[ Vox populi vox Dei ]

2009-10-11

[E] VOCAÇÃO das GAIVOTAS


. Parcela de graffiti pintado no muro da Escola Secundária de D. João V
. Damaia - Amadora.

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(...) «Se uma gaivota viesse trazer-me o céu de Lisboa no desenho que fizesse, nesse céu onde o olhar é uma asa que não voa, esmorece e cai no mar » (...)
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Não parece, assim em jeito de prosa, mas é o arranque do lindo poema de Alexandre O'Neill (1924-1986) intitulado " Gaivota " que, de forma livre, como o poeta o foi, retirámos um extracto para emoldurar este graffiti que espanta pela beleza e leveza do seu traço artístico!
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Evoquemos um pouco mais O'Neill, lembrando o Homem que disse que era necessário 'desimportantizar as coisas'!... mas já perto do tempo do seu passamento, admitia porém, que fez do seu corpo alavanca, sem pensar no futuro...!
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Trazendo a nossa gaivota tanto mar atrás de si, lembremo-mos também de uma frase tão repetida por todos,... mas que afinal poucos saberão que foi Alexandre O'Neill o seu criador: «Há mar e mar, há ir e voltar...!»,... lembravam-se ...? Ainda bem que se lembravam ...!
E ainda sobre o poeta, apresentemos a nossa solidariedade ao emprestarmos o nosso entendimento quanto ao estado de alma a que tinha chegado nos seus últimos tempos; o grande comunicador que foi, o grande operário da poesia e fabricante de temas que encheram tantas e tantas conversas de tertúlia,... chegou ao ponto da necessidade de ir ao barbeiro da esquina, só para ter alguém com quem conversar! (...)
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Fica aqui um protesto pela hipocrisia dos muitos que pontualmente o lembram por necessidade de se afirmarem intelectuais,
mas que abandonaram à sorte do silêncio
que o Poeta odiava (...)
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Apresentamos de seguida um pequeno esboço poético, ao qual nem daremos título porque quando se evocam forças da natureza, os humildes gesticulam, e respeitam a grandeza dos que de facto foram os grandes artífices da escrita, como O' Neill..., um grande Senhor tanto das Letras... como da Luta pela Liberdade (...)
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Ó meus sonhos fiéis, gaivotas retardadas,
Sacudi ao luar vossas asas molhadas
De pura fantasia; é tempo de voltar
Ao vosso ninho doce entre as fragas de Azul.
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Vós sois no meu viver, uniforme e vulgar,
Como flor que nascesse à beira do paul;
Sois a força, o sustento, o pão da alma ferida
No rude batalhar a que chamamos vida.
Eu vou deixar a praia, as ondas rumorosas;
Dos astros pelo céu as falas silenciosas ...
Aves brancas do sonho, ó bando transviado,
É tarde; recolhei ao vosso ninho amado!
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.Abençoadas sejam as gaivotas que tal como as pombas brancas, também elas são mensageiras de novidades... como uma das mais simplórias que o povo tantas vezes repete: ' gaivotas em terra,... é sinal de tempestade...' !
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Hoje é dia de Eleições Autárquicas em Portugal!
Hoje o Povo vai de novo exercer o seu direito e dever cívico de escolher aqueles que pensa melhor o representarem nos mais diversos pelouros.
.A todos saudamos ... e, dedicamos a publicação deste post!
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Viva o Povo Português!
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Viva o nosso Portugal!

5 comentários:

Luisa Moreira disse...

César,
O acto de votar, pareceu-me poesia.

Trago as três letras de mar
tatuadas sobre a pele
já fui a nau por voltar
meu nome é São Gabriel.

Abraço
Luisa

teresa disse...

E pedindo desculpas por ocupar tanto espaço, um outro excerto de poema sobre gaivotas:


A gaivota já poisou em todos os meus versos
trazendo sempre uma promessa de distâncias irreais.

Chega com o mau tempo. Fica de vigia.
Apenas uma brisa leve lhe arrepia
o desenho solene e rigoroso que compõe à beira do cais.

[...]

Quando abrir de novo as asas e partir
em busca de outros continentes, outras ilhas
deixará na praia do poema alguma pena
e o mapa confuso de pegadas andarilhas.

Digo adeus e fico a vê-la
a afastar-se lentamente no azul
e repito para mim próprio
e juro e volto a jurar
que um dia abro a janela
e vou com ela
viajar


José Fanha

Reaça disse...

Eu sobre gaivotas, lembro-me sempre daquela canção tão em voga depois do motim do 25 de Abril de 1974.
"Uma gaivota voava, voava, filha da puta que não se cansava!"
Também havia a outra versão:
"Um comunista voava, voava, duma janela d'um décimo andar. Como ele, 'ind'há muitos comunistas pr'a empurrar..."

César Ramos disse...

TERESA,
seja benvinda!

Ocupará o espaço, que sempre entender!...

Brindou-me... com José Fanha!
Agradeço-lhe muito!

De facto as Gaivotas são incansáveis!... por muito que custe a quem, porventura já nasceu cansado!

Never forget:
«If It Be Your Will»

teresa disse...

Grata pelas palavras, César.

Have a nice weekend