[ Vox populi vox Dei ]

2009-11-24

O NEVOEIRO SEBASTIANISTA



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[«FERNANDO PESSOA, a POESIA, 'O NEVOEIRO' e D. SEBASTIÃO»]





NEVOEIRO
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Nem rei nem lei, nem paz nem guerra,
Define com perfil e ser
Este fulgor baço da terra
Que é Portugal a entristecer –
Brilho sem luz e sem arder,
Como o que o fogo - fátuo encerra.
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Ninguém sabe que coisa quer,
Ninguém conhece que alma tem,
Nem o que é mal nem o que é bem.
(Que ânsia distante perto chora?)
Tudo é incerto e derradeiro.
Tudo é disperso, nada é inteiro.
Ó Portugal, hoje és nevoeiro...
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É a hora!
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Valete, Frates

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«O poema aponta para um tom geral de disforia, de tristeza e melancolia, marcado por palavras e expressões de negatividade, caracterizando uma situação de crise a vários níveis: político “Nem rei nem lei, nem paz nem guerra” (repare-se na sucessão do advérbio de negação – nem); crise de identidade, também “este fulgor baço da terra/ que é Portugal a entristecer/ brilho sem luz e sem arder/ como o que o fogo-fátuo encerra” (note-se o vocabulário e imagística disfórica: fulgor baço – Portugal a entristecer – brilho sem luz e sem arder – novo oximoro reforçado pela proposição, marca de ausência, sem); crise de valores morais, da alma “Ninguém sabe que coisa quer,/ ninguém conhece que alma tem,/ nem o que é mal, nem o que é bem” (de novo as palavras que marcam a negação – os pronomes indefinidos ninguém, o advérbio nem).
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A situação é, em síntese, de incerteza, de indefinição: “Tudo é incerto e derradeiro./ Tudo é disperso, nada é inteiro./ Ó Portugal, hoje és nevoeiro...”. Mas porque – e isto é afirmado no verso central da 2ª estrofe em discurso parentético – algo ficou, consubstanciado na “ânsia distante” que “perto chora” -, e justamente porque Portugal hoje é nevoeiro, “É (também) a Hora!” (teremos que ter em conta que, segundo a lenda sebastianista, o Rei redentor regressaria numa manhã de nevoeiro).
A Hora, maiusculada, mas de quê? Pessoa não o diz, mas todo o livro o significa: a Hora de partir, de novamente conquistarmos a “Distância/ do mar ou outra, mas que seja nossa!” (...), de assumirmos o sonho, cumprindo o nosso destino de sagrados por Deus e portadores do seu gládio, do seu sinal – assim a Obra nascerá de novo, como em Mar Português – e poderemos “viver a verdade/ que morreu D. Sebastião”.
.[Assim sendo, temos que ler Mensagem justamente como a epopeia da era que há-de vir, a do sonho feito realização, a da loucura, divina, porque assumida conscientemente, e interrompida, de D. Sebastião, de D. Fernando, do Infante e dos outros heróis expectantes evocados por Pessoa.»
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A epígrafe final “Valete, Frates” (Adeus, Irmãos) era usual como símbolo de fraternidade em organizações esotéricas; ao usá-la, Pessoa remete-nos para o carácter esotérico/ místico da obra.




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[ PAZ PROFUNDA,... digo eu :. Frater Rosae Crucis ]

11 comentários:

Maga disse...

Realmente César, você mistura-nos!
Qual palavras cruzadas... é sim sopa de letras, valha-nos Deus!
E já reparou que o meu nome alegra e dá frescura a todas as minhas fotos? Mas olhe que a culpa não foi minha... é que pelo menos, quando mas roubarem para outro qualquer blog (o que, claro, já aconteceu) vão ter que levar o meu nome ãs costas (ou no céu).
E pelos vistos é da minha opinião:
a foto da Luisa está optima, tão boa, que lhe valeu a lembrança dum belo poema! Só é pena o "Desejado"
não visitar blogs...
Um abraço da
Maga
P.S.-Nós não nos aborrecemos com a
sopa de letras...

José disse...

Olá amigo César,
Estou de volta,o pior já passou,
apesar do médico ter dito que as coisas não estavam muito bem comigo, e não estavam, os exames deram negativo, o que me deixa bastanto animado.
Não sei se encontre palavras para agradecer o seu comentário e o que escreveu sobre mim, apenas digo muito obrigado.
Quanto ao seu post eu nem me atrevo
a comentar, você lida tão bem com as palavras. é como a Maga diz.

um abraço de grande amizado José

Luisa Moreira disse...

César,

(...) vida e morte de um mundo...

É, ao que estamos a assistir, com guerras, e com esperanças de um novo sebastianismo.

“É (também) a Hora!”

É a Hora de desbravar, novos caminhos, aqui ou Além Mar. Preferia desbravá-los aqui, mas não rejeito, o Além-Mar.

Como é actual, a poesia de Fernando Pessoa.


Abraços
Luisa

César Ramos disse...

Luísa,

Obrigado pela participação.
Não é por acaso que Fernando Pessoa se confunde com Portugal. Sempre fomos (os portugueses) cidadãos do Mundo!...não há portanto que rejeitar o «Além-Mar»!
alíás, há quem não tenha já outra escolha: serão provavelmente os novos 'retornados' de Angola, e de outras paragens...!

É a sina nómada dos portugueses: viagens de circum-navegação!

Abraços
César

César Ramos disse...

Viva amigo José!

Aguardava HOJE(Dia 25), notícias suas de qualquer jeito! Tinha lançado o meu email pelo Algarve para me darem notícias suas! Ainda bem que é o senhor a dar sinal de si!
Folgo em saber tudo o que me diz!
Deixo-lhe aqui um abraço, e despeço-me até daqui a pouco, pois vou ao seu blog falar consigo...

Um grande abraço de regresso!

César Ramos

Júnia L. disse...

Querido,

obriga pela visita no Vintage, sinta-se a vontade no meu pequeno espaço.

Abraços

Desmanche de Celebridades disse...

Muito bom!
Um blog que posta e discute poesias de autores imortais.
Cara, isso precisa ser divulgado.
Que ideia util e original.
Tu és um grande critico da poesia.

Seguindo.

Abraços.

Palma disse...

Não sei se o Cesar conhece mas este poema do Pessoa também é cantado magnificamente pela Amélia Muge. Utilizámo-lo aqui no Grupo de Teatro da Casa da Cultura na representação da Mensagem do Fernando Pessoa. Vale a pena ouvi-lo já que por aqui se pode lê-lo. Não admira que este homem seja estudado agora em muitas Universidades do Mundo. Um bom fim de semana que já se aproxima. Palma - Louletania

Canduxa disse...

Boa noite,

Parabéns pela critica que aqui fez ao poema de Fernando Pessoa.
Gostei imenso…e concordo quando fala que ao lermos Mensagem estamos a ler a epopeia da era que há-de vir.
Mensagem é um livro que me acompanha, encerra algo místico e divino que me atrai.
Achei muito interessante o seu cantinho …virei mais vezes.

Muita paz

Pedro Luso de Carvalho disse...

Caro César,

A poesia de Fernando Pessoa será sempre uma especial referência dessa nobre arte para a literatura Universal. Portanto, não apenas para Portugal ou para os países de língua portuguesa.

Um abraço,
Pedro.

Anónimo disse...

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