[ Vox populi vox Dei ]

2009-11-20

URBANO TAVARES RODRIGUES




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«Não quero ser um génio... já tenho problemas suficientes ao tentar ser um homem» (...)
- Pensamento de Albert Camus que U.T.R. jamais repudiará,... pois sabemos que concorda!
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O título deste post até há momentos, deveria ser «ÁGUAS FURTADAS»! Porquê?... a inspiração mandava traçar um texto de horizontes vastos, idênticos aos que uniu o casal Urbano! mas..., são grandes demais para lhes darmos 'rótulos'! Por isso,... ontem como hoje,... o correcto é chamá-los pelos seus nomes de Cidadãos.
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URBANO TAVARES RODRIGUES, nasceu em Lisboa em 6 de Dezembro de 1923. Cresceu no Alentejo e iniciou a carreira literária com um livro de contos (A porta dos limites, 1952); outra obra do género (Vida perigosa, 1955); ( A noite rouxa, 1956); (Jornadas no Oriente, 1956); (Jornadas da Europa, 1958) ; (Uma pedrada no charco, 1958).
Já tinha publicado "As aves da madrugada, 1959", quando o Século Ilustrado de 13 de Junho de 1959, na página literária de Guedes de Amorim, um ano depois, faz tardiamente a vénia e a crítica lisongeira ao estilo de Urbano Tavares Rodrigues, à sua aristocrática coragem de nos dar a realidade sem o pavor dos temas desembaraçados de cortinas e os verbos sem medo ao seu desuso no convívio da palavra escrita ou falada.
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Descreve a obra como saborosa colectânea erudita de crónicas de encontros com várias cidades europeias, seus povos e paisagens, considerando a jornada de raiz universalista, no sentido de nos projectar, segundo o que descobriu e sentiu, para um futuro de novos clamores de esperança e de liberdade.
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Já era casado com MARIA JUDITE DE CARVALHO (1921-1998) desde 1949, nome fortíssimo no feminino das hostes da Literatura Portuguesa. A grande companheira e cúmplice na vida de Urbano!... Talento criador reconhecido dentro e fora da pátria,... o homem que foi espancado, viveu a prisão e a discriminação política. Quão fácil seria a ele, ao casal, a acomodação num apoltronamento de segurança e conforto!... contudo, optou... optaram...! Romântico, dirão os cínicos. Mas esses [românticos] são os que pactuam ou se omitem. E Urbano não quis nunca omitir... ou pactuar! Nem ela, a mulher, o quis também!... Sentiu,... sentiram solidão; decerto que isso aconteceu! Mas saber-se-á que só é só,... quem não pode contar com verdadeiras amizades. E eles tinham essa riqueza e força interior para resistir... e nunca vacilaram.
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Mantenho-me seguidor de um blogue "sui generis", que expõe nos seus posts na forma de propostas adivinhatórias, temas de conhecimento geral. Há algum tempo, sob o título «Quem é este senhor?», surgiu o fotografia de Urbano Tavares Rodrigues ainda jovem, acompanhada do seguinte rodapé: « Trata-se de alguém com quem, durante quase 4 anos me cruzei praticamente todos os dias. Não o conhecendo pessoalmente, sempre me impressionou de modo favorável pelo sorriso que ostentava. Uns amigos de juventude, seus vizinhos de férias durante muitos anos na aldeia do Baleal, vieram a confirmar a ideia: sociável, simpático e muito civilizado.» (sic)
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Esta era a proposta de adivinha apresentada pela co-editora do blog, Profª. Teresa. A resposta não se fez esperar e, lá veio o nome de Urbano Tavares Rodrigues como solução do "enigma" que ligava a imagem fotográfica à narração. De seguida e em catadupa, seguiram-se comentários, recordando cada um, especificidades inerentes ao escritor. Um desses comentários, da autoria de outro colaborador do blog que se apresenta com o 'nick' - «gin-tonic», adiantou de forma bastante saborosa, o seguinte:
.« A blogosfera andava a ocupar-lhe o tempo demasiado, tempo que lhe andava a faltar para leituras, filmes, conversas, outras coisas. Estava a tornar-se viciante, ele que até não tem quaisquer complexos com vícios e reconhece que ainda lhe faltam alguns... Decidiu que só virá aqui pela noite. Vai acontecer-lhe perder adivinhas. Esta, por exemplo. Mas não será por saber a solução da adivinha que deixará de contextualizar, sempre que achar necessário. É o caso do Urbano Tavares Rodrigues.
Generoso. Solidário. Culto. Amável.
Corajoso. Uma extensa obra, desiquilibrada por vezes, mas importantíssima, alguns dos melhores contos e romances portugueses. Por trás de um grande homem há sempre uma grande mulher: Maria Judite de Carvalho, outro nome incontornável da nossa cultura. Anos 69/70.
Chegava a casa e dizia ao pai que já comprara o último Urbano [último livro].
O pai, com ternura:
" Porra! esse gajo mija livros! " (...)
Um livro que não esquecerá:
"Imitação da Felicidade".
Motivos vários.
(19 de Agosto, 2009) ».
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Não esqueço as considerações destes dois 'navegadores' de blog: a Profª Teresa e o característico ' gin-tónic ' que se expressa na terceira pessoa!... recomendo vivamento aos eventuais leitores do Alfobre, que sigam o blog http://diasquevoam.blogspot.com/
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Percebo um dos motivos que gin-tonic não esquecerá o livro "Imitação da Felicidade". Foi um livro posto "fora do mercado", designação branda para dizer que o livro fora proibido de estar à venda, ou possuí-lo! Em honra de Urbano e de gin-tonic, aqui se reproduz em fotografia, a capa do livro que, no tempo, tinha sido editado pela Bertrand.
Mais tarde, as obras de Urbano seriam editadas pela Europa América!
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Nota curiosa: na minha investigação para recolha de elementos para este post, soube
que a Bertrand já não se' lembra' que editou Urbano!
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A Informática... apagou-lhes a memória...!!
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Urbano Tavares Rodrigues foi Director da Revista Europa, jornalista do Século e Diário de Lisboa, periódicos onde fez crítica teatral.
Percorreu grande parte do mundo, reuniu relatos de viagens nos volumes Santiago de Compostela (1949) além das Jornadas acima já referidas.
Recebeu galardões literários, como o Prémio Ricardo Malheiros, Prémio da Imprensa Cultural [IMITAÇÃO da FELICIDADE] , Prémio Vida Literária ....
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Nota informativa: A "Imitação da Felicidade", premiado mas proibido pela ' censura ', trata de uma viagem a um passado recente na qual se evidenciam certos atavismos culturais, sociais e políticos dos portugueses, através do confronto entre duas turistas francesas e três portuguesas. Foi só, um dos muitos momentos criativos de Urbano!
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Não é só o grande escritor do Alentejo, das suas gentes e das suas paisagens, é também romancista e contista de Lisboa e de outras atmosferas cosmopolitas que, como jornalista e professor universitário, bem conhecem, viajando pelo mndo.
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A juventude que U.T.R. (Urbano T. Rodrigues) ostenta na foto em cima, é a mesma com que responde agora, octogenário, a uma entrevista: «Gostava intensamente de viver» e «Tenho um tempo de vida muito limitado».
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Seguro do que dita a Lei da Vida e o ' acto ' de "partir", sem mistérios diz: «Tenho um grande problema de coração. Não tenho já a aurícula esquerda porque está morta. Vivo de circulação artificial. O bombear do sangue faz-se pela aurícula direita e muito facilmente entro em taquicardia (...) não sei quando será, mas no meu caso é para breve».
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Este grande coração que assim 'pensa' que se despede e faz poesia serena do último capítulo de todos nós,... é o autor,... como já referimos e apresentámos, da obra «Imitação da Felicidade» : O Livro que nos proibiram de ler!...
Escritor prolífico traduzido em diversas línguas, tem como característica principal a tomada de consciência do indivíduo face a si mesmo e aos outros, processo que se desenvolve até ao reconhecimento de uma identidade social e política.
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Outra obra que desde sempre muito me agradou até hoje, também ela apreendida e colocada «fora do mercado» pela "Censura"
do chamado Estado Novo:
.« CONTOS da SOLIDÃO »



5 comentários:

Maga disse...

Amigo César, respondi-lhe no meu próprio blog. Se quizer ter a bondeza de espreitar, dar-me-há muito gosto
Um abraço
Maga

Maga disse...

César, sabe que mais?
Deixemo-nos de elogios mútuos, nós já sabemos que somos muito bons!
Costados de S.Martinho da Cortiça...
Abraço
Maga

Luisa Moreira disse...

Apesar da luta política, sempre disse que o amor foi o seu grande tema...

É, era, homem de muitos amores.

Muito afável e de trato fino.

César,
Obrigada,por nos dar textos de leitura agradável, e de não deixar cair no esquecimento, autores tão importantes como Urbano Tavares Rodrigues.

Abraços
Luisa

gin-tonic disse...

E voltamos ao Urbano, caro César Ramos.
Num livro publicado pela ASA, por ocasião dos 50 Anos de Vida Literária, a Bibliografia então apresentada (agora já há mais livros) mostra:
Contos, novelas, ficções: 26 livros
Romances: 14 livros
Teatro: 1 Livro
Viagees e crónicas: 14 livros
Não se referm, neste comentário, as antologias, os prefácios, as traduções, algumas em colaboração com Maria Judite Carvalho.
Convenhamos que é obra.Uma obra dispersa por um sem numero de editoras. Cá pela casa há livros publicados na "Ática", na "Betrand", na "Europa-América, na "Seara Nova", "Arcádia", "Prelo", "Portugália", "Caminho", "Cronos","Ulisseia", "D. Quixote".
"Imitação da Felicidade" foi lido num tempo amargo e delicado.Já o livro estava, há algum tempo, fora do Mercado, encontrou-o, em 1968, numa pequena papelaria nas Caldas da Raínha, onde então prestava serviço militar. Os agentes da PIDE esqueceram-se de passar pela pequena papelaria...
Para além da obra publicada há que referir o homem admirável que Urbano sempre foi, é, será. E como é gratificante falarmos de Urbano e sabêlo que ainda está aí para as curvas.
Desculpe esta dispersão, um aobrigado pelas palavras amáveis, um abraço.

Reaças disse...

Este UTV pode ser um grande escritor, mas tirando isso é um verdadeiro escarro!!!
Comuna filho de puta, como bom comuna, intriguista, aldrabão, escória!