[ Vox populi vox Dei ]

2009-12-18

O "BARBEIRO" de... GIOACCHINO ROSSINI


.GIOACCHINO ROSSINI é basicamente um extraordinário músico de Teatro, um autêntico compositor de Ópera.
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Será mesmo pacífico colocá-lo ao lado de VERDI e de PUCCINI, formando-se deste com eles o trio dos maiores nomes da Ópera italiana do Século XIX - e até de sempre.
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Contudo, haverá que lembrar que se trata neste caso de compositores com estéticas quase diametralmente opostas, podendo dizer-se - em termos biográficos, acerca do carácter e da forma de estar na Música e na vida destes três Mestres da Ópera - que, para além do palco, pouco mais terão em comum.
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Rossini será, sem dúvida, aquele que mais terá herdado técnicas e formas de expressão da velha Ópera italiana que pôs o mundo da música em delírio nos Séculos XVII e XVIII, e que, de certo modo, acabaria - quase que também à maneira dos dinossauros... - quando esse mesmo mundo foi atingido por um cometa chamado MOZART!
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De um momento para o outro, essa tradição operática tornou-se caduca, pois Mozart também alterou - quase que de um momento para o outro - o grau de exigência dos públicos: mudaram-se os gostos, mudaram-se as vontades...
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E mudou-se muito o fenómeno da Ópera, sem com isso deixar, em alguns aspectos, de continuar a ser encarado por muitos apreciadores como o maior Espectáculo do Mundo...
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Depois de Mozart e de Haydn, a grande revolução ideológica inicialmente gerada em França - e que daria abalo, pelo menos a toda a sociedade ocidental - modificou por completo toda uma série de princípios e de estatutos, deu origem ao Movimento Cultural do Romantismo e a grande música aderiu de forma inequívoca às novas correntes de pensamento através da obra paradigmática de BEETHOVEN.
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De Beethoven, partiu-se para SCHUBERT, para WEBER ou MENDELSSOHN, a música diversificou-se por estéticas até contrastantes - mas todas conciliáveis com o espírito romântico -, através de figuras como Schumann, Berlioz ou Brahms; chegou-se depois a Wagner, Bruckner ou ainda ao próprio Mahler, se bem que estes já percorressem abertamente os caminhos inspirados por novas revoluções...
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E deste modo, a estética enraizadamente italianizada de Rossini estaria condenada a surgir como pura obstinação, um resto reaccionário do passado, uma homenagem serôdia a Salieri, Caldara, Cesti e outros assim...
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Felizmente, existe algo de muito mais poderoso e actuante do que a opção por um determinado estilo. E a esse fenómeno chama-se ' génio '!... ora, o génio e uma criatividade transbordante - aliados, nalgumas situações, a um sentido de humor não menos acerado pelo facto de se exprimir por sons - era algo que nunca faltou a Rossini.
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Sem dúvida, o compositor italiano dispunha também de uma técnica profissional que lhe permitiria abraçar outros estilos e outra formas claramente distanciadas do espírito da Ópera italiana. E até experimentou fazê-lo.
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Mas essa ópera com raízes no passado era, de facto, o seu verdadeiro mundo - o que não o impedia de criar toda uma série de situações originais e surpreendentes.
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Não por acaso, Rossini encontrou-se um dia em Viena com Beethoven e será mesmo de prever que o então jovem nem excluísse ser alvo de uma reacção menos simpática por parte do Mestre, não propriamente um entusiasta consabido da Ópera à velha maneira italiana...
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Com alguma surpresa, no entanto, Beethoven dirigiu-lhe a palavra muito cordialmente e perguntou:
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- Você é que é o autor do "Barbeiro de Sevilha"?
- Sim, de facto sou eu, ainda que o assunto do libretto já tenha tido outros tratamentos, como decerto sabe...!
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É evidente que Beethoven sabia, sobretudo no que dizia respeito a essa ópera fascinante e excepcional que se chama "As Bodas de Fígaro", da autoria de Mozart...
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Mas, nesse momento, Beethoven estava mesmo a falar no "Barbeiro de Sevilha" de Rossini e disse-lhe muito directamente:
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- Se quer um conselho, continue nessa linha. Componha muitos "Barbeiros de Sevilha", pois é a fazer isso que você é francamente bom... ou mesmo incomparável!
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Rossini esboçou um agradecimento comovido e Beethoven terá comentado ainda, segundo consta:
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- O Mundo e a Música... estão a precisar de mais "Barbeiros de Sevilha"!
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O Mundo está sempre a precisar de figuras luminosas, divertidas - sem contudo deixarem de ser sérias com o seu trabalho -, com a admirável espontaneidade e o genuíno talento de Rossini, contra as vagas de soturnidade
e tédio musical com que somos
frequentemente
bombardeados (...)
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- Imagens seleccionadas na internet
- Texto produzido com audição inspiratória em Il Barbiere di Siviglia - Overture
da Munchener Symphony Orchester
Conductor: Alfred Scholz


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