[ Vox populi vox Dei ]

2009-12-15

« AMOR de PASSAGEM !... "SINE DIE" (...) »




.Aos 99 anos de idade... perguntaram-lhe:
"Foi o grande amor da sua vida ? "
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" AINDA É...! "




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- “Estão amarelecidas as folhas dactilografadas que te mandei naquele Outono de 1944, e esbatido pelo tempo o vermelho da tinta com que foram escritas. Estão amarelecidas, e quase ilegível o que te contei. Mas conservam ainda manchas do bolo em que as introduzi”.
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As palavras foram escritas por MANUELA CÂNCIO REIS, mulher de SOEIRO PEREIRA GOMES, e estão bem preservadas na sua memória. Aos 99 anos Manuela Câncio Reis, a mulher que fez o escritor neo-realista rumar a Alhandra para um casamento que durou escassos anos, cortado abruptamente pela necessidade de fuga ao regime, repete memórias que transcreveu para um livro: “Eles vieram de madrugada – cartas para a clandestinidade a Soeiro Pereira Gomes”, publicado em 1981.
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Recorda o dia em que o escritor ligado aos ideais do Partido Comunista Português teve que “dar o salto”. E lembra cada palavra desse livro que escreveu a pedido do marido. Manuela Câncio Reis está hoje deitada numa cama. Conserva uma lucidez intocável e um sentido de humor refinado, numa casa de repouso algures na Parede. Tem olhos azuis vivos e o dom da palavra. “Fechei a porta devagar, como se no largo ainda deserto o leve estalido do trinco pudesse atrair olhos tenebrosos para a nossa casa já vazia. Fiquei a escutar o ruído do táxi que se sumira na curva, levanto-te rumo à estrada. No rosto sentia ainda o calor dos teus beijos, no frenesim da despedida, e nos ombros a pressão do longo abraço que me deste tentando deixar comigo um pouco da coragem que levavas. «Serão apenas umas semanas», disseste”.
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E as semanas transformaram-se em meses e anos. Em bilhetes transportados na escuridão da clandestinidade. Medo e ansiedade foram palavras que passaram a fazer parte do dia a dia da jovem de Alhandra.
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O “pai” do Gineto, do Gaitinhas e do Maquineta de “Esteiros”, que tocava na guitarra as canções de Coimbra, onde estudou, tinha partido. A casa de família, à beira Tejo, estava agora vazia. Sem o olhar atento do escritor que acompanhava a vida dura dos operários meninos. “Um dia, na nossa primeira casa, abeirou-se da janela que dava para os telhais, em Alhandra. Enquanto apertava o cinto e ajeitava a gravata, sem tirar os olhos da fábrica, disse, ‘eu tenho que lá ir’”, conta Manuela Câncio Reis a recordar os breves tempos de casada na sua Alhandra Natal.
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A informação que Soeiro Pereira Gomes recolhia nos telhais era matéria-prima que tratava nos tempos livres. Quando não estava ocupado com o trabalho de chefe dos empregados de escritório da fábrica Cimento Tejo, cargo que ocupou a substituir o pai da mulher, depois de vir de África onde esteve durante um ano na companhia de Catumbela (Angola) em 1930 para conseguir algum dinheiro para o casamento.
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Em casa, enquanto Manuela Câncio Reis escrevia músicas no piano a cumprir o contrato com a emissora nacional, Soeiro trabalhava nos manuscritos. “Engrenagem” estava então em processo acelerado de escrita. Embrenhava-se o escritor contra a “ordem do Estado novo de Salazar”. Os dois escritórios eram divididos pelo corredor da casa que não era suficiente para impedir o som do piano de alastrar. “Muitas vezes lhe transtornei o trabalho”, lembra-se incomodada Manuela Câncio Reis, com dedos compridos e moldados por muitos anos de teclado de máquina de escrever e piano. “Uma vez começámos os dois à gargalhada. Ele perguntava: ‘olha lá, nunca mais acabas de tocar essa nota? Estou ali à espera para conseguir escrever’ …(risos). Acabei por colocar a surdina no pedal do piano”, confessa.
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Na casa térrea, perto do Tejo, em Alhandra, Manuela Câncio Reis tinha sardinheiras em flor. Ainda não usava as molduras das fotografias para lembrar os seus “mortos”. Sobre a televisão, oferecida por uma prima, que lhe faz companhia na casa de repouso, estão duas imagens de Soeiro Pereira Gomes, nascido em Gestaçô, Baião, no Porto, mas que uma paixão trouxe a Alhandra. É o homem que por quem se apaixonou antes mesmo de o ver, mas que não reconheceu quando o foi visitar sob disfarce ao hospital, ainda na clandestinidade, mas já atingido nos pulmões pela doença que o vitimou. Joaquim Pereira Gomes nasceu a 14 de Abril de 1909 e partiu demasiado cedo, a 5 de Fevereiro de 1949. “O seu grande mal foi ter-se metido na política”, diz a mulher que lhe reconhece a entrega à causa da justiça e da luta contra a miséria. “Foi o grande amor da sua vida?”, pergunta-se-lhe. “Ainda é”, atesta Manuela Câncio Reis. E os olhos regressam à fotografia.
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UM ROMANCE INTERROMPIDO PELA CLANDESTINIDADE
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Manuela Câncio Reis e Joaquim Soeiro Pereira Gomes apaixonaram-se antes mesmo de se conhecerem. O estudante que se consagrou como um dos grandes vultos da literatura neo-realista era camarada do irmão da futura esposa na Escola de Regentes Agrícolas de Coimbra. O que sobre um e outro se dizia, e algumas fotografias, já provocavam admiração e interesse. Depois foi amor à prima vista na véspera do baile de finalistas na cidade dos estudantes. O vestido longo, encomendado num dos melhores costureiros de Lisboa, fez furor. O casamento aconteceu três anos depois, em Coimbra. Depois de uma visita que entretanto Joaquim Soeiro Pereira Gomes fez à Quinta da Viúva Câncio, avó de Manuela, na zona de Alhandra, que ainda hoje mantém o tanque onde os netos se banhavam nas tarde quentes de Verão. “Ele escreveu o nome na areia. Não se declarou, por respeito, estava na quinta a convite da família”, recorda Manuela Câncio Reis.
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Entre o vestido branco com festa de casamento convencional e uma viagem, oferta do pai, Manuela Câncio Reis escolheu a Lua-de-mel. Início de uma curta vida a dois, ditada pela saída repentina de Soeiro Pereira Gomes, filho de uma família de agricultores do Douro, para a clandestinidade.
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Muito à socapa, depois da fuga de Joaquim e da saída da prisão de Manuela encontraram-se por uns momentos, de fugida, em Lisboa, em casa de uns parentes do Zé Ralha, conta a sobrinha Isabel Câncio Reis Nunes em “Passagem”, uma biografia de Soeiro Pereira Gomes. E por breves momentos na pousada da Urgeiriça. Da prisão de Manuela nunca falaram. Os filhos nunca chegaram porque o casal procurava uma vida mais desafogada para constituir família. Os anos clandestinos foram duros para ambos. E não mais voltaram a ser marido e mulher.
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“Como era agradável o nosso quarto com o seu tom rosa-velho e a sua janela em que espreitavam os gerânios quando abrias as vidraças, manhã cedo. Fazias ginástica e eu ficava a ver, meio ensonado, o teu corpo bem feito entregue aos exercícios a que o obrigavas todos os dias”, escreveu Manuela Câncio Reis sobre o marido. “Não gostavas de certos pratos. Por mais que disfarçássemos o pargo de ‘pescada’ ou de ‘goraz’ nunca te deixavas levar. “Cá está o crocodilo’, dizias no teu jeito brincalhão.
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CÁRCERE NO HOSPITAL E A RAPARIGA DAS TRANÇAS
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Manuela Câncio Reis, companheira de Soeiro Pereira Gomes nos anos que antecederam a saída para a clandestinidade, nunca conheceu o paradeiro do escritor neo-realista, mas nem isso impediu que a então jovem alhandrense conhecesse os martírios de um cárcere.
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Já antes de Soeiro Pereira Gomes “saltar fora” sentia no uivar da sereia da fábrica prenúncio de má sorte. “Colhi uma braçada de sardinheiras. Pus flores em todas as jarras. E fechei o piano”, escreve. À saída repentina do marido seguiu-se a sua prisão. “Eles vieram de madrugada”, diz o título do seu livro, fiel à realidade. Às três da manhã soaram murros na porta da rua. A casa invadida por perguntas e remexida e uma mulher doente pela partida do bem amado. “Fui levada para o hospital como refém”, conta Manuela Câncio Reis.
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Havia três camas de cada lado e um biombo a tapar a janela. “Na cama que me ficava em frente já tinham instalado a senhora cujo sangue lhe escorria pelo nariz e pela boca”.
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Na prisão hospital, um antigo palacete, onde uma tia, irmã da mãe se tinha suicidado, os percevejos eram também inquilinos. E de um rosto claro e pele delicada fizeram poiso. Lugar odioso onde se servia um púcaro de leite em que nadavam pedaços de nata amarela e um bife uma vez por semana.
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Era companheira de quarto, no hospital feito prisão, a rapariga da grossa trança doirada que se ali se sentia feliz, longe da violência do marido que a arrastava pelos cabelos. “Quem me dera ficar cá por muito tempo. Dizem que estou muito doente, mas não sei”, confessava a amiga na desventura e na caça aos percevejos que matavam juntas.
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A prisão deixou marcas na mulher que pouco depois deixou Alhandra e partiu para Lisboa. “Recosto-me no maple em que repousavas nas horas de maior cansaço. Mas onde estão os dedos que passavam pelos meus cabelos, quando me anichava a teus pés, escutando coisas com que sonhavas para o futuro?”. “‘Depois de mais um ou dois romances, vou escrever livros para crianças’, dizias às vezes”.
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UMA MULHER À FRENTE DO SEU TEMPO
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A ausência de Soeiro Pereira Gomes foi demasiado dolorosa para Manuela Câncio Reis, que deixou Alhandra. Partiu para Lisboa em busca de um emprego que lhe permitisse a independência e também o auxílio aos pais.
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O conhecimento de línguas ajudou-a. Sabia tocar piano e a elasticidade dos dedos facilitou-se a aprendizagem de dactilografia. Foram tempos difíceis. Passou alguma fome. “E quando passava por uma padaria e me vinha um cheirinho a bolos e pão quente?”, recorda sem marcas de revolta.
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Virgílio Barroso, um matemático irmão de Maria Barroso, ligação entre os dois esposos separados pelo muro da clandestinidade, passou de intermediário a segundo marido. O casamento com o pai de Alfredinho, que acabou por falecer vítima de um problema cerebral, durou pouco. Manuela partiu para o divórcio, já separada de facto, ajudada por Avelino Cunhal, pai de Álvaro Cunhal, porque o marido se recusou a autorizar que viajasse para o estrangeiro (requisito à época necessário).
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Manuela Câncio Reis ficou alojada em pensões em Lisboa e trabalhou como secretária na Campos Ferreira, exportador de vinhos, que compensar os funcionários pelas horas extraordinárias com espumante e jantar do Gambrinus, um restaurante luxuoso de Lisboa. Foi Campos Ferreira que lhe disse que partisse e aproveitasse as últimas horas com o marido – quando lhe chegou a notícia de que Soeiro Pereira Gomes estava prestes a sucumbir. Quando chegou ao Norte já o escritor tinha partido. Desta feita, sem promessa de regresso.
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ESTEIROS, A INSPIRAÇÃO DE UM ESCRITOR
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“Esteiros. Minúsculos canais, como dedos de mão espalmada, abertos na margem do Tejo. Dedos das mãos avaras dos telhais, que roubam nateiro às águas e vigores à malta. Mãos de lama, que só o rio afaga”.
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Joaquim Soeiro Pereira Gomes imortaliza assim em “Esteiros” (1941) a vida dos “garotos maltrapilhos” a quem as solitárias mães proibiam brincadeiras para evitar que os filhos sorvessem duas sopas ao jantar. Romance paradigmático do movimento neo-realista que o escritor dedicou aos filhos dos “homens que nunca foram meninos” sujeitos a trabalhos forçados, à fome e ao rigor do sol e da chuva.
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O nadador campeão Baptista Pereira, “Gineto” dos “Esteiros”, ia às quintas como outros tantos meninos roubar laranjas. “Chegou a cruzar-se com a minha avó, carregado, tapava o rosto com as mãos e dizia: ‘Muito boa tarde minha senhora”’, recorda Manuela Câncio Reis.
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“Cabelo em desalinho, gravata às três pancadas, os sapatos enlameados, mãos sujas da pá com que escavavas a charca ao lado dos trabalhadores. Andavas numa azáfama, planeando, organizando coisas para o bem dos outros. Desesperado com a falta de recursos, mas lutando sempre contra os preconceitos, contra más vontades, contra a guerra de sapa que já te movia quem não se encarava com bons olhos”, escreve a esposa que partilhou a casa em Alhandra, frente aos telhais, onde o escritor se inspirou para a obra.
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“Há que ter fé nos homens. Nem toda a gente é má”, augurava o escritor. “Melhores dias hão de chegar”. Dizia a sonhar com o dia da liberdade. Um dia que, para Soeiro Pereira Gomes, que partiu a 1949, chegou tarde demais. Tão só na madrugada de 1974.
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QUARTEL-GENERAL NUM MOINHO RIBATEJANO
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No final dos anos 30 do século XX Soeiro Pereira Gomes adere ao PCP. Ingressa na célula da empresa e pouco depois integra o comité local de Alhandra. Na sua casa, em Alhandra, reuniam-se intelectuais. Enquanto o regime de Salazar tentava abafar o holocausto Soeiro Pereira Gomes abria a janela da sua casa de um só piso, em Alhandra, para que os populares escutassem na rádio a informação da emissão portuguesa da BBC, às 21h00, já que os cafés estavam proibidos de ligar os aparelhos de rádio àquela hora.
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António Dias Lourenço foi um dos companheiros nos passeios de intelectuais no Tejo até ao palácio das Obras Novas, em Azambuja.
“Podia-se conversar à vontade e discutir sem perigo largos problemas ligados à luta anti-fascista” escreve o ex-director do jornal “Avante”.
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Já na clandestinidade, a partir de um moinho, situado entre Vaqueiro e Pernes, Joaquim Soeiro Pereira Gomes, como responsável do Comité Regional do Ribatejo, promoveu a constituição e acompanhamento, entre 1945 e 1946, dos Comités Locais de Santarém, Vale Figueira, Alpiarça, Rio Maior, S. João da Ribeira, além de núcleos na Marmeleira e na Ribeira de Santarém.
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EXPOSIÇÃO EM ALHANDRA
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Uma exposição sobre o percurso do escritor neo-realista Soeiro Pereira Gomes, que viveu em Alhandra, foi inaugurada a 19 de Abril até 7 de Maio p.p., na Galeria Augusto Bértholo, no Museu Sousa Martins. O evento pretendeu assinalar os 100 anos do nascimento do autor, abordando a obra literária, mas também a dedicação à terra daquele que foi filho adoptivo, mas trouxe inúmeros benefícios.
.O homem que ajudou a construir a piscina de Alhandra [iniciativa, recolha de fundos e trabalho braçal] para que se evitassem as correntes traiçoeiras do Tejo, participou no processo de alfabetização das gentes da terra e ajudou a reunir o espólio das bibliotecas do Alhandra Sport Club e da Sociedade Euterpe Alhandrense que continuam desactivadas (!) ...
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[Apenas se deu a um pequeno Luxo: - fez questão de a sua amada, ser a primeira pessoa a mergulhar na piscina!... (a foto do post anterior em fato de banho, terá algo a ver com isso)]
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[Depois das "postagens" de ontem,... era um "must" publicar este texto]
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- IMAGEM obtida na: Internet
- Texto adaptado de:www. omirante.pt

3 comentários:

Luisa Moreira disse...

Maldita Ditadura. Abençoado Amor.

gin-tonic disse...

Sentir o amargo em saber que estas histórias, estes exemplos, estas mulheres, são do conhecimento de muito poucos... Que cada vez serão menos... e será o esquecimento... Será?
Uma recordação comovente, caro César Ramos. Ele que volta e meia pensa que já nada o comove...
Serviu-lhe para voltar a pegar nas cartas de Manuela Câncio e permita que deixe este pedacinho, um dos muitos por lá sublinhados e cometados:
" - O Joaquim que fuja depressa. A polícia está em Vila Franca, em casa do pai do Redol.
- Já fugiu. Deve estar longe a esta hora - respondi, tão assustada como se ainda estivesses em casa.
- Ainda bem. vim a correr, prevenir.
E não dando tempo a que eu agradecesse logo desapareceu na esquina que dava para a linha-férrea."
Um abraço

Reaça disse...

Eu também prefiro a Dita-mole.
Custa menos a sair...