[ Vox populi vox Dei ]

2009-12-03

NA VALA COMUM COM MOZART




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Aparentemente, já tudo foi dito sobre o genial compositor austríaco Wolfgang Amadeus Mozart. Nunca será demais evocar a memória e o legado que recebemos de figuras de tal significado prodigioso, muito embora as pessoas se cansem de haver sempre alguém, mais ou menos convencido, de que tem ainda alguma coisa mais para dizer.
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Não venho sequer lembrar e lamentar que, para muitas pessoas, este nome mágico de Mozart é marca de chocolate de grande qualidade, produção austríaca da terra de um dos seus mais famosos filhos nados em Saltzburgo!
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No registo de nascimentos da paróquia da Catedral de Saltzburgo do dia 27 de Janeiro de 1756 pode ver-se a inscrição: «Wolfgang Theophilus Mozart».
Só aos 14 anos, é que o compositor trocou Theophilus por Amadeus, por lhe parecer melhor.
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A sua casa num terceiro andar, é agora um museu muito visitado. Ao percorrer as salas recheadas com os instrumentos e retratos de família, quase se adivinha o menino de 4 anos, de cabelo cor de areia e grandes olhos castanhos, com as perninhas penduradas de um banco de piano.
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Um dia o pai encontrou-o à secretária de pena na mão. «Estou a escrever um concerto», disse Wolfgang. O pai sorriu, mas ao olhar a folha manchada de tinta, vieram-lhe as lágrimas aos olhos: aquilo era música a sério!
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Estavam na companhia de Andreas Schachtner (1735-1795), grande trompetista da corte e amigo da família; «Veja isso, Herr Schachtner", disse, "como tudo está composto tão correctamente e em boa ordem; só que é inútil, pois é tão extraordinariamente difícil que ninguém seria capaz de tocá-lo".
O pequeno Mozart interrompeu-o: "É por isso que é um concerto; é preciso praticar até conseguir tocá-lo. Veja, é assim que deve ser."(...)
E tocou, mas só conseguiu produzir o suficiente para que se percebesse o que ele visava. Naquela ocasião, ficaram com a concepção de que tocar um concerto era a mesma coisa que realizar um milagre!
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Este episódio ficou narrado em carta de Johann Andreas Schachtner enviada a Nannerl (irmã mais velha de Mozart), datada de 1792.
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Entre tudo aquilo que existe de efectivamente prodigioso na obra de Mozart, está a lógica evolutiva das suas ideias, seja ao longo dos escassos trinta e seis anos que viveu, seja também ao longo das páginas de uma partitura de maior ou menor dimensões - uma sonata, um concerto de piano, uma ópera, uma missa, uma sinfonia e por aí adiante,... pois escreveu de tudo...!
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E naquilo que escreveu, também tudo se desenvolve naturalmente, como o crescimento de uma planta ou,... se quisermos... de uma criança!
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Quando Mozart já era um homem feito e um compositor consagrado, foi abordado por um indivíduo que pretendia ser músico, e perguntou-lhe directamente:
- Diga-me, mestre: como é que se escreve uma Sinfonia?
Mozart olhou para ele durante uns instantes, como quem está a tomar nota de algumas medidas, e retorquiu com outra pergunta:
- Se não se importa, pode dizer-me que idade é que tem?
- Eu tenho 30 anos - terá respondido o sujeito.
Mozart voltou a meditar e respondeu:
- Desculpe a franqueza, mas eu acho que o senhor talvez ainda seja muito novo para escrever uma Sinfonia, que é uma obra que já exige muita experiência, até experiência de vida...
Aí, o homem não se coibiu de manifestar a sua perplexidade e contrapôs:
- Acho estranho que o mestre me diga isso, pois até sei que escreveu a sua primeira Sinfonia quando ainda era uma criança...!
- É verdade, sim... Mas nunca perguntei a ninguém como é que se escreviam sinfonias!
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Mozart tinha um humor que poderia ser extremamente acerado, quase que marcado por alguma excessiva crueza, o que também se nota em determinadas passagens das suas obras - não apenas velozes, mas sobretudo agrestes - que alguns classificam como "demonismos mozartianos"...
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Mozart teve vários anos de glória, sendo reconhecido por reis e rainhas de toda a Europa. No entanto, nunca soube lidar com o dinheiro. A exploração da sua bondade e genialidade musical logo surgiria por parte de grandes oportunistas. Já casado, começou a ver a sua vida desmoronar.
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A mulher, abandonou-o. A mãe, que tanto amava, adoeceu gravemente. Mozart, sem dinheiro, vendia composições em troca de medicamentos para a sua mãe, que faleceu após alguns meses.
Triste e desiludido, Mozart caiu enfermo.
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O único amigo fiel, seu cachorro, foi quem ficou ao seu lado até ao dia da sua morte, em 5 de Dezembro de 1791.
.Mozart foi enterrado numa vala comum, em Viena.
Sua mulher, Constanze Weber, que estava em Paris, soube da morte de Mozart e partiu para Viena afim de visitar o túmulo do marido. Ao chegar lá, entrou em desespero ao saber que Mozart havia sido enterrado como indigente, sem que lhe dessem nem uma placa com o nome como lápide.
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Era Dezembro, fazia frio e chovia em Viena. Constanze resolveu 'vasculhar' o cemitério à procura de alguma pista que pudesse indicar onde Mozart fora sepultado. Procurando entre túmulos, viu um pequeno corpo, congelado pelo frio, em cima da terra batida. Chegando perto, reconhece o cão querido de Mozart!
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Hoje, quem visitar Viena, verá um mausoléu, onde está o corpo de Mozart e do seu cão. Foi por causa do amor desse animal de estimação que Mozart pode ser achado e removido da vala comum onde fora enterrado anonimamente.
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O cão morreu junto do túmulo do seu dono porque, sem ele, não poderia mais viver.
.Visitei a Áustria por trêz vezes, sempre em missão de trabalho! As tarefas sempre complicaram o meu desejo de procurar o meu objectivo, talvez obcessivo, de ir ao Cemitério de S. Marcos, homenagear o Homem, o Compositor e o seu fiel Cão.
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Fui lá,... pela quarta e última vez até aos dias de hoje, por minha conta e risco! Devia isso a Wolfgang Mozart!... por razões de comunhão de ideais..., tinha de cumprir aquela peregrinação, diferente! mas ao jeito de quem vai a Meca, a Lourdes... ou a Fátima!
Se o músico pouco ou nada valesse,... iria sempre!!... para homenagear o cão...!
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Munido de um mapa, saí do hotel e dirigi-me para a paragem dos eléctricos. Apanhei o que me pareceu que passaria por Landstrass, local do supracitado cemitério, "tombado" pela Prefeitura de Viena e administrado como um parque de visitação livre; significa que o cemitério não funciona mais como tal! Mantém apenas o interesse histórico, sem dar oportunidades à "hipótese" de se « criarem conflitos de gerações» naquele lugar sagrado!
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A maquineta para tirar bilhetes, não aceitou as moedas que eu tinha. Tão pouco estava preparada para aceitar notas! O guarda-freio não tinha nada com o assunto, conforme disse, pois o seu 'métier' é conduzir! Resultado! Viajar sem pagar,... fora de questão! Toquei para o transporte parar e, saí na paragem seguinte, dando "corda aos sapatos" para percorrer quase 5 kilómetros numa caminhada. Afinal, estava tudo certo! Peregrinação a sério,... tem de ser a pé...!
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Lá encontrei o cemitério e, para além do túmulo de Mozart, visitei muitos outros, pertença de figuras históricas que bastante significado trouxeram às minhas recordações da História, desde a Música até à Política!
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Um local alegadamente sinistro, mas não!...
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Encontros com grandes amigos dos nossos compêndios escolares, e das conversas havidas nos tempos das saudosas tertúlias!
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Achei que era tempo de regressar, e procurei o caminho da saída. Tinha-me afastado bastante, pois fiz esforços de orientação para chegar ao portão principal, que acabei por encontrar fechado à chave!
À entrada não tinha visto ninguém, e durante a minha visita, também não vi nenhum outro visitante!... talvez por ser dia útil de trabalho!
Que fazer!?... procurei sem êxito um funcionário administrativo! Estava só, fechado num cemitério histórico, a poucos passos da «Vala Comum» onde repousa Mozart !
Medi com o olhar o gradeamento do cemitério, e na base da «lei» portuguesa do «desenrasca», transformei o gradeamento em escada e, saltei para a rua, sentindo-me um tanto ou quanto "vagabundo", com a atitude!
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Não tive outra escolha!
Achei que não tinha ainda chegado a hora da minha última morada!
Mesmo..., num Cemitério Histórico!! (...)

3 comentários:

Luisa Moreira disse...

César,

Sem me querer tornar repetitiva, mais uma vez escreveu, algo que me emocionou, quer pela escrita, quer pela narrativa.
É bom termos pessoas que não guardam para si, o que sabem, sendo assim fazem quem os lê, serem melhores.

Fiquei, emocionada é um relato muito bonito, e vem confirmar-se o que sinto há muito, a amizade dos animais é verdadeira.
De que serviu a mulher vir a correr, já com o seu marido morto, tendo-o abandonado quando havia dificuldades. Os tempos de agora não são diferentes.

Os génios, regra geral só são reconhecidos depois da morte.

O Homem, morreu ficou a obra, e essa permanecerá até querermos.

Escrevo-lhe a ouvir Mozart - Allegro - Quinteto de Cordas em Dó Maior

Merece, um beijinho,

Luisa

Maga disse...

Eu também gostei (apesar do comprimento da escrita, o que me deixa sempre com vontade de mudar de lentes).
E como além da musica dele, também adoro chocolates, tenho de procurar esses tais, que não conheço.
Voltando a assuntos sérios, obrigada pelos ensinamentos
Um abraço

Palma disse...

Não tenhamos dúvidas que o César em cada artigo se esmera e trabalha a fundo para nos trazer sempre algo de muito bom. Neste caso do Mozart a história repete-se. Parabéns. Palma