[ Vox populi vox Dei ]

2009-12-02

«O LADO "OCULTO" de FERNANDO PESSOA»












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FERNANDO PESSOA morreu de colite hepática no Hospital de São Luís, em Lisboa, a mesma unidade hospitalar onde Luís Miguel Rosa Dias, seu sobrinho, à data do ano de 2008 exercia medicina. Este médico lembra-se de muitas coisas de seu tio mas, o que primordialmente tem em mente é que Fernando Pessoa era um indivíduo divertidíssimo!
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Brincalhão, bem-disposto, alguém que estava incondicionalmente ao lado das crianças, mesmo quando elas faziam disparates. Esta é a memória do Dr. Rosa Dias e a de outros primos que guardam de seu tio Fernando Pessoa. Lembram e relembram que Pessoa lhes levava sempre presentes e brincava muito com eles. Unânimes, dizem: "Adorávamos imenso aquele tio! Era muito divertido e tinha um sentido de humor único!"
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O médico acima referido era ainda criança, mas lembra-se muito bem de receber presentes do tio Fernando ao almoço e, recorda um pequeno episódio que assenta com a ideia de que Pessoa tinha apetência para beber uns copos; embora petiz, despertou-lhe a atenção um garrafão que continha vinho e, por curiosidade destapou-o e lambeu a rolha! O tio, de imediato, reagiu à atitude do sobrinho com uma frase apreciativa de satisfação: " Eh lá!... temos homem! ".
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A ideia universal é a de que Fernando Pessoa era uma pessoa de trato difícil, aborrecida, expressão carregada e de muito mau feitio. Tem de se reconhecer que as fotografias mostram-no sempre com ar sério, demasiado sério, até carregado para a idade, mas Fernando Pessoa, grande, enorme, poeta, ensaísta, escritor, pensador, espiritual, um ser com várias vidas, era, uma criatura com magnificiente sentido de humor.
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Outra sobrinha, Manuela Nogueira, em consequência da morte de familiares, em 1925 teve de ir viver para casa do tio Fernando, na Rua Coelho da Rocha, nº 16 - em Lisboa, no Bairro de Campo de Ourique [que é hoje património da Cultura, a Casa Fernando Pessoa], e revela dele lembranças espontâneas : " Ele era uma pessoa muito divertida. Tinha um sentido de humor formidável".
À hora do almoço, Manuela ia à janela esperar que o tio chegasse. Quando ele aparecia, o ritual não falhava. Cumprimentava o candeeiro. Dava passos largos. Fingia tropeçar. " A minha mãe ralhava-lhe. Advertia-o que as pessoas iriam pensar que ele endoidecera". Não se importava. Ainda agravava a fama, ao simular quedas pelas escadas. Passaram muitas décadas, mas a memória não apaga. Livros. Papéis. Inundavam a casa de jantar. O tio a ler. A escrever. No quarto. A arca onde os versos iam cabendo. Um passeio à 'Baixa' lisboeta e uma ida à praia de São João do Estoril. " O meu tio ficou vestido de fato e não descalçou os sapatos ". O único calçado na areia, era o meu tio. Querido. Mentor de brincadeiras que ainda hoje sente o gosto. " Pedia-me para eu lhe arranjar as unhas e lhe fazer a barba ".
Em troca, o tio dava duas moedas, as suficientes para que a sobrinha fosse a correr comprar uma barra de chocolate.
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" Ele adorava crianças ! "
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[Manuela Nogueira, filha da irmã de Fernando Pessoa, é uma poetisa reconhecida e autora de livros para crianças.]
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Ofélia, foi a senhora com quem Fernando Pessoa manteve, ao que se sabe, o único romance. Aos familiares sempre disse ter vivivo um grande amor e sentia desgosto enorme pela morte dele ter sido tão prematura. Viveu até 1991, sem descendentes, num Lar, viúva de um matrimónio onde a chama do amor nunca acendeu. Casara em 1938, três anos após a morte do seu amado, com Augusto Soares, figura do Teatro.
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Uma sobrinha de Ofélia, Graça Queiroz, afirma que aquele namoro de Fernando Pessoa e Ofélia não foi apenas platónico!... e acrescenta: " Eu tinha treze anos quando a minha tia entregou-me uma caixa. Lá dentro estavam as cartas que o Fernando lhe enviara e recordações".
Em 1978, com o seu consentimento, Graça edita o que vive naquela caixa, pequena, que guardava afectos grandes. Missivas de amor.
Amor adulto expresso em dialecto carinhoso e pueril. "Meu amorzinho, meu bébé querido, minha bonequinha, meu Íbis, meu ninho."
O Poeta mimava a namorada. Em diminutivos e com presentes. Um porta-retrato. A pulseira que, apesar de ter andado perdida, voltou ao destino. O cachimbo, mordido de tanta espevitadela de nicotina.
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Ofélia, dotada de vontade indomável, mesmo contra a vontade da família decidiu procurar emprego. Em boa hora. Foi no escritório Félix Valladas e Freitas, onde ambos trabalhavam, que a paixão irrompeu em Março de 1920. Ofélia tinha 19 anos e o Poeta, ciumento de franzir a testa a decotes, 31 anos.
Namoravam às escondidas, já que nunca quis pedir autorização aos pais da jovem. " Basta-me que eu te ame e que tu me ames. E não precisamos de nada mais ".
Apenas precisava de descobrir o trajecto do carro eléctrico mais longo para que o idílio durasse mais tempo. " O namoro intenso, de certa forma alegre, não foi apenas platónico. "Em um dos seus ataques de afecto ardente, Fernando Pessoa, na Rua de S. Bento, empurrou a sua querida para o vão de uma escada. Agarrou-a. Beijou-a.
A 29 de Novembro desse ano chega a última carta.
Deprimido, não consegue pensar numa existência a dois!
.Após nove anos, o tio Queiroz mostrou à sobrinha Ofélia a fotografia de Fernando Pessoa a beber no Abel Pereira da Fonseca [Taberna conhecida por Vale do Rio].
Ofélia achou piada. Pediu ao tio para que lhe arranjasse uma foto igual. O recado foi dado e Pessoa enviou-lhe uma igual com a célebre dedicatória:
«Fernando Pessoa em flagrante delitro.»
O namoro reatou. " Havia ocasiões em que Fernando Pessoa dizia-lhe que quem ali estava não era ele, mas um dos seus heterónimos". Ofélia gostava de todos, menos de Álvaro Campos. Previsão certeira. O poema "Todas as cartas de Amor são Ridículas", de Outubro de 1935, é da sua autoria. Também o seu sexto sentido apontaria para que Álvaro Campos tivesse 'propensão homossexual'.
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Este episódio do Abel Pereira da Fonseca e do 'flagrante delitro', tem a ver com uma das atitudes do poeta nas horas de expediente do escritório onde trabalhava! A equipa de trabalho achava estranho que Pessoa, com regularidade, se ausentasse do trabalho, justificando que ia num instante ao Sr. Abel!... mas quem seria o misterioso senhor Abel?
Veio então a saber-se que era a Taberna do Vale do Rio denominada Abel Pereira da Fonseca, onde ia dessedentar-se com um copo de vinho tinto!... daí... a ironia do" flagrante de litro"!
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A notícia da morte chegou como uma bala seca no peito. Os familiares estranhavam que no dia do aniversário da irmã, ele não tivesse aparecido na casa de São João do Estoril. O telegrama de parabéns recebido a 27 de Novembro não sossegou a irmã do Poeta. Para agravar a aflição, na véspera, o País tinha sido abalado por um ciclone que avariou as linhas telefónicas. Perante tal desespero, o cunhado meteu pernas ao caminho e foi à Rua Coelho da Rocha saber o que se estava a passar.
Pela vizinhança e familiares de Jorge de Sena, soube o Capitão que seu cunhado Fernando Pessoa estava internado no Hospital de S. Luís. Para lá correu, mas veio a criar consciência de que a menos que os mortos voltem, apenas restavam livros, muitos manuscritos, objectos pessoais, uma eternidade de alma poética sempre a brotar, mas nada mais encarnava a sua presença. Fernando Pessoa morrera.
Foi este capitão, seu cunhado, que discursou no funeral cumprindo o elogio das exéquias .
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Ao morrer pediu os óculos. Não que pretendesse fintar a escuridão da agonia.
Quis escrever: "I know not what tomorrow will bring ".
[não sei o que o futuro trará].
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A sua última frase foi escrita no idioma no qual foi educado, o Inglês.
Muito embora também tivesse enunciado anteriormente:
« A minha pátria é a língua portuguesa »!
.Tímido,... reservado,... pensativo,... de aspecto grave e taciturno... pareceria uma figura amarga, de trato difícil... mas, apenas para as fotografias a que não gostava de se expor,... por discrição!
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Na intimidade, Fernando Pessoa era alguém muito diferente! Divertido,... brincalhão,... terno,...
Amante...!
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Sempre surpreendente!! (...) na senda do que o «futuro... lhe trará»!
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[Nas comemorações do centenário do seu nascimento, foi trasladado para o Mosteiro dos Jerónimos, confirmando o reconhecimento que não teve em vida.]
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Tarde demais!...
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FERNANDO PESSOA ultrapassou as fronteiras do país onde nasceu: É PATRIMÓNIO MUNDIAL!
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É UM POETA UNIVERSAL
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Legenda:
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Fotos retiradas da Net.
Texto baseado no espólio do autor do blog e no 'press release' pessoal.
Foto 1 - Imagem de Fernando Pessoa.
Foto 2 - Pessoa em "flagrante delitro" : bebendo um 'penalty' de vinho tinto.
Foto 3 - Entrada do Hospital de São Luís (dos Franceses) no Bairro Alto em Lisboa.
Foto 4 - Assinatura do Poeta.

7 comentários:

Luisa Moreira disse...

César,

Quem diria, que aquele ar sisudo, fosse uma capa para escapar ao social e aos paparazzi. No fundo tinha uma alma de criança, sem deixar de ser adulto, pois quem escreveu e quem amou como ele, era um adulto em toda a sua pujança.
Ter deixado boas lembranças aos seus familiares, é tão bom como o legado escrito que nos deixou. Poderá dizer que estou a ser exagerada, talvez.

Gosto de Álvaro de Campos, talvez por ter nascido em Tavira, minha cidade dilecta.

Abraços
Luisa

Anónimo disse...

"É talvez o último
dia da minha vida.
Saudei o Sol, levanto
a mão direita, mas
não o saudei dizendo-lhe
adeus. Fiz sinal de
gostar de o ver ainda,
mais nada."

Devíamos encarar todos os nossos dias assim... como são... como se pudesse ser o último. E pode. E talvez assim vivêssemos mais.

Um génio. E com muita obra ainda por publicar...

Ianita

Palma disse...

Mais um interessante trabalho sobre o grande Fernando Pessoa. Também eu o julgava um homem de poucos risos. Como nos enganamos fazendo juízo das pessoas através de simples fotografias. Uma boa noite - Palma

César Ramos disse...

Ianita,

Bom dia; obrigado pela sua visita!
A sua presença é bem vinda, tal como a opinião que aqui deixou registada.
Conheço o seu blog. Gosto muito dos seus textos: revelam uma jovem muito inteligente e culta.
Parabéns!
Volte mais vezes...
César Ramos

César Ramos disse...

Amigo Palma,

Obrigado pelo seu comentário. É caso para lembrar o que se costuma dizer: "Quem vê caras, não vê corações!" (...)

Um grande abraço
César Ramos

César Ramos disse...

Luísa Moreira,

Uma vez mais obrigado pela sua presença enriquecedora deste espaço c/os seus esmerados comentários.

Pontapeando a literatura, o heterónimo que mais aprecio é o próprio Pessoa!
É heterónimo dele próprio, ao parecer duas pessoas: o mal disposto, e o divertido!

Falando a sério:

Álvaro de Campos é de linguagem não contida.
Manifesta muito um desejo intenso de aniquilamento. A noite exerce um grande fascínio sobre ele [Passagem das Horas],e o mar... desencadeia nele, ainda mais do que a noite, um percurso psíquico dissolvente: notório e notável na excelente «Ode Marítima»!!

Luísa:

Não sei se foi de Tavira que ele olhou o mar... e escreveu aquela impressionante Ode!
É talvez o mais certo.

Vou parar, senão faço um post na coluna dos comentários...!(Risos)

Falar de Fernando Pessoa é compulsivo!... nunca mais se pára!

E, ainda bem...

Um abraço

César Ramos

Anónimo disse...

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