[ Vox populi vox Dei ]

2009-10-31

REPUBLICANISMO antes da queda da REALEZA






.JOÃO CHAGAS (1863 -1925) - Antigo Ministro de Portugal em Paris.
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Entra em 1883 para a Redacção de «O Primeiro de Janeiro». Condenado em 26/01/1891 por delito de opinião ao criticar o regime monárquico quanto à cedência ao "Ultimatum Inglês".
Degredado para Moçâmedes (África austral), como instigador da intentona republicana de 31 de Janeiro de 1891.
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Evade-se para Paris, onde chega a 15 de Janeiro de 1892. Regressado de mais uma pena de degredo, desta feita em S. Miguel, lança em 1897-98 o Jornal « A Marselheza », várias vezes apreendido.
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Desta curta dissertação depreende-se que a liberdade de expressão não era coisa corrente naqueles tempos !(...) mas, vamos alargar um pouco as vistas e atentar sobre resumidos aspectos do ambiente reinante, antes de dar-mos a palavra o mais possível no discurso directo, a
JOÃO CHAGAS, muito embora de forma póstuma.
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Vivia-se a ditadura de João Franco (1907-1908), e para nos situarmos no tempo, oiçamos as palavras de Hintze Ribeiro que fez chegar até nós o eco da sua voz dizendo: « Ninguém é mais monárquico do que eu, mas quero a Monarquia aliada à Liberdade e não ao Absolutismo. É assim que sou monárquico. Mais um ano deste Governo [João Franco] e Portugal será republicano.»
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Há uma certa crença de que Franco era o terrível, e D. Carlos o intelectual multifacetado e afastado de qualquer tendência tirânica. Entre a Oceanografia... aguarelas... e óleos de rara Arte executados pelo Soberano, 'escutemos' esta frase de D. Carlos para João Franco, a propósito dos constantes confrontos do povo com as forças policiais, « Seja como for e suceda o que suceder, temos que caminhar para diante, ainda que a luta seja rude e áspera (e espero-a) porque aqui mais do que nunca, parar é morrer, e eu não quero morrer assim ... nem tu! » [ !! ]
«Sem luta não há prazer em vencer, e a vitória sem combate a sério, nunca é uma vitória duradoura», ... palavras de Sua Majestade!
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O País estava pobre, e se não se podia sustentar um rico rei, muito menos podia sustentar um rei rico!
D. Carlos e a sua família, esbanjava somas muito superiores às que recebiam as famílias reinantes
de países ricos como a Noruega e a Dinamarca.
D. Carlos não se preocupava em gastos que custavam caro ao País; mudava de iate como quem muda de camisa: o Amélia I depressa se torna pequeno para dar lugar ao Amélia II que não demora a ser ultrapassado pelo Amélia III a que, logo sucede o Amélia IV!
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E... com isto tudo... o Povo, a ver ... " navios "....!
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Nesta conformidade, o Jornal «O MUNDO» de 13 de Abril de 1918, deu à estampa um Manifesto muito completo da autoria do antigo e ilustre ministro de Portugal em Paris, Sr. João Chagas, do qual vamos "republicar" apenas dois pequenos parágrafos de um Comunicado
bastante extenso e, ... sem contraditório na sua época :
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«Não há talvez exemplo na história de uma democracia tão experimentada como a democracia portuguesa!
As ideias democráticas em Portugal baseiam-se nos princípios da Revolução Francesa e já nessa época longínqua, os primeiros portugueses que se manifestaram seus partidários foram alvos de perseguições da parte dos regimes intolerantes de outrora.
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No regime liberal, os poderes públicos trataram o partido republicano como inimigo. Era particularmente servido pela imprensa, contra a qual se publicaram muitas leis de excepção. Os jornalistas republicanos eram repetidas vezes presos e esmagados com pesadíssimas penas pecuniárias.
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Durante a ditadura Franco, em 1907-1908 a situação do partido republicano tornou-se intolerável. A Imprensa republicana foi suprimida.
O Decreto de 31 de Janeiro de 1906 condenaria ao exílio os apoiantes e deportação os líderes republicanos, se a morte do rei Carlos não tivesse ocorrido e impedido que esse Decreto tivesse execução!
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Os republicanos, de que se sentia a influência crescente no seio da população, eram excluídos das funções públicas.
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A sua força eleitoral era contrariada por todos os meios ilícitos, num mundo indiscritível de fraudes e manipulação de registos de eleitores!
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E a República foi proclamada no dia 5 de Outubro de 1910 e, ao contrário do que os seus antecedentes poderiam fazer julgar, um espírito de grande ponderação presidiu aos seus actos.
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Não houve perseguições, como não houve represálias. O pessoal administrativo foi conservado. No corpo diplomático não houve mudança. Só foram substituídos os diplomatas que se recusavam a servir o novo regime.
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A República promoveu a ministros antigos secretários de legação. Nos altos postos de confiança, manteve funcionários que não encobriam simpatias pelo antigo regime. O mesmo se deu no Exército. Os numerosos amigos que a realeza contava, foram conservados ao Serviço! Os próprios Oficiais da Casa Militar do rei foram convidados a servir nas fileiras.
Mais tarde, deu-se-lhes comandos.
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A Imprensa foi completamente liberta. Nem um único processo de imprensa foi instaurado; nem um único jornalista monárquico foi preso, por ter manifestado as suas opiniões por meio da Imprensa.
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A República foi muito atacada pelos clericais de todos os países, devido à sua política religiosa.
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A Lei portuguesa da Separação não difere essencialmente da francesa. Ao clero concederam-se subsídios. O culto é livre. O púlpito é livre. Além disso, o povo português é muito tolerante em matéria religiosa.
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Apesar disso, «Quatro tentativas de restauração monárquica» se realizaram nos primeiros quatro anos de existência da República Portuguesa.
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Outubro de 1911 - Incursão armada pela fronteira norte de Portugal.
Julho de 1912 - Incursão armada pela mesma fronteira.
Outubro de 1913 - Tentativa de sublevação em Lisboa.
Outubro de 1914 - Sublevação militar em Mafra.
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A República respondeu a estas quatro tentativas de restauração,... com "quatro amnistias"!(...)
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JOÃO CHAGAS, continua o Manifesto versando sobre o extraordinário conflito desencadeado em Agosto de 1914 - PORTUGAL na GUERRA - a I Grande Guerra! Mas é assunto fora deste contexto! (...)
Recebemos um comentário "semi-anónimo", aquando a publicação de um dos nossos posts sobre a comemoração, irrefutavelmente Histórica, da Implantação da República em Portugal, no dia 5 de Outubro!
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Reproduzimos o comentário:
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«Hoje comemoram-se os ideais da República, isto é, a perseguição à Igreja Católica, a censura, a fraude eleitoral, a manipulação de cadernos eleitorais, o assassinato político, as milícias armadas, a revolução permanente, a ingovernabilidade, o regime de partido único (com apêndices) e a decadência económica (a pior década do século XX).
(Escrito a 5 de Outubro por João Miranda em "Belsafémias".»
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Não temos que gerir 'querelas' ! Recebemos o comentário e respeitámos a intenção do seu objetivo! São as realidades da história que se devem confrontar... não nós...
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Se tivéssemos a oportunidade de dialogar frente a frente ou com a assinatura de quem o escreveu, dedicaríamos mais espaço no post deste blog!
.Assim, fica o convite de analisar a informação histórica acima reproduzida de JOÃO CHAGAS , bem como as outras fontes fidedignas que mantêm opiniões factuais bem diferentes das que os monárquicos de hoje, e de sempre,... se queixam!
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Pensamos que, por lá se encontra explicado que a limitação religiosa tem por base os negócios de Estado terem de estar separados das religiões... e, sugerimos recordar que em termos de perseguição à Igreja Católica,... nunca ela teve tão grande inimiga,
como ela própria...!
através da... alegada:
« Santa Inquisição »
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Legenda:
1- Pormenor da 'luneta' do Plenário da autoria do pintor Veloso Salgado.
2- Símbolo antigo do «Partido Republicano Português».
3- Fotografia de João Chagas.
Nota final importante
- Transcrevemos nota da Redacção do Jornal O Mundo: « No mesmo dia foram assaltados os jornais 'Portugal' e 'O Mundo'. O edifício onde estavam instalados os nossos escritórios ficaram no estado que o público tem visto: tudo destruído. » (...)
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(...) Vá, lá!... hoje em dia... por cá,... longe do ano de 1918..., uns 'senhores' ditos 31 da Armada,... limitaram-se a roubar bandeiras camarárias da C.M.L.!... Poderiam ser punidos pelo lindo 31 que armaram!...
Contudo..., a República continua serena e...
não lhes deu os açoites
bem merecidos!



1 comentário:

Luisa Moreira disse...

Com a monarquia isto foi um "Império à Deriva" livro de que gostei imenso.

Hoje fazem-se "traquinices" e, fica-se impune, porque o povo é sereno.

Abraço
Luisa