRCERE NO HOSPITAL E A RAPARIGA DAS TRANÇAS
Manuela Câncio Reis, companheira de Soeiro Pereira Gomes nos anos que antecederam a saída para a clandestinidade, nunca conheceu o paradeiro do escritor neo-realista, mas nem isso impediu que a então jovem alhandrense conhecesse os martírios de um cárcere.
Já antes de Soeiro Pereira Gomes “saltar fora” sentia no uivar da sereia da fábrica prenúncio de má sorte. “Colhi uma braçada de sardinheiras. Pus flores em todas as jarras. E fechei o piano”, escreve. À saída repentina do marido seguiu-se a sua prisão. “Eles vieram de madrugada”, diz o título do seu livro, fiel à realidade. Às três da manhã soaram murros na porta da rua. A casa invadida por perguntas e remexida e uma mulher doente pela partida do bem amado. “Fui levada para o hospital como refém”, conta Manuela Câncio Reis.
Havia três camas de cada lado e um biombo a tapar a janela. “Na cama que me ficava em frente já tinham instalado a senhora cujo sangue lhe escorria pelo nariz e pela boca”.
Na prisão hospital, um antigo palacete, onde uma tia, irmã da mãe se tinha suicidado, os percevejos eram também inquilinos. E de um rosto claro e pele delicada fizeram poiso. Lugar odioso onde se servia um púcaro de leite em que nadavam pedaços de nata amarela e um bife uma vez por semana.
Era companheira de quarto, no hospital feito prisão, a rapariga da grossa trança doirada que se ali se sentia feliz, longe da violência do marido que a arrastava pelos cabelos. “Quem me dera ficar cá por muito tempo. Dizem que estou muito doente, mas não sei”, confessava a amiga na desventura e na caça aos percevejos que matavam juntas.
A prisão deixou marcas na mulher que pouco depois deixou Alhandra e partiu para Lisboa. “Recosto-me no maple em que repousavas nas horas de maior cansaço. Mas onde estão os dedos que passavam pelos meus cabelos, quando me anichava a teus pés, escutando coisas com que sonhavas para o futuro?”. “‘Depois de mais um ou dois romances, vou escrever livros para crianças’, dizias às vezes”.
UMA MULHER À FRENTE DO SEU TEMPO
A ausência de Soeiro Pereira Gomes foi demasiado dolorosa para Manuela Câncio Reis, que deixou Alhandra. Partiu para Lisboa em busca de um emprego que lhe permitisse a independência e também o auxílio aos pais.
O conhecimento de línguas ajudou-a. Sabia tocar piano e a elasticidade dos dedos facilitou-se a aprendizagem de dactilografia. Foram tempos difíceis. Passou alguma fome. “E quando passava por uma padaria e me vinha um cheirinho a bolos e pão quente?”, recorda sem marcas de revolta.
Virgílio Barroso, um matemático irmão de Maria Barroso, ligação entre os dois esposos separados pelo muro da clandestinidade, passou de intermediário a segundo marido. O casamento com o pai de Alfredinho, que acabou por falecer vítima de um problema cerebral, durou pouco. Manuela partiu para o divórcio, já separada de facto, ajudada por Avelino Cunhal, pai de Álvaro Cunhal, porque o marido se recusou a autorizar que viajasse para o estrangeiro (requisito à época necessário).
Manuela Câncio Reis ficou alojada em pensões em Lisboa e trabalhou como secretária na Campos Ferreira, exportador de vinhos, que compensar os funcionários pelas horas extraordinárias com espumante e jantar do Gambrinus, um restaurante luxuoso de Lisboa. Foi Campos Ferreira que lhe disse que partisse e aproveitasse as últimas horas com o marido – quando lhe chegou a notícia de que Soeiro Pereira Gomes estava prestes a sucumbir. Quando chegou ao Norte já o escritor tinha partido. Desta feita, sem promessa de regresso.
ESTEIROS, A INSPIRAÇÃO DE UM ESCRITOR
“Esteiros. Minúsculos canais, como dedos de mão espalmada, abertos na margem do Tejo. Dedos das mãos avaras dos telhais, que roubam nateiro às águas e vigores à malta. Mãos de lama, que só o rio afaga”.
Joaquim Soeiro Pereira Gomes imortaliza assim em “Esteiros” (1941) a vida dos “garotos maltrapilhos” a quem as solitárias mães proibiam brincadeiras para evitar que os filhos sorvessem duas sopas ao jantar. Romance paradigmático do movimento neo-realista que o escritor dedicou aos filhos dos “homens que nunca foram meninos” sujeitos a trabalhos forçados, à fome e ao rigor do sol e da chuva.
O nadador campeão Baptista Pereira, “Gineto” dos “Esteiros”, ia às quintas como outros tantos meninos roubar laranjas. “Chegou a cruzar-se com a minha avó, carregado, tapava o rosto com as mãos e dizia: ‘Muito boa tarde minha senhora”’, recorda Manuela Câncio Reis.
“Cabelo em desalinho, gravata às três pancadas, os sapatos enlameados, mãos sujas da pá com que escavavas a charca ao lado dos trabalhadores. Andavas numa azáfama, planeando, organizando coisas para o bem dos outros. Desesperado com a falta de recursos, mas lutando sempre contra os preconceitos, contra más vontades, contra a guerra de sapa que já te movia quem não se encarava com bons olhos”, escreve a esposa que partilhou a casa em Alhandra, frente aos telhais, onde o escritor se inspirou para a obra.
“Há que ter fé nos homens. Nem toda a gente é má”, augurava o escritor. “Melhores dias hão de chegar”. Dizia a sonhar com o dia da liberdade. Um dia que, para Soeiro Pereira Gomes, que partiu a 1949, chegou tarde demais. Tão só na madrugada de 1974.
QUARTEL-GENERAL NUM MOINHO RIBATEJANO
No final dos anos 30 do século XX Soeiro Pereira Gomes adere ao PCP. Ingressa na célula da empresa e pouco depois integra o comité local de Alhandra. Na sua casa, em Alhandra, reuniam-se intelectuais. Enquanto o regime de Salazar tentava abafar o holocausto Soeiro Pereira Gomes abria a janela da sua casa de um só piso, em Alhandra, para que os populares escutassem na rádio a informação da emissão portuguesa da BBC, às 21h00, já que os cafés estavam proibidos de ligar os aparelhos de rádio àquela hora.
António Dias Lourenço foi um dos companheiros nos passeios de intelectuais no Tejo até ao palácio das Obras Novas, em Azambuja.
Já na clandestinidade, a partir de um moinho, situado entre Vaqueiro e Pernes, Joaquim Soeiro Pereira Gomes, como responsável do Comité Regional do Ribatejo, promoveu a constituição e acompanhamento, entre 1945 e 1946, dos Comités Locais de Santarém, Vale Figueira, Alpiarça, Rio Maior, S. João da Ribeira, além de núcleos na Marmeleira e na Ribeira de Santarém.
EXPOSIÇÃO EM ALHANDRA
Uma exposição sobre o percurso do escritor neo-realista Soeiro Pereira Gomes, que viveu em Alhandra, foi inaugurada a 19 de Abril até 7 de Maio p.p., na Galeria Augusto Bértholo, no Museu Sousa Martins. O evento pretendeu assinalar os 100 anos do nascimento do autor, abordando a obra literária, mas também a dedicação à terra daquele que foi filho adoptivo, mas trouxe inúmeros benefícios.











