[ Vox populi vox Dei ]

2009-11-22

OS REVERENDOS e a MANIA pelas ARMAS




.[Recentemente, as pessoas caíram das núvens por causa de uma notícia dominante nos Media: o Sr. ' Prior' de Covas do Barroso - Padre Fernando Guerra -, foi detido pelas autoridades policiais por posse ilícita de armas de fogo! O Tribunal de Boticas aplicou-lhe a medida de coacção de Termo de Identidade e Residência].
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. O 'Planeta' alvoroçou!... um Padre com armas!!... sejamos sérios! Sempre ouvimos dizer que eles, os Padres, são homens como os outros e deviam casar-se...! E então, homens como os outros... não podem ter as mesmas contravenções?... as mesmas manias? Não será que "herdaram" desde tempos imemoriais, o gosto pela aplicação das armas nas bravatas conquistadoras da dilatação dos Impérios... e da Fé!?
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Provável atenuante,... para o Padre prevaricador!
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Antes de abordarmos o objectivo deste post, vamos dar um ' flash' sobre as fotos acima apresentadas:
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1 - Retrato de Alexander John Forsyth (1768 - 1843), reverendo cansado de o mau tempo lhe molhar a pederneira e a pólvora da espingarda de caça, numa inspiração de engenho e arte, inventou um sistema eficiente que resolveu as dificuldades que o afligiam na sua acção cinegética.
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2 - Esquema inventado pelo Rev. Forsyth -Sistema de percussão central: [Imagem animada]
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Hammer - cão; 'martelo' que percute o fulminante.
Cap - fulminante; elemento uma vez percutido, vai fazer explodir a pólvora, dando-se o disparo.
Hole into barrel - canal que conduz a ignição produzida até ao cano, dando-se o tiro.
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3 - Grande placa de bronze encastrada na Torre de Londres, homenageando Forsyth pelas
suas inovações.
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[não fosse o esforço bélico, não teria lá placa alguma como Reverendo!]
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Era um homem de Deus que adorava as armas. E poucos homens neste mundo de Deus terão sido tão patriotas como esse padre escocês, considerado com toda a justiça, como o «Pai da arma moderna».
Napoleão ofereceu-lhe a soma fantástica (à época) de 20.000 libras pelo brilhante e novo sistema da pederneira, para a detonação!
Se ele o tivesse vendido, a sorte da guerra teria mudado virtualmente na Europa de então.
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O reverendo Forsyth nasceu em 1768 e se o obtuso governo britânico tivesse incentivado o seu génio inventivo, a vitória de Wellington sobre as forças napoleónicas, em Waterloo, teria sido obtida de forma muito mais rápida e com um custo infinitamente menor de vidas dos "casacas vermelhas".
Se Napoleão, por outro lado, fosse detentor do genial sistema de percussão inventado pelo clérigo, seriam então as tropas francesas que estariam cruzando o canal da Mancha para ocupar a venerável Inglaterra.
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Na sua pequena aldeia natal de Belhelvie, no Aberdeenshire, o reverendo Forsyth gozava a reputação de ser um emérito atirador, tanto do púlpito, para desconforto de alguns dos seus paroquianos, quanto nos campos para desconforto dos pássaros, lebres e raposas. Quando caçava, o homem de Deus praguejava numa linguagem verdadeiramente atéia, sobretudo porque perdia boa caça devido ao barulho feito pelos mecanismos das suas espingardas, ou pelo mau funcionamento destas, que não detonavam por diversos motivos, incluindo os da humidade.
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De tanto perder tiros, Forsyth começou a estudar os mecanismos de percussão e o seu cérebro fértil logo começou a engendrar um novo tipo de ignição, já que, entre outros problemas a enfrentar, o caçador não poderia sair à caça num dia de chuva, simplesmente porque o mecanismo da arma era desprotegido e a ignição ficava impraticável, com tudo humedecido.
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Num lance de génio, o que ele era realmente, o reverendo resolveu um problema que durante duas décadas desafiava e atormentava os esforços combinados de cientistas e fabricantes de armas: como utilizar fulminatos e como elaborar uma perfeita forma de ignição para as espingardas do sistema de perderneira?
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O primeiro passo de Forsyth foi realizar experiências similares àquelas desenvolvidas pelo famoso químico francês Berthollet, que, em 1788, tentou produzir um tipo de pólvora para armas composta com cloreto de potássio, que detonaria mais poderosamente do que a pólvora ordinária de nitro.
Depois de quase fazer ir pelos ares o seu laboratório e a casa onde vivia, o reverendo concluiu que a utilização da pólvora de cloreto seria muito arriscada e que ela nunca serviria como propelente. Depois, tentou uma combinação de fulminato de mercúrio e cloreto de potássio, esperando que a arma disparasse imediatamente em vez de produzir uma chama de alerta antes do disparo. O que ocorreu foi que a nova combinação actuou muito mais rápido do que ele imaginava, gerando tão pouco calor que a arma não chegou a ser detonada.
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Após muitas semanas de experiências compreendeu que os compostos de detonação não permaneceriam inertes tanto tempo se eles fossem accionados pelo fogo produzido por uma pedra contra o metal. Notou, contudo, que a explosão era mais violenta quando causada por percussão e essa linha de 'approach' acabou por ser coroada de sucesso.
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No Verão de 1805 produziu uma arma operada pelo novo sistema de percussão, o que provou ser superior a qualquer uma das até então conhecidas.
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Levou o invento a Londres, onde foi tratado com desdém pelos nobres! Não esmoreceu. Abriu a sua própria Empresa e produziu armas admiráveis, incluindo pistolas que revolucionaram a época.
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O sistema de percussão foi adoptado no mundo inteiro e, com base nele, as armas que eram monotiro, evoluiram tecnicamente e em design. Um homem de Deus, ao serviço de engenhos de violência! Porém, tenhamos em conta que « Si vis pacem para bellum »,
locução latina que quer dizer: " Se queres a Paz,... prepara a Guerra! "
- escrita pelo autor romano
Publius Flavius Vegetius!
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(...) e é assim que tem sido ao longo dos tempos...
... até aos dias de hoje!
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« ÁMEN [assim seja...] »



6 comentários:

Kk disse...

Muito bom seu post, Sr. Ramos.
Parabéns, escreve muito bem

Anónimo disse...

Cesar o que a gente aprende por aqui... e eu me confesso um ignorante de armamento. Da tropa já tudo esqueci. Sempre fui um bocado azelha para estas artes..rss. Mas enfim ! As vozes...

César Ramos disse...

Agradeço, 'Às vozes' o comentário e as visitas com que me honram.

É muito lisongeiro saber que se aprende por aqui alguma coisa, mas em nada se compara com o que eu aprendo no convívio que mantenho convosco!

Obrigado pelo privilégio de me terem como amigo...

César

Luisa Moreira disse...

César,

Tal como descreve, a mania de Reverendos pelas armas, já vem de longe. Eu quero-as ver bem longe de mim. Contudo apreciei, o modo como descreveu, o esquema inventado pelo Rev. Forsyth -Sistema de percussão central. É sempre bom saber, algo mais

Abraços
Luisa

César Ramos disse...

Luísa Moreira,

Obrigado pela gentileza do seu comentário,posto que, pese embora não apreciar armas, expôs na mesma uma apreciação deduzida do meu artigo.

Abraços
César

Zé Manel disse...

Parabéns, César, pela tua tão oportuna crónica.
O que me aborrece na notícia que publicas é que ha gente na prisão por deter apenas uma arma ilegal em casa, enquanto esse senhor transmontano, com o arsenal todo que tem, e se a justiça fosse igual para todos, jamais sairia da pildra.
Um abraço amigo,