[ Vox populi vox Dei ]

2009-11-07

ALBERT CAMUS - Efeméride - 07/11/1913 - 1960





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.ALBERT CAMUS nasceu a 7 de Novembro de 1913 na Argélia. Conhecido autor da obra «O Estrangeiro» publicada em 1942, escreveu no mesmo tempo o livro «Le Mythe de Sisyphe»; porém, revê-se muito mais a chave do seu pensamento, através da obra «La Peste»: editada em 1947 .
(PRÉMIO NOBEL da LITERATURA em 1957)
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[Um grande escritor sempre traz consigo o seu mundo e a sua prédica ]


POST DE DIVULGAÇÃO E ESTUDO DA OBRA DO ESCRITOR E FILÓSOFO ARGELINO ALBERT CAMUS (...) Deleitemo-nos com estes pensamentos de Albert Camus! Pensamentos soltos... como folhas deste Outono, caídas pelos jardins da ignorância, do desdém e indiferença com que esta humanidade vai malbaratando a Cultura Universal:

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« Você sabe o que é o encanto? é ouvir um sim como resposta sem ter perguntado nada »
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« Os tristes têm duas razões para o ser: ignoram ou esperam »" A verdadeira generosidade em relação ao futuro consiste em dar tudo no presente ".
." Eu amo a vida, eis a minha verdadeira fraqueza. Amo-a tanto, que não tenho nenhuma imaginação para o que não for vida "
“Um destino não é uma punição.”
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“Não há destino que não se transcenda pelo desprezo.”
.“Há gente que é feita para viver e gente que é feita para amar.”
. "Na luz, o mundo continua a ser nosso primeiro e último amor."
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- " Nasce então a estranha alegria que nos ajuda a viver e a morrer e que, de agora em diante, não a recusamos adiar para mais tarde. Na terra dolorosa, ela é o joio inesgotável, o amargo alimento, o vento forte que vem dos mares, a antiga e a nova aurora. "
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«Não há amor generoso, senão aquele que se sabe ao mesmo tempo passageiro e singular»
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A característica do homem absurdo é não acreditar no sentido profundo das coisas. Ele percorre, armazena e queima os rostos calorosos ou maravilhados. O tempo caminha com ele. O homem absurdo é aquele que não se separa do tempo.
Mas só há um mundo. A felicidade e o absurdo são dois filhos da mesma terra. São inseparáveis. O erro seria dizer que a felicidade nasce forçosamente da descoberta absurda. Acontece também que o sentimento do absurdo nasça da felicidade. "Acho que tudo está bem", diz Édipo e, essa frase é sagrada. Ressoa no universo altivo e limitado do homem. Ensina que nem tudo está perdido, que nem tudo foi esgotado. Expulsa deste mundo um deus que nele entrara com a insatisfação e o gosto das dores Inúteis!
Faz do destino uma quetão do homem, que deve ser tratado entre homens. Toda a alegria silenciosa de Sísifo aqui reside. O seu destino pertence-lhe.
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(Le Mythe de Sisyphe)
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Caminhamos ao encontro do amor e do desejo. Não buscamos lições, nem a amarga filosofia que se exige da grandeza. Além do sol, dos beijos e dos perfumes selvagens, tudo o mais nos parece fútil. Quando a mim, não procuro estar sozinho nesse lugar. Muitas vezes estive aqui com aqueles que amava, e discernia em seus traços o claro sorriso que neles tomava a face do amor. Deixo a outros a ordem e a medida. Domina-me por completo a grande libertinagem da natureza e do mar.
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Nunca conseguira arrepender-me verdadeiramente de nada. Assaltaram-me as lembranças de uma vida que já não me pertencia, mas onde encontrara as mais pobres e as mais tenazes das minhas alegrias: cheiros de verão, o bairro que eu amava, um certo céu de entardecer, o riso e os vestidos de Marie.
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Respondi que nunca se muda de vida; que, em todo caso, todas se equivaliam, e que a minha, aqui, não me desagradava em absoluto.
— Não, não consigo acreditar. Tenho certeza de que já lhe ocorreu desejar uma outra vida.
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Respondi-lhe que naturalmente, mas que isso era tão importante quanto desejar ser rico, nadar muito depressa ou ter uma boca mais bem feita. Era da mesma ordem. Mas ele me deteve e quis saber como eu imaginava essa outra vida. Então gritei:
— Uma vida na qual me pudesse lembrar desta vida.
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Também eu me sinto pronto a reviver tudo. Como se esta grande cólera me tivesse purificado do mal, esvaziado de esperança, diante desta noite carregada de sinais e de estrelas, eu me abria pela primeira vez à tenra indiferença do mundo. Por senti-lo tão parecido comigo, tão fraternal, enfim, senti que fora feliz e que ainda o era.
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Igualmente enfermo, cúmplice e ruidoso, acaso não lancei meus gritos por entre as pedras? Também eu esforço-me por esquecer, caminho através de nossas cidades de ferro e fogo, sorrio corajosamente à tristeza, chamo ao longe as tempestades, serei fiel. Em verdade esqueci: sou ativo e surdo a partir desse momento. Mas um dia talvez, quando estivermos prestes a morrer de esgotarem e ignorância, eu possa renunciar aos nossos túmulos espalhafatosos para ir deitar-me no vale sob a mesma luz, e possa aprender pela última vez aquilo que sei. (Regresso a Tipasa)
(Regresso a Tipasa )
.Só há um problema filosófico verdadeiramente sério: o suicídio. Julgar se a vida merece ou não ser vivida é responder uma questão fundamental da filosofia. O resto, se o mundo tem três dimensões, se o espírito tem nove ou doze categorias, vem depois. Trata-se de jogos; é preciso primeiro responder. E se é verdade, como quer Nietzsche, que um filósofo, para ser estimado, deve pregar com o seu exemplo, percebe-se a importância dessa reposta, porque ela vai anteceder o gesto definitivo. São evidências sensíveis ao coração, mas é preciso ir mais fundo até torná-las claras para o espírito. Se eu me pergunto por que julgo que tal questão é mais premente que tal outra, respondo que é pelas acções a que ela se compromete. Nunca vi ninguém morrer por causa do argumento ontológico. Galileu, que sustentava uma verdade científica importante, abjurou dela com a maior tranquilidade assim que viu sua vida em perigo. Em certo sentido, fez bem. Essa verdade não valia o risco da fogueira. Qual deles, a Terra ou o Sol gira em redor do outro, é-nos profundamente indiferente.
( O Mito de Sísifo )
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Quando nos vestimos na praia, Marie olhava-me com olhos brilhantes. Beijei-a. A partir desse momento, não falamos mais. Apertei-a contra mim e tivemos pressa de encontrar um autocarro, de voltar, de ir para a minha casa e de nos atirarmos na minha cama. Tinha deixado a janela aberta, e era bom sentir a noite de Verão escorrer pelos nossos corpos bronzeados.
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(O Estrangeiro)
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Falámos na obra marcante «A PESTE»!... não vamos embora, esquecendo as nossas afirmações:
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- Um traço marcante da obra de Camus é a intemporalidade, a abordagem filosófica em torno de questões relativas à natureza humana, presentes em qualquer época. Daí o êxito constante de livros como «O Estrangeiro», «A Queda» e «A Peste». Este último relata a impressionante história de uma cidade fechada sobre si mesma, em luta contra uma epidemia mortal.
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O cenário é Oran, num ano indefinido da década de 40. A cidade é infestada de ratos contaminados pela peste bubónica, e os habitantes assistem, incrédulos, à disseminação do mal. Recusam-se a aceitar a verdade, afirmando que aquela era uma doença do século anterior e completamente erradicada no Ocidente. Enquanto até mesmo as autoridades tentavam desenvencilhar-se das evidências , a peste inflitrava-se e iniciava a sua inexorável matança.
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Em linguagem clara e objectiva, através de personagens ricos e de diálogos repletos de reflexão filosófica, Camus constrói a sua trama à semelhança de um mosaico: à primeira vista, desenha-se uma situação definida, mas por trás, estão o homem e os infinitos meandros da sua natureza.
.Navegando através da leitura da obra revela-se o humanismo, espírito de observação e pensamento de Albert Camus, nas vozes de personagens como o padre Paneloux, reciclado mas persistente de que todos os males terrenos são 'castigos' divinos, o mais ou menos agnóstico Jean Tarrou, o velho Rieux ou o jornalista Rambert.
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Citando algo escrito na pedra,
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« Não quero ser um génio... Já tenho problemas suficientes ao tentar ser um homem.»!
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(...) terminamos assim a evocação:
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«NÃO CAMINHE ATRÁS DE MIM; EU POSSO NÃO LIDERAR. NÃO CAMINHE NA MINHA FRENTE; EU POSSO NÃO SEGUIR. SIMPLESMENTE CAMINHE A MEU LADO E SEJA MEU AMIGO.»
.FONTES:
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- Para a realização deste post baseámo-nos na consulta do livro 'Destins du Roman' [nº50 de Nov./1965] da Colecção "Recherches Internationales"- 'À la Lumière du Marchisme', donde recolhemos textos, e traduzimos.
- Fotos da Internet.
- Informações obtidas através de Jean Daniel na sua obra "Com Camus, como aprender a resistir".
- O próprio blog do autor (ALFOBRE) que, em 20 de Setembro p.p. publicou o post intitulado «MARÉS DO DESENCONTRO».
- Agradece-se ao Diário de Notícias [jornal de hoje] a lembrança da Efeméride!
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Foi sepultado o seu corpo em Janeiro do ano de 1960
depois de um estúpido acidente de automóvel!
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Foi sepultado...,
mas não morreu!








4 comentários:

Anónimo disse...

Смелый текст на КАМЮС! Поздравляем с этого вечного содержания.

Kaldoverdosky

Luisa Moreira disse...

César,
Este é um pedaço do seu post, e copiei-o para lhe dizer, que hoje não há uma cidade infestada pela bubónica, mas o mundo, pareço-lhe radical? então repare, no egoísmo, na indiferença, na falta de amor, no materialismo, isto não será pior que a bubónica? há quem ande a morrer aos poucos sem que os outros o vejam.

O cenário é Oran, num ano indefinido da década de 40. A cidade é infestada de ratos contaminados pela peste bubónica, e os habitantes assistem, incrédulos, à disseminação do mal. Recusam-se a aceitar a verdade, afirmando que aquela era uma doença do século anterior e completamente erradicada no Ocidente. Enquanto até mesmo as autoridades tentavam desenvencilhar-se das evidências , a peste infiltrava-se e iniciava a sua inexorável matança.

Apreciei, imenso este pensamento:

NÃO CAMINHE ATRÁS DE MIM; EU POSSO NÃO LIDERAR. NÃO CAMINHE NA MINHA FRENTE; EU POSSO NÃO SEGUIR. SIMPLESMENTE CAMINHE A MEU LADO E SEJA MEU AMIGO.»


Abraço
Luisa

César Ramos disse...

Luísa Moreira,
O seu comentário foi mais objectivo e útil do que o post que 'escrevivi' para evocar a efeméride!

Subscrevo inteiramente a sua denúncia e aponto o dedo a quem, por sistema, deixa correr o marfim despreocupadamente a olhar o umbigo.

Para celebrar [reiterar] esta comunhão solidária, eis outro "pecaminoso" pensamento de CAMUS que calça este pé:

«Pode fazer-se a guerra neste mundo, macaquear o amor, torturar o seu semelhante, brilhar nos jornais ou simplesmente dizer mal do vizinho enquanto se faz malha.»

Albert Camus in: (A Queda)

Abraço
César

Gin-tonic disse...

É bom que não se recordem quem morreu, escritores, seja quem for, apenas nas datas redondas. Foi por Camus, também por Roger Vailland, que chegou aos caminhos que percorre. Outros o marcaram mas estes dois, principalmente. Gostou também da frase que a Luisa Moreira guardou. Transportou-a para a vizinahnça dos Dias Que Voam.
Também não gosta de muros mas não vai lá acima comentar. Não tem poder de síntese e acabaria por se perder.
Fica-se a citar Camus,"Cadernos III": "A meio da minha vida tive de reaprender penosamente a viver só."