[ Vox populi vox Dei ]

2009-11-09

A GÉNESE dos VIVOS de ONTEM

«HÁ QUEM VEJA NO HOMEM UM DEUS MUITO ANTIGO, UM VISITANTE DE UMA TERRA OU DIMENSÃO MÍSTICA, QUE CHEGOU, DEU A SUA AJUDA, E DEPOIS REGRESSOU AO IGNOTO»






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Athaman Nahone, o grande caçador, dilatou a narinas, aspirando o fumo acre que invadia os campos. Um grande resplendor alaranjado iluminava o Céu. Nahone sentiu vontade de abrir uma cova no chão e esconder-se dentro dela. O terror paralizava-o de tal forma que até se esqueceu de Sinhe, a companheira, e de Nops, o filho por quem se atrevera a fazer tão grande caminhada, em busca de caça. Então, a onda de calor chocou contra ele... e Nahone sentiu, na pele rija como a de um mamute, milhares de picadas dolorosas.
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Depois, a onda passou e no céu, estranhamente límpido, espessos rolos de fumo negro alargavam-se vagarosamente como uma floresta de cogumelos.
O sopro quente do incêndio passara por Athaman Nahone sem o molestar, mas em volta as raízes tinham ficado calcinadas, as pedras fumegavam e as árvores sem folhas eram uma imagem do terror. Na sua frente, o deserto brilhava com estranhas radiações violetas e os cogumelos de fumo cresceram, alargando-se mais...
Nahone sentia os olhos vermelhos e a barba crestada, mas nenhuma área da sua pele sofria queimaduras, nenhum músculo perdera a flexibilidade, o vigor dos saltos quando perseguia a caça.
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Agarrado à lança de ponta de silex aguçada, trotou com passo ágil em direcção à cidade, lá longe, na orla do grande deserto desconhecido, disposto a descobrir o que acontecera aos seus habitantes. A sua existência tropeçava em anacronismos não conseguindo compreender a sua vida, assente nas condições mais básicas de sobrevivência e abrigo, e as muralhas daquelas construções sólidas sem correspondência com a sua natureza tão primitiva. Algo lhe dizia que aquilo era distante dos seus tempos, mas não conseguia entender fosse o que fosse! Assim, a curiosidade levava-o à vista das muralhas, tendo um grande clarão vermelho como o Sol cegado a vista e o medo subiu-lhe pela espinha até à nuca eriçada de pelos rijos como cerdas.
.A cidade que antigamente se erguia ali, coroada de cúpulas altíssimas, reluzentes como estrelas, estava agora reduzida a cinzas. Só as muralhs se mantinham de pé. Nem mesmo o deus dos raios e dos trovões , que fulminava as árvores e os animais, desfazia as rochas e abalava as montanhas com a sua grande mão luminosa, podia ser o causador daquela terrível devastação. Athaman Nahone ouvia o som do vento e da morte entre as ruínas, mas um desejo obscuro, oriundo das profundezas do seu ser primitivo, vibrava-lhe nos músculos tensos. E, vencendo o medo, penetrou na cidade através de uma fenda nas muralhas.
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Durante mais de uma hora, percorreu as ruas da cidade devastada pelas chamas. Não havia vestígios dos seus habitantes como todos se tivessem evaporado como gotas de chuva canícula.
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O rude caçador caminhava entre os edifícios lambidos pelas chamas que espalhavam em seu redor um halo chamejante, uma cabeleira de sombras e clarões vermelhos, projectando fantasticamente o vulto de Nahone nas paredes em ruínas. E, de súbito, descobriu uma ala ainda intacta, cheia de objectos espalhados, de pilhas de livros que ardiam com um ruído de capim seco.
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Athaman Nahone nunca tinha visto um livro! Era um objecto novo para ele, tão estranho como tudo o que vira até então na cidade destruída. Agarrou um grosso volume, com os dedos fortes e recurvos como garras. Numa interrogação sem fundo, olhou longamente os estranhos sinais que manchavam o papel branco. Depois, voltou-se e saíu.
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Foi então que avistou uma figura de forma humana que se aproximava, nua e magnífica, caminhando entre as ruínas . Em volta dela, havia uma chuva de faúlhas e de pétalas negras, e o fogo rugia sem fazer mal àquela criatura de que não se percebia o sexo!
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Numa voz de timbre ecoante e sonoramente bela disse " Vai e guarda o Livro que salvaste do fogo! Volta às cavernas onde vives com o teu povo, os homens que ainda caminham na escuridão!
De ti nascerá uma nova Aurora ... que unirá na aliança da fraternidade todas as nações da Terra e fará novamente brotar a vida das ruínas desta cidade morta! ... leva o testemunho que tens na mão!... com ele chegarás ao novo futuro para substituir o presente que aqui já não existe... aqui tudo acabou desfeito em civilização degradada pelo lucro,... corrupção,... pela ganância e pela perversão de costumes!... irás saber que aqui ocorreu de novo a purificação da segunda Sodoma
e Gomorra (...) vai ser a ti , e aos teus descendentes, que vai competir a reposição do futuro (...)!
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Assustado, Nahone sumiu na maior correria que o seu atlético corpo de homem primitivo permitiu. Já na planície, ao lançar um último olhar às muralhas derrocadas da cidade, recordou-se de Sinhe, a companheira, e um obscuro remorso espicaçou-o. Tinha esquecido a tarefa de que dependia a frágil vida dos seus. Na escura caverna, Nops devia certamente chorar nos braços de Sinhe! E Nahone sentiu-se dominar pela revolta e o ódio contra acidade. Um ódio ancestral cuja origem se perdia na noite dos tempos. E, esquecido do apelo irresistível que o levara a atravessar tantas vezes o deserto desconhecido e a espreitar de longe os homens que viviam na cidade das cúpulas brilhantes, Nahone brandiu o punho em ameaça diante das ruínas coroadas pelo fumo vermelho.
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Athama Nahone não corria, galopava como os auroques (bisontes) de pelo comprido, pela planície deserta, sob uma chuva de estrelas. Queria mostrar o livro a Canjinho Torg, o Eremita, e deslumbrá-lo com essa nova magia mais forte do que a dele. Nem mesmo Canjinho, apesar de todo o seu saber, conhecia a existência da cidade. O livro era a prova de que Nahone não mentia, de que Athama era o homem mais forte e mais valente da tribo. Um traço brilhante cruzou o Céu. Athama Nahone reconheceu o luminoso mensageiro das estrelas e soltou um grunhido de alegria. Era um bom augúrio!
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Uma vez chegado à caverna ouviu a pergunta de Sinhe " Porque não trazes caça, nem andaste à procura de madeira das árvores? Que aconteceu a Nahone, tão bom caçador? Porque se esqueceu dos seus ? Porquê? " - e continuou: " Nops tem muito frio. Pode morrer!... salva-o, Nahone. "
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A criança gemia. Ninguém visitara Signe há três noites, ninguém lhe dera lenha para o grande fogo. Então, o caçador baixou a cabeça, vencido sentindo uma dor aguda substituir a alegria do regresso. Ele também não podia acender o grande fogo. Nops ia morrer.
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Sim, Athaman estivera na cidade das cúpulas brilhantes e voltava de mãos vazias. De súbito, lembrou-se do livro... tinha visto muitos outros arder, naquele edifício lambido pelas chamas, e um vivo clarão de alegria iluminou-lhe os olhos, parecendo romper o próprio negrume da caverna.
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Que importava que Canjinho Torg, na manhã seguinte se risse dele? Havia de lhe descrever o que vira na cidade destruída pelo fogo. E Torg teria vergonha do seu saber insignificante. Fora mais longe do que qualquer outro homem da tribo. Mas que valia essa proeza comparada com a vida de seu filho?
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Sentia um grande riso, claro e vibrante nascer-lhe nas entranhas, à medida que as sombras dançavam nas paredes da caverna e os olhos de Nops se iluminavam com o reflexo das chamas. Agora era Sinhe quem arrancava as folhas, uma a uma, e o seu riso parecia crescer como o clarão do fogo, repelindo as trevas e o frio ...
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Athaman Nahone salvara o livro... e este salvara Nops,... mantendo-se a promessa de uma nova Aurora.


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