[ Vox populi vox Dei ]

2009-11-15

GARRAFAS AO MAR C/ MENSAGENS DENTRO


. É uma atracção a ideia de lançar garrafas ao mar com mensagens lá dentro! Coisa solitária de esperar que alguém as ache, e ao abrir, sinta junto, o aroma do papel, o cheiro de uma bebida que ocupava antes, o lugar que as palavras de texto na mensagem ocupam agora.
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Talvez atirar uma garrafa mensageira ao mar tenha mesmo uma intenção contrária: a intenção de que o encontro entre o leitor e ela, nunca aconteça. É o mesmo que oferecer uma carta aos anjos,... além dos peixes, e... ninguém mais!
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Compagina-se com a blogosfera pois, postar em blogues é como lançar garrafas com textos a navegar errantemente no mar da oceânica Web, qual apelo de náufrago que escreveu um bilhete e o lança num "post" de vidro, na esperança de alguém o encontrar... e o resgate...!
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Deixando-nos por momentos de metáforas, vamos ao encontro dos longínquos tempos do filósofo grego Théofrasto - que viveu de 372 a 287 A.C. - a primeira pessoa que teve a ideia de lançar uma garrafa ao mar para estudar os movimentos das correntes. A ideia pegou e, nestes vinte e dois séculos decorridos, muitos milhares, se não milhões de garrafas, têm sido atiradas às águas de todos os oceanos, não só para observar-lhes as caminhadas, mas também para levar mensagens a conhecidos ou desconhecidos: são adeuses de marinheiros que se consideram perdidos, apelos angustiosos de náufragos na esperança de um socorro oportuno, cartas curiosas, por vezes com disposições testamentárias, e até exortações de pregadores (...)
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O primeiro objectivo deste processo continua a ser demandado por numerosas pessoas, mais ainda: pelas sociedades hidrográficas de todos os países. É claro que o achado de uma garrafa em determinado local com a indicação do ponto onde foi lançada à água, não permite estabelecer forçosamente a marcha que ela seguiu e, por consequência, o movimento das correntes. Mas esses e outros achados semelhantes continuam a ser, ao cabo de dois mil anos e de tantas descobertas assombrosas, os melhores elementos de que dispõem os homens, para conhecerem as correntes marítimas superficiais.
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O Clube Internacional das Garrafas Atiradas ao Mar, que tem a sua Sede no Mónaco, centraliza as informações que lhe chegam de todos os continentes, distribuindo-as depois aos interessados. Sabe-se assim, por exemplo, que, nos últimos anos, foram recolhidas nas costas da França 55 garrafas lançadas pela Marinha americana, sendo 41 encontradas ao sul do Loire.
Devem ter percorrido qualquer coisa como 2 mil a 4 mil quilómetros num tempo que vai de 100 a 1100 dias!
A velocidade média que lhes foi atribuída é de 10 quilómetros por dia, embora algumas tenham chegado aos 150 quilómetros diários ( ... )
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Quanto tempo fica uma garrafa destas dentro de água? Sabe-se lá! Parece que o recorde actual pertence a uma que foi encontrada em 1949 ao largo de Mourmansk por um pescador russo. Trazia um pedido de socorro, datado de 1902 - 47 anos antes! - e subscrito pelo explorador Evelyn Baldwin que se encontrava então em vários apuros nas regiões árcticas.
Baldwin morreu tranquilamente em Nova Iorque, dezasseis anos antes de ter sido descoberto o seu S.O.S.,... e tendo perdido por completo, a confiança neste género de mensagens!
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E as voltas e reviravoltas que as garrafas dão por vezes ?! No ano passado, numa praia britânica, foi encontrada uma que em 1936 fora lançada à água por um neozelandês de Auckland. Para realizar tão assombrosa viagem, teve de derivar através de parte do Pacífico, depois em direcção ao litoral sul-africano, para subir para noroeste e ser apanhada pela corrente do Golfo que a arrastaria para o litoral britânico!
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Entre os milhares de casos curiosos ocorridos com garrafas achadas no mar, queremos salientar a descoberta de uma nos arredores de S.Francisco, em 1949. O rapaz que a encontrou, um criado de restaurante chamado Wurm, descobriu dentro dela um papel que dizia : «Lego a minha fortuna ao felizardo que encontrar esta garrafa, e ao meu advogado Barry Cohen, em partes iguais». A mensagem datada de 1937 , era assinada por Daisy Alexander. Ao cabo de muitas investigações, Wurm veio a saber que em 1940 falecera a srª. Alexander, filha do magnata das máquinas de costura , Isaac Singer.
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A fortuna da falecida elevava-se a 120 milhões de dólares. Wurm conseguiu descobrir o outro herdeiro, o advogado Cohen. Apresentaram ambos a reclamação à herança. A justiça britânica retomou o rumo da garrafa errante, pois nunca mais decidiu nada àcerca do espantoso testamento que andou a navegar pelo mundo, ao sabor das ondas e das correntes marítimas (...)
com ponto de partida no Tamisa, numa extraordinária viagem, depois de atravessar o Pacífico, até chegar a uma praia da Califórnia!
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Num próximo passeio ao longo de uma praia ou outro tipo de orla marítima, numa eventual «campanha pesqueira», tomai atenção a qualquer garrafa flutuante pois, quem sabe, se não descobrirá a garrafa que, segundo os livros de bordo, foi lançada ao mar por Cristovão Colombo, em 1499, num dia de tempestade, a ocidente das Índias ocidentais?! Se alguém a encontrar, pode ter a certeza de que valerá mais, do que qualquer euromilhões !! (...)
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Falando de navegantes e em navegação,... a blogosfera é um imenso oceano de garrafas circulantes que procuram e encontram leitores; um único que seja,... ainda que ocasional,... é suficiente para dar sentido a um blogue e aos seus posts!
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Não se definiram ainda nomes românticos a atribuir a estes espaços oceânicos ou galácticos pois, entretanto basta-nos os horizontes parecidos com os mares antigos nunca dantes navegados com os seus medos - os vírus e outros monstros cibernautas -, os adamastorzinhos e outros terrores que, vão tentando secularizar
a nossa querida deusa
Internet! (...)


1 comentário:

Luisa Moreira disse...

César,
Deve ser uma sensação enorme, encontrar uma garrafa com mensagem dentro. Gosto de passear à beira-mar, mas o que me tem aparecido são garrafas de plástico, e vazias. Poluição. Isto também se encontra na Web, mais do que desejaria, tenho tido as minhas decepções, mas vou navegando à vista.

Abraço
Luisa