[ Vox populi vox Dei ]

2009-11-19

MARIA JUDITE DE CARVALHO







.[MARIA JUDITE DE CARVALHO (1921-1998) - foi alvo de um colóquio em Paris (de 4 a 6 de Novembro p.p.), assinalando os 50 anos da publicação de «Tanta gente, Mariana», numa "Revisitação da obra".]
.Tendo nascido em Lisboa (os pais viviam na Bélgica), desde os três meses de idade foi criada e educada por tias paternas, num meio austero e de extrema contenção. Aos quatro anos morreu-lhe uma das tias, aos oito a mãe, que mal conheceu, e pouco depois o meio irmão, pelo lado materno. Com dez anos, foi a vez de uma outra tia e, com quinze anos, o pai, que continuara a viver na Bélgica, foi dado como desaparecido.
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Entrara no Colégio Feminino Francês tinha catorze anos e, tendo concluído o secundário no Liceu Maria Amália, matriculou-se em Filologia Germânica. Durante este tempo, fez duas amizades duradoiras, com Natália Nunes e Fernanda Botelho. Em 1944, conheceu Urbano Tavares Rodrigues, com quem casou em 1949. O casal seguiu de imediato para Montpellier, em França, onde Urbano fora colocado como leitor de Português. Aqui viveu três anos, e outros tantos em Paris. Entretanto, veio a Lisboa, em 1950, ter a sua única filha, que deixou ao cuidado dos avós paternos.
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Quando regressou a Portugal, foi trabalhar para a revista Eva, primeiro enquanto secretária, depois como redactora e chefe de redacção. Esta revista publicara-lhe já, em 1949, o seu primeiro conto e, desde 1953, as «Crónicas de Paris», tendo continuado a colaborar nela até 1974, altura em que a revista faliu. Foi em 1968 que ingressou no Diário de Lisboa, com as funções de redactora, continuando a publicar as suas crónicas até à idade da reforma, em 1986. Em simultâneo, e a partir de 1978, O Jornal recebeu também a cooperação da escritora, sempre sob a forma de crónicas, que seriam reunidas no volume Este Tempo, de 1991, galardoado com o Prémio da Crónica A. P. E.
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Cardoso Pires, que foi director-adjunto do Diário de Lisboa, recordou-a, entre 1975-76, nestes termos: «... não participava em nada... Sentava-se ali como quem ia à repartição... Não conheci uma única pessoa com quem se desse. Só uma vez a vi alegre.» Arrastava um ar tristíssimo, como de exilada, que Natália Nunes, no entanto, explicou: «Havia nela uma exuberância vital mas completamente recalcada», e a sua austeridade quase monacal impedia-a de falar de si, manifestando uma enorme dificuldade em lidar com a vida. Quanto ao próprio Urbano, este adiantou: «Vivia como espectadora, sempre céptica e desencantada... Uma dor funda sempre a acompanhou, tendo atingido os limites do sofrimento, nos últimos anos da sua vida, devido à deformação física ocasionada pela doença.»
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Será impossível não relacionarmos todas estas informações com o mundo ficcional que a escritora nos deixou: os conteúdos das suas histórias, as características das suas personagens e os específicos objectos evocados, pois quase podemos adivinhar as sucessivas etapas que transpôs e seus particulares estados de espírito, sobretudo a nível das atitudes afectivas que exterioriza perante a deterioração que detecta nas relações humanas e a que os recursos técnicos narrativos, de que se socorre, não podem ser alheios. A descrição do presente – momento disfórico do processo da escrita – servirá, normalmente, como charneira que lhe permite ir ao encontro do passado, daqueles pedaços vividos que se reportam quase exclusivamente a três períodos: o da infância, o dos seus catorze anos e o dos dezoito aos vinte anos. Serão essas memórias que lhe facultarão a expansão da sua anterioridade-interioridade, espécie fictícia de reviver ou recompor uma mais-valia: o que subsiste da sua morada de então.
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Crónicas ou narrativas, os textos de Maria Judite de Carvalho discorrem fundamentalmente sobre casos humanos de solidão – predominantemente femininos – e sobre o desajustamento existencial que lhes é inerente no quadro do quotidiano social e num registo sentidamente amargo, ainda quando temperado pela ironia ou pela mordacidade. Foi nítida a apropriação final dos processos narrativos próprios do Novo-Romance, talvez necessariamente os mais adequados à expressão do estado de espírito geral da época, do ponto de vista político-social e, portanto, da própria autora. A sua expressão, todavia, parece continuar a reflectir-lhe o estado psíquico, ao escolher, agora, uma forma próxima da escrita do olhar – este bem diferente do modelo francês – com o natural discurso distendido, imageticamente rico, e a utilização de modalizadores tais como «na verdade», «de facto» e do «talvez», tão apropriados a um discorrer contemplativo, poético e distante, mas tão próximo das coisas, que só muito poucos souberam concretizar.
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Se grande parte da sua obra foi produzida em tempos de ditadura, revelando um espaço disfórico pontuado pela angústia e pela falta de perspectivas, a verdade é que, mesmo depois de Abril de 1974, a sua escrita nunca deixou de esmiuçar com lucidez e ironia o que de mais profundo se esconde na alma de personagens desencantadas, quase sempre mulheres da pequena burguesia humana, confrontadas com a solidão, a melancolia, a incomunicabilidade, o abandono, a perda, a morte, em suma com realidade inalterável da condição humana.
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Durante três dias , e na presença de familiares de JUDITE, dezenas de intelectuais debruçaram-se sobre o universo da sua obra literária. Um dos pontos altos do colóquio foi constituído pela leitura de textos de Maria Judite de Carvalho, numa encenação de Anne Petit, acompanhada à guitarra por Daniel Romero, com uma criação musical de Ramon Herrera.
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Os participantes deixaram expresso o desejo de verem reeditados os livros da autora que se encontram esgotados e indisponíveis [é assim tratada a Literatura Portuguesa!!], para proporcionar-se a comunhão com o estilo da autora, escrita tipificadamente «juditiana»! (...) Dignemo-nos recordar que, ainda em 1998, foi galardoada com o Prémio Vergílio Ferreira, da Universidade de Évora.
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Os organizadores do Colóquio de Paris (...) teve de ser lá fora! em Portugal o tempo faz falta para outras coisas que lá terão o seu sentido subjectivo como publicações sensacionalistas de livrecos de escandaleiras e outras vulgaridades pseudo-político sociais (...), vão-se concentrar para em breve partilharem com um público mais alargado [contrariando o silêncio injustificado], a riqueza da obra fascinante de Maria Judite de Carvalho.
.Bibliografia Activa
Tanta gente, Mariana (contos), 1955 ; 1991
As palavras poupadas (contos), 1961 ; 1988
Paisagem sem barcos (contos), 1963 ; 1990
Os armários vazios (romance), 1966 ; 1993
O seu amor por Etel (contos), 1967
Flores ao telefone (contos), 1968
Os idólatras (contos), 1969
Tempo de mercês (romance), 1973
A janela fingida (contos), 1975
Mulher, 1976
O homem no arame : textos publicados no Diário de Lisboa entre 1970 e 1975, 1979
Além do quadro (contos), 1983
Este tempo (crónicas), 1991
Seta despedida (ficção), 1995 ; 1996
A flor que havia na água parada (poesia), 1998
Havemos de rir? (teatro), 1998 ; 2002
Diários de Emília Bravo (crónicas), 2002
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Referências de: Jornal de Letras, e blog JL de que o autor do Alfobre é seguidor.
Fotos obtidas de: Internet
Foto de homem: O marido, o escritor URBANO TAVARES RODRIGUES.

2 comentários:

Luisa Moreira disse...

Nada, dada a mundanismos, quem não aparece é esquecida, contudo foi distinguida com vários Prémios Literários, mas o público nunca a reconheceu, devidamente. Tudo isto, e a sua infância longe dos pais, fizeram dela uma mulher amarga, mas uma escritora maior.

Obrigada César, por nos ajudar a conhecer melhor, Maria Judite Carvalho

Abraço
Luisa

gin-tonic disse...

"Todos estamos sózinhos, Mariana. Sozinhos e muita gente à nossa volta. Tanta gente Mariana. E ninguém vai fazer nada por nós."
Maria Judite Carvalho em "Tanta Gente Mariana"
Assim como quem diz, tão simplesmente, que já não há rua para nos encontramos, mas há gente por todo o lado... aglomerada... e a solidão que não pára de crecer...