[ Vox populi vox Dei ]

2009-11-29

.:O SÍMBOLO PORTUGUÊS :.



.[FERNANDO PESSOA disse: «Toda a vida é uma symbologia confusa»; «O symbolo é naturalmente a linguagem das verdades superiores à nossa intelligencia, sendo a palavra naturalmente a linguagem d'aquellas que a nossa intelligencia abrange, pois existe para as abranger.» E ainda:
- «Orpheu é a soma e a síntese de todos os movimentos literários modernos.»]
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Muitas são as vezes que se tem abordado o problema do hermetismo em Fernando Pessoa, afirmando-se que, muito do que há de enigmático na sua obra, só à luz da documentação do espólio se poderá esclarecer. Nele encontramos textos sobre ocultismo, maçonaria, cabala, teosofia, rosacrucianismo, e alquimia, entre outros.
Antes de prosseguir, vou para intervalo com uma intervenção sobre uma obra acabada de ter sido posta à venda com um certo ruído de êxito editorial: "O Símbolo Perdido", de Dan Brown!
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Verifico que, afinal, como em muitas outras coisas na vida, as pessoas gostam de pratos fortes, muito embora digam que têm muita atenção pelas dietas!
Assim, habitualmente, tenho visto as pessoas afastarem-se de temas relacionados com hermetismo e, se se falar claramente de maçonaria, a reacção é a de repulsa e rápida mudança de assunto, por alegada indiferença, ou desmesurado ódio de estimação e desprezo.
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Não é a postura que estou a observar com o lançamento desta obra de Dan Brown, alegadamente reveladora de segredos maçónicos e não sei quantas mais "carecas" postas ao Sol.
Provavelmente a máquina de Marketing do Autor, foi posta a funcionar numa afinação perigosamente invulgar, que é a de criar necessidades onde elas não existem! As pessoas foram induzidas no fenómeno do seguidismo, pois, infelizes, frustradas ficariam se não adquirissem este novo livro.
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O Autor revelou que para se inspirar para escrever pendura-se de cabeça para baixo três vezes por dia, está a contruir uma casa com passagens secretas, tem um relógio igual ao do Rato Mickey, a sua árvore de Natal é uma espécie de grelha de partida de "rally-paper", não havendo lá presentes, mas envelopes com pistas, tipo mapa da caça ao tesouro para chegarem às prendas do Menino Jesus.
Espalhou também aos sete ventos que não é Maçon, porque um dos juramentos iniciátios diz, é a confidencialidade e, ele, gosta de escrever sobre eles...!
Bizarro!... se é tudo tão confidencial e não pertence à organização, escreverá o quê?
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O mais provável é mesmo não ser Maçon e, não fará parte da irmandade não porque não queira, mas porque não se entra lá, como se fosse um partido político ou qualquer agremiação desportiva.
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Não paro de imaginar Dan Brown a puxar pela inspiração de cabeça para baixo a fazer o pino! Talvez a posição e a determinação não seja lá muito ZEN! Mas consegue virar as cabeças das pessoas para, aos milhões, lhe comprarem aquele produto de "banha da cobra".
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Fazendo uma retrospectiva muito abrangente e rápida, lembro-me apenas de uma pessoa que foi uma das obreiras da Bíblia, mas não foi para se inspirar que se pôs de cabeça para baixo! Foi S. Pedro que foi crucificado naquela posição por não se achar digno de morrer da mesma maneira que Jesus.
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Os portugueses e o mundo se quisessem saber História e pormenores sobre as particularidades que esperam do contorcionista de "O Símbolo Perdido", deviam estudar Fernando Pessoa. Em "ORPHEU", por exemplo, encontra-se um projecto de esoterismo. Lá está a chave bem escondida, e que Pessoa explica no «Essay on Initiation». A sua iniciação era a palavra; e a palavra o seu verdadeiro e único mistério. O Grau de Mestre está na poesia épica e poesia dramática, fundindo-se de lírica, épica e dramática.Parece incompreensível e é verdade: é no Grau de Aprendiz que está o símbolo de toda a iniciação! Como diria monsieur De La Palice: começar... é do princípio!
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FERNANDO PESSOA escreve sobre a Maçonaria:

A Maçonaria compõe-se de três elementos: o elemento iniciático, pelo qual é secreta; o elemento fraternal; e o elemento a que chamarei humano – isto é, o que resulta de ela ser composta por diversas espécies de homens, de diferentes graus de inteligência e cultura, e o que resulta de ela existir em muitos países, sujeita portanto a diversas circunstâncias de meio e de momento histórico, perante as quais, de país para país e de época para época reage, quanto à atitude social, diferentemente.

Nos primeiros dois elementos, onde reside essencialmente o espírito maçônico, a Ordem é a mesma sempre e em todo o mundo. No terceiro, a Maçonaria – como aliás qualquer instituição humana, secreta ou não – apresenta diferentes aspectos, conforme a mentalidade de Maçons individuais, e conforme circunstâncias de meio e momento histórico, de que ela não tem culpa.

Neste terceiro ponto de vista, toda a Maçonaria gira, porém, em torno de uma só idéia – a "tolerância"; isto é, o não impor a alguém dogma nenhum, deixando-o pensar como entender. Por isso a Maçonaria não tem uma doutrina. Tudo quanto se chama "doutrina maçônica" são opiniões individuais de Maçons, quer sobre a Ordem em si mesma, quer sobre as suas relações com o mundo profano. São divertidíssimas: vão desde o panteísmo naturalista de Oswald Wirth até ao misticismo cristão de Arthur Edward Waite, ambos tentando converter em doutrina o espírito da Ordem. As suas afirmações, porém, são simplesmente suas; a Maçonaria nada tem com elas. Ora o primeiro erro dos Antimaçons consiste em tentar definir o espírito maçônico em geral pelas afirmações de Maçons particulares, escolhidas ordinariamente com grande má fé.

O segundo erro dos Antimaçons consiste em não querer ver que a Maçonaria, unida espiritualmente, está materialmente dividida, como já expliquei. A sua ação social varia de país para país, de momento histórico para momento histórico, em função das circunstâncias do meio e da época, que afetam a Maçonaria como afetam toda a gente. A sua ação social varia, dentro do mesmo país, de Obediência para Obediência, onde houver mais que uma, em virtude de divergências doutrinárias – as que provocaram a formação dessas Obediências distintas, pois, a haver entre elas acordo em tudo, estariam unidas. Segue daqui que nenhum acto político ocasional de nenhuma Obediência pode ser levado à conta da Maçonaria em geral, ou até dessa Obediência particular, pois pode provir, como em geral provém, de circunstâncias políticas de momento, que a Maçonaria não criou.

Resulta de tudo isto que todas as campanhas antimaçônicas – baseadas nesta dupla confusão do particular com o geral e do ocasional com o permanente – estão absolutamente erradas, e que nada até hoje se provou em desabono da Maçonaria. Por esse critério – o de avaliar uma instituição pelos seus atos ocasionais porventura infelizes, ou um homem por seus lapsos ou erros ocasionais – que haveria neste mundo senão abominação? Quer o Sr. José Cabral que se avaliem os papas por Rodrigo Bórgia, assassino e incestuoso? Quer que se considere a Igreja de Roma perfeitamente definida em seu íntimo espírito pelas torturas dos Inquisidores (provenientes de um uso profano do tempo) ou pelos massacres dos albigenses e dos piemonteses? E contudo com muito mais razão se o poderia fazer, pois essas crueldades foram feitas com ordem ou com consentimento dos papas, obrigando assim, espiritualmente, a Igreja inteira.

Sejamos, ao menos, justos. Se debitamos à Maçonaria em geral todos aqueles casos particulares, ponhamos-lhe a crédito, em contrapartida, os benefícios que dela temos recebido em iguais condições. Beijem-lhe os jesuítas as mãos, por lhes ter sido dado acolhimento e liberdade na Prússia, no século dezoito – quando expulsos de toda a parte, os repudiava o próprio Papa – pelo Maçom Frederico II. Agradeçamos-lhe a vitória de Waterloo, pois que Wellinton e Blucher eram ambos Maçons. Sejamos-lhe gratos por ter sido ela quem criou a base onde veio a assentar a futura vitória dos Aliados – a "Entente Cordiale", obra do Maçom Eduardo VII. Nem esqueçamos, finalmente, que devemos à Maçonaria a maior obra da literatura moderna – o "Fausto" do Maçom Goeth.

Acabei de vez. Deixe o Sr. José Cabral a Maçonaria aos Maçons e aos que, embora o não sejam, viram, ainda que noutro Templo, a mesma Luz. Deixe a Antimaçonaria àqueles Antimaçons que são os legítimos descendentes intelectuais do célebre pregador que descobriu que Herodes e Pilatos eram Vigilantes de uma Loja de Jerusalém.

(*) Fernando Pessoa - Este é um trecho do artigo que Fernando Pessoa publicou no Diário de Lisboa, no 4.388 de 4 de fevereiro de 1935, contra o projeto de lei, do deputado José Cabral, proibindo o funcionamento das associações secretas, sejam quais forem os seus fins e organização.
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No ambiente de discordância reinante na imprensa das pessoas que publicamente tomaram posição sobre o projecto-lei de José Cabral e sobre a apreciação que lhe fez Fernando Pessoa, sobressaem na "A Voz" - o Conselheiro Fernando de Sousa e o Mestre Alfredo Pimenta.
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No dia 5 de Fevereiro/35, no seu jornal, nº 2.861, Fernando de Sousa transcreve as seguites poesias da «Mensagem»: (na que se segue... corta-lhe o título!)
.«Vendem os Deuses o que dão
A glória compra-se a desgraça
Ai dos felizes, porque são
Só o que passa!
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Baste a quem basta o que lhe basta
O bastante de lhe bastar! A vida é breve, a alma é vasta:
Ter é tardar.
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Foi com desgraça e com vileza
Que Deus ao Christo definiu:
Assim o oppoz à Natureza
E Filho o ungiu».
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Antes de transcrever, Fernando de Sousa diz: «... a par de versos inspirados pelo sentimento patriótico, sob formas por vezes confusas, se encontram extravagâncias, como esta gongórica série de quadras». A seguir a elas, acrescenta: «... transcrição dos dislates blasfemos, porventura inconscientes, influência de teosofias».
Ao percorrer-se o folheto, assevera, «alterna o apreço de incontestáveis belezas com a estranheza de verdadeiras extravagâncias, que por vezes frizam a loucura, como esta quintilha:
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O mytho é o nada que é tudo.
O mesmo sol que abre os céus
É um mytho brilhante e mudo -
O corpo morto de Deus,
Vivo e desnudo». ..................... Nota do Alfobre: F. de Sousa só aqui fechou aspas, e 'cortou'
..................................................... Fernando Pessoa em duas quintilhas que a seguir publicaremos.
.Porém, afirma Fernando de Sousa «o nebuloso poeta [F. Pessoa] aparece-nos claro e incisivo na sua espontânea e ameaçadora polémica a favor da Maçonaria».
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- Terminada a "azia" daquele senhor, vou então publicar o que foi cortado:
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«Este, que aqui aportou,
Foi por não ser existindo.
Sem existir nos bastou.
Por não ter vindo foi vindo
E nos creou.
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Assim a lenda se escreve
A entrar na realidade,
E a fecundá-la decorre.
Em baixo, a vida, metade
De nada, morre».
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O presente post é uma pálida imagem do muito que há para explicar sobre segredos, arbitrariedades e outras atitudes que sempre emperraram o estudo sobre as alegadas Sociedades Secretas! E... secretas, pois durante o percurso dos séculos tiveram de viver na clandestinidade sujeitas às fogueiras e a toda a espécie de ameaça de extermínio! Há a ideia de que se escondiam, por motivos inconfessáveis e criminosos. Nesta velha Europa foi sempre assim: «o segredo era a alma - não do negócio - da segurança pessoal dos Maçons. Aliás,... outras correntes de natureza espiritual, eram desmanteladas logo na inauguração do primeiro ritual!
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Se atentarmos ao que se passa com a Maçonaria nos Estados Unidos da América, como nunca sofreu repressão, são constantes (e folclóricas até!) as celebrações dos ritos em público!
É sabido que George Washington (1732 - 1799) foi o primeiro Presidente dos E.U.A. e era Maçon. As cobiçadas notas de dólares, estão decoradas com simbolos maçónicos!
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Se perguntarem em certos meios exacerbadamente católicos que ideia têm da Maçonaria, não falha que «têm a certeza» de que o primeiro teste para a admissão à Ordem, passa por terem de entrar numa Igreja e darem um tiro no Cristo! Perante tais "certezas", sabendo-se que os Maçons são mais que muitos, quantas vezes já se ouviram manobras de tiro ao alvo, por essas igrejas pelo país fora!?
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Se Mr. Dan Brown tivesse querido fazer um trabalho mais apessoado, tinha muito por onde se informar na Literatura e História de Portugal, escusando-se do incómodo de ter de andar a fazer o pino, para ter inspiração.



2 comentários:

Anónimo disse...

foi um prazer ler seu texto.

Fernando Pessoa Poeta daqui e além mar.

kikas

Luisa Moreira disse...

César,

Tudo o que é secreto, é olhado com desconfiança, e se a igreja tem este comportamento, como refere, é porque se esquece do seu próprio comportamento.

Lembremo-nos da Opus Dei, ligada até há pouco, a alguma banca portuguesa.

Dan Brown, é um vendedor de banha da cobra, o pior é que tem milhões de seguidores.



Viva o Poeta e a obra que nos deixou.

Abraços
Luisa