[ Vox populi vox Dei ]

2009-12-27

A BLUSA VERMELHA DO MODELO DO ALÉM



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Começara pela "figura", com a audácia arrogante da juventude pletórica e entusiasta de anseios de fácil triunfo, no Atelier da Escola de 'Belas Artes'.
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Um movimento, uma curva, a chama fugidia de um olhar misterioso, exerciam sobre o seu ardente temperamento uma influência impulsionadora, desencadeando-lhe ao mesmo tempo, nos distendidos nervos, uma louca febre de criar.
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Chegava a correr, com a pupila atónica, atrás de um tornozelo bem torneado...
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Então, o colorido rico de uma bela pele feminina de modelo, cintilando saúde ou morbidez deleitosa, excitava-o até à temeridade.
E pedia para que posassem para ele, ainda com ressaibos de infantis ternuras no timbre leve da voz espigada.
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Pouco estudava, obcecado pela paixão dominadora: a pintura.
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Certa manhã, encontrou à esquina da Escola uma rapariga querendo prender nos dedos as primeiras paveias de sol, enrolando os cabelos como raios soltos do astro rei.
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A cor dela impressionou-o.
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Abeirou-se: falou-lhe.
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Não trabalhavava; adoentada. Queixosa do peito por ter carregado, desde muito jovem, com os seis irmãozitos, enquanto os pais labutavam longe, granjeando o pão para os filhotes famintos.
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Comovido, levou-a, através da manhã gloriosa alagada em sol.
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- Tenho agora uma sessão de pintura, vais ser meu modelo. És o tipo exactamente que eu procurava! Pagar-te-ei...
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Ia falando aos borbotões; as palavras saltavam, eram coisas entornadas de um saco aos solavancos.
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A rapariga caminhando, ouvia-o em êxtase. Já nem sentia aquelas garras dolorosas a enterrarem-se minuto a minuto, mais e mais, na sua carne tenra, indefesa.
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- Afinal, ainda servia para alguma coisa! E em casa, desde que despedida de servir por causa da tosse, a pespegarem-lhe sempre na cara, que ela não prestava para nada...!
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Tinham chegado.
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- Mestre...! Hoje trago modelo! - disse-o ainda à porta do atelier, radiante.
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Já tivera vários modelos que a meio do quadro desapareciam, fatigados de estarem quietos. E, na cidade provinciana, modelos profissionais não havia.
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Estava convencido, porém, de que aquela rapariga saberia posar, até o trabalho estar concluído.
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Tinha uma história triste, e uma expressão bem estranha! O fulgor do olhar esquisito, como chama longínqua ou o brilho vindo de dentro de uma braseira em rescaldo...
A pele dela tinha uma cor carmim, ou talvez a cor da terra húmida de orvalho. Só a blusa vermelha gritava ardências de vida no busto maneiro.
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Ele examinava-a, despia-a com o seu olho atrevido de artista que já se julga arrastado nos anais da glória - olhou só a chama artística, sem sombra de pecado.
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A sessão começou, os contornos precisos do esboço ganharam volume. A rapariga de tão imóvel, parecia uma estátua.
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Duas horas depois, dispensou-a, dando-lhe dinheiro, e pediu-lhe que voltasse passados três dias.
.Ela voltou sem se atrasar um minuto sequer! O retrato ganhava beleza no sombrio do colorido.
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O próprio mestre interessava-se pelo modelo, desenhando-o sob as luzes, enquanto o aluno pintava febrilmente.
.Decorreram semanas. O retrato estava concluído.
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Disse-lhe:
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- Agora, só voltarás a mais uma sessão. Isto está pronto. Uns ligeiros retoques apenas e nada mais!
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Viu-lhe deslizar pelas faces uma lágrima de cristal. Ficou comovido, muito embora sem compreender...
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(...) Chegou a derradeira sessão! A rapariga sentou-se, muda como de costume. Só a blusa vermelha exuberante, como nódoa de sangue.
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Passou uma hora, passaram-se duas horas, talvez.
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Então, o fogoso pintor atirou com os pincéis, e num ansioso ímpeto, foi abraçar o impressionante modelo.
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Porém... só a vermelha blusa agarrou!
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O resto... eram cinzas arenosas...!
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(?!?)
.(...) O que a prendera à vida,... nas últimas semanas, fora aquela ideia de ainda valer para alguma coisa; a sensação de se sentir aproveitada... útil...!
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Agora que estava acabado o quadro, acabara também... sem um queixume, como uma pomba que fecha as asas para dormir,... sem um rumor de penas...
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Ele olhou para o retrato.
A rapariga lá estava, olhando do Além...
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No chão..., apenas uma roupa feminina de cor vermelha.
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(...)
Passararam-se anos. A vida exigira dele mais alguma coisa. Formara-se em Medicina.
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Algo de que nunca se apercebeu, moldou-lhe a vocação. Trocara os pinceis pelo bisturi. Ao longo dos anos, recordara sempre a rapariga meiga que morrera pousando.
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O retrato estava agora ali na sua frente, depois de uma longa ausência!
Fitando-o, teve a sensação nítida de que a rapariga estava viva!
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Emoção vertiginosa!
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Depois,... levou as mãos à cara, murmurando só para si, ansioso:
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A alma é imortal?!
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A rapariga do retrato, com a sua presença imaterial, enchia a vasta sala ricamente mobilada de meia-luz.
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Ele revivia o o passado na memória visual, enquanto o pensamento estonteado pretendia galgar as muralhas da outra dimensão, onde alegadamente se encontra a cidadela da outra vida...
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Era mais feliz no tempo em que sonhara com a glória de ser pintor de figuras mais ou menos belas, sem cuidar do que existia para lá das fisionomias...!
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Sentia-se só...!
Apenas com um quadro a óleo por companhia...
.Imagem do quadro: in Net
-agendatenini.com/

6 comentários:

José disse...

César,

Eu bem gostaria, de poder falar sobre tudo, mas os meus conhecimentos são limitados, e se falar de coisas que desconhece estou sujeito a errar, embora errar seja humano, eu faço tudo para errar pouco.

Vi que este médico que foi pintor
deixou naquela tela a imagem que o acompanhará toda a vida.

Deixo aqui também mais um soneto de

João Batista Coelho

Que o ano novo que está ai a chegar
lhe traga tudo o que mais desejar
um grande abraço,
José


Elmano

Setúbal a cidade a luz directa
Um rio verde azul um verso airoso
E o astro inconfundível dum poeta
Que o mundo considera portentoso

São eles a moldura mais correcta
O espelho mais perfeito e generoso
No vate que o cupido deu à seta
Um activo amor sublime ou doloroso

Confundem-se neste homem por destino
A sátira a paixão o amor divino
Vestindo em cada dia um novo traje

Na alma e na pujança de outra chama
Presente de soneto ao epigrama
Nos versos deste deus que foi Bocage

João Batista Coelho

Palma disse...

Parabéns ao Cesar pelo conto e ao João Batista coelho pelo poema ao grande Bocage. Bons dias festivos. Palma -Louletania

Luisa Moreira disse...

César,

Conto muito interessante, será um dos que irá publicar?

Por vezes temos o que desejamos ao nosso alcance, e deixamos escapar como areia, por entre os dedos.

Beijinho
Luisa

César Ramos disse...

José,

Este poeta João Batista é digno de aplauso, pela arte e sensibilidade que transpira!

Ao nosso amigo Palma - Louletania, pessoa atenta, não lhe escapou a beleza da poesia do João... que, assim terminou este soneto:

"..../
nos versos deste deus que foi Bocage"

Tocou-me na 'ferida'!!

Desde há muito que, sem ferir susceptibilidades de ninguém, dou por mim mais agarrado à poesia de Bocage, do que o 'obrigatório' Camões!

Neste ambiente poético, lembrei-me hoje de saudar Loulé e de fazer umas rimazitas dedicadas a António Aleixo!
São fracas, mas foram de boa vontade...

Abraços para si, e...
cá o espero na volta dos comentários!

César Ramos

César Ramos disse...

Luísa Moreira,

Se conseguir melhorar esta escrita feita no tinteiro da noite, talvez apareçam alguns contos, para compensar os euros que nos 'impingiram'...

Se até Alice Vieira se queixa, qual seria o meu destino como contador de estórias?

Agradeço imenso a metáfora da areia!
É um bom empurrão para cortar o Nó Górdio dos impasses!

Beijinho
César

Luisa Moreira disse...

César,

Uma pessoa, que escreve um conto destes, por inspiração de uma pintura, que nem ao vivo a viu, só no ecrã do computador, tem potencial para escrever muito mais. Querer, é poder.


Abraços
Luisa