[ Vox populi vox Dei ]

2009-10-13

A OUTRA APARIÇÃO!

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« -A FOME!... Esta é que é a verdadeira "aparição", palpável e real!... » pensava o Zé Povinho!
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O jornal O Século, na sua expressão humorística em suplemento - O Século Cómico -, ao género dos 'cartoons' dos nossos dias, na edição de 13 de Outubro de 1917 antecipou pragmaticamente a "aparição" que também se mostrava no vazio dos estômagos, e na desertificação da comida nas mesas, a somar à separação das famílias, devido à mobilização militar dos portugueses na I Grande Guerra - a guerra europeia, como foi na época também designada.
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Foi de facto... grande a "aparição",... a da fome!... e a desaparição drástica da população com o desbaratar de vidas - nos combates - dos elementos do sexo masculino...! Um único ponto positivo - mas de elevados custos -, foi o grande passo em frente da emancipação da mulher, chamada a substituir os lugares dos homens deslocados na guerra [foi o abaixar a "marreca" do machismo, perante a evidência dos factos!... ninguém tem nada, portanto, a agradecer] !
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Talvez a verdadeira "aparição" da Senhora, tenha sido simbolicamente o 'lugar ao sol' finalmente reconhecido às mulheres - o tal milagre solar -, de passarem a desempenhar funções nos lugares vagos na indústria, nos transportes, na função pública e outros serviços, acumulando com a honrosa missão da Natureza de garantirem a continuação da espécie, como mães da Humanidade, gerando, criando e educando novos seres e, reporem o défice populacional provocado pela arrogância estúpida e assassina dos "senhores" da Guerra!
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O « MILAGRE » ,... foi a capa do suplemento do jornal, suavizando com humor irónico a situção que se vivia.
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É a triste presença da eterna miséria,... de tradução simultânea com sinónimos de Peste... e Fome, e os milagres oficiais e os oficiosos como demonstração de fé,... da que se diz que só não vê... quem não quiser ver... ou de maneira menos mística, mas realista, a baseada na conhecida estória de «O Rei vai... nú»!.., que narra o bloqueamento mental de um povo que acordou, libertado pelo crivo da inocência de uma criança, que viu o rei sem roupa nenhuma! (...)
.Transcrevemos uma carta da época, escrita pelo desconhecido cidadão senhor "Jeroldo", a qual foi dirigida à consorte com quem constituíra família... mas , por motivos alheios,... encontrava-se fora!... podia ser na Flandres, ... em França,... nas linhas do « Front» [assim chamavam às linhas de combate da frente ], ou noutro tipo de frentes, aventurando-se na guerra da vida por um lugar nas lides Teatrais, como Empresário, lutando pela vida e longe da sua consorte (...)
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« Crida isposa,
Munto me contas arrespêto du milagre da Virge Maria da O' rém!
Em vista du que dizes, çu sol dansou i se virão istrelas ó mei dia, istou convretido i nunca mais decho de ir à miça. Mas u fim di esta, é dar-te parte que fui ver u As di oiros, ó Ede, revista touda da fantasia de dois amigos cá do meco, pur iço já podes pôr na tua ideia cal ade ser a minha impracialidade.
Compõece a revista de dois cunpadresque paçam u tempo a xamarburros um ao oitro. O'os pois um deles sonha que vai ó paiz adondesus homesóspois de mortos se fazem em alimais i ós
pois é ele posto fora du ótele saindo numa tina i u pai nun jimennto. Oós pois vão ó paiz dumusegaondesas molheres tocam garrafofone. O's pois vão pró pé du guverno cevil pra oivirem uma molher dezer mal do pissarra du marido e um bebado dezer que tudo está normalisado.
Oós pois, vão ó paiz dus fedalgos cumprar tudo purque enriqueceram cum uma receita de fazer incencia de batata. Oós pois falace nu marquez de Pombal i a proposeto aparesse Lisboa antes i ós pois du terramoto. Oós pois aparecem as meninas do garrafofone a tucarem trombetofone i ós pois aparessem na sena os carpenteiros, adecencistas, ponto, conta-regra, e munta doitra gente de ambus un cexos. Oós pois acabou-ce a peça que se xama A'as de oiros purque tem um pano cum cartas pentadas ó pé dúm rebanho de carneiros que tamem podem cer porcos ó oitros caisquer alimais de pello.
Cun isto nan te infado mais i pesso-te que rezes à tal Virge Maria de O'rem pello bom çuceço da pessa, purque a impreza é munto cimpatega benzá Deus.
Bejos inormes te inbia u teu cempre fiel ispouso
Jerolmo
Empreszario do Pauliteama de Pêras-Ruiva »
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.Muitas histórias navegavam entre o povo, contando-se peripécias anedóticas por um lado, e historietas supersticiosas envolvendo aparições demoníacas, e outras intervenções mais ligadas ao pragmatismo do dia a dia , como à mesa de jogatana da sueca:
- "Não: lá que a coisa leva água no bico, isso é que não padece a menor dúvida".
Todos sabem do 'milagre' da Fátima que consistiu num bailado do sol ao meio dia , presenciado por milhares de pessoas, e no aparecimento da Virgem a uma pastorinha, com a declaração de que a guerra europeia havia terminado naquele momento:
às 12 horas de 13 de outubro de 1917.
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Também não foi assim
tão linear
e... pontual!
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Seguiu-se o suspense
dos três segredos (...)
Por ora, e na época...
a guerra foi continuando, por momentos mais,
e o pão (...) faltando
às mesas
com frequência!
Nota:
Post enviado para blog via telemóvel, após cedência
da foto publicada por uma Biblioteca Pública.

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