[ Vox populi vox Dei ]

2009-10-25

CESÁRIO VERDE, POETA de LISBOA




[Imagens obtidas na: Net]
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CESÁRIO Verde foi o grande poeta de Lisboa, mas, fundamentalmente, um poeta da Natureza, de inspiração campesina, sedento de amplitude - porque «a dor humana busca amplos horizontes» -, de claridade exultante, embebido dos coloridos da paisagem, vibratil à sua comunicabilidade, em quem o ambiente rústico despertava a «verdadeira sensação de viver».
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«No campo; eu acho nele a musa que me anima». E bastava-lhe «fechar os olhos cansados» para «descrever das telas da memória retocadas» até os pequenos pormenores da realidade tangível ou pressentidos pela acuidade perscrutadora e trazidos do vago para o concreto, pela poderosa sugestão emotiva, visual, traduzida pelo paisagista, no seu impressionismo rutilante e sentimental, em quadros luminosos», onde se «destacam, vivas, certas cores, na vida externa cheia de alegrias».
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A cidade atraía-o, num amoroso encanto, e desalentava-o, punha-lhe a cinza do tédio na alma: «Eu passo tão calado como a morte», «Nesta velha cidade tão sombria»... «E ali começaria o meu desterro», que a escuridão da noite, «pesada e esmagadora», tornava em agónica angústia, «tão moribundo se sentia... ao acender das luzes».
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Para o «verdejante Cesário», como Jorge de Sena admiravelmente definiu o poeta, que se identificava com a Natureza e parecia transmiti-lhe a sua própria essência poética, eram - diz Silva Pinto - «os campos, a verdura dos prados e dos montes, a liberdade do homem em meio da Natureza: os seus sonhos amados, as suas realidades amadas! Quando aquele artista delicado, quando aquele poeta de primeira grandeza julgava em raros momentos sacrificar a arte aos seus gozos de lavrador e de homem prático, sucedia que as coisas do campo, da vida prática assimilavam a fecundante seiva artística do poeta; e então dos frutos exalavam-se aromas que disputavam foros de «poesia» aos aromas das flores. O mesmo sopro bondoso e potente agitava e fecundava os milharais e as violetas e os trigais e as rosas! A bondade suma está no poeta - mais visível, pelo menos, do que em Deus
Foi isso, talvez, esse amorável enlevo na risonha Natureza, o dissolvente da sua amargura íntima, que não se transformou em ostensivo padecer, na mórbida tristeza em que se afundaram outros poetas, desiludidos da vida, atormentados como ele pela neurose, minados pela doença incurável e desalentadora.
Outros sentiram também, a atracção, misto de estranha sedução, de magoada nostalgia, de torturante soturnidade, da cidade nevoenta, turbilhonante, pitoresca e impressiva - e acode-nos à memória as surpreendentes visões do magnífico e inconsolável António Nobre!
Cesário, contudo, foi o grande, verdadeiro poeta de Lisboa. Não nos parece que haja outro maior, tão sugestivo, tão lisboeta como ele... Poeta de Lisboa ... e de toda a gente - porque toda a gente o entende.
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As cidades prendem pelo seu impressionismo, pela vibracção sentimental, pelo drama humano da multidão inquieta, formigueiro de gente que sofre e luta, num redemoino devorador de paixões e egoísmo, que se perde nas encruzilhadas do destino para se despenhar no abismo , à qual os desenganos inspiram, com estranha volúpia, o «absurdo desejo de sofrer».
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E há a enternecedora poesia das coisas humildes, deslumbramentos e quimeras , singelas aspirações que se evadem das realidades brutais, do mundo, de indiferença, de hostilidade molestadora, para a «gaiola de um terceiro andar», onde poisam as estrelas , acalentando o sonho às «carícias leitosas do luar», mitigando a nostalgia da tranquilidade e jubilosa simplicidade campestre num pé de sardinheira a estalar de cor no canteiro da janela. Coisas que só a sensibilidade dos poetas descobre ...
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Ao entardecer, entra na alma do poeta, que sente a desolação desesperadora dos enfermos descrentes e saudosos da existência breve, a melancolia crepuscular que desce sobre a cidade e envolve os seus versos:
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O fim da tarde inspira-me e incomoda:
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Vaziam-se os arsenais e as oficinas;
Reluz, viscoso, o rio, apressam-se as obreiras,
E n'um cardume negro, hercúleas, galhofeiras
Correndo com firmeza, assomam as varinas.
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Vêm sacudindo as ancas opulentas!
Seus troncos varonis recordam-me pilastras,
E algumas, à cabeça, embalam nas canastras
Os filhos que depois naufragam nas tormentas.
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Toca-se as grades, nas cadeias. Som
Que mortifica e deixa umas loucuras mansas!
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A espaços iluminam-se os andares
E as tascas, os cafés, as tendas, os estancos
Alastram em lençol os seus reflexos brancos,
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Triste cidade! Eu temo que me avives
Uma paixão defunta! Aos lampiões distantes,
Enlutam-me, alvejando, as tuas elegantes,
Curvadas, a sorrir, às montras dos ourives.
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E mais: as costureiras, as floristas
Descem dos «magazins», causam-me sobressaltos;
Custa-lhes a elevar os seus pescoços altos
E muitas d'elas são comparsas ou coristas
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E eu, de luneta de uma lente só,
Eu acho sempre assunto a quadros revoltados;
Entro na «brasserie»; às mesas de emigrados
Ao riso e à crua luz joga-se o dominó.
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A cidade tem alma e é a alma da cidade que estua nos versos de Cesário - o seu drama e as suas pequenas alegrias, naquilo que ela tem de ideação poética e embevecimento estético, na graça,no pitoresco das coisas simples, no ressumante sensualismo, nas esfusiantes claridades ou nas neblinas opressivas, nas esperanças que morrem e vão renascendo, naquela penetrante melancolia, saudade e desalento, renúncia e impetuosidade sentimental, qualquer coisa como só o poeta sabe exprimir, da angústia íntima do penar por todas as desditas, da nostalgia brumosa e pungindora pelas frustradas empresas, pelo desânimo da raça aventureira e desiludida.
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Para além de tudo isso, a sensibilidade do artista, do verdadeiro poeta, que tinha o segredo da naturalidade e o raro condão de descobrir um «espírito secreto» nas coisas, transportado para o objectivismo realista da poesia fulgurante, de efeitos singularmente originais no mundo das cores e das formas.
Não se furtando a «certa morbidez», a que alguns críticos exageradamente juntaram a doentia influência baudelaireana, avultam entre os méritos do poeta «observação profunda»...
«sentimento sincero»,... «ironia finíssima»,... «arte sóbria, mas colorida».
Poeta de singular talento e vincada personalidade, sempre poeta e artista, humano, consciente das desigualdades sociais, insubmisso, como rebelde aos convencionalismos da arte, Cesário Verde, um inovador com sua maneira originalíssima, de grande poder sugestivo; expressões inéditas que descobriui a «coisa nova», é dos poucos que se perpetuam entre renovadores e precursores da moderna poesia.
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Poeta de Lisboa, grande e admirável poeta de toda a gente, a cidade deve-lhe a justa homenagem - mas qualquer coisa além de uma lápide na parede do prédio onde residia e morreu, outra lápide no meio de um verdejante jardim lembrando Cesário, do nome numa rua, do busto em quatro palmos de relva - a verdadeira consagração, em plano mais elevado, de amplitude nacional, de um dos maiores Poetas portugueses.
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Por acharmos que nunca é demais evocarmos os nossos valores culturais, e seus cavaleiros empreendedores do alargamento da nossa verdadeira Pátria que é a Língua Portuguesa, vamos reproduzir um certo poema de Cesário Verde, que investigámos quanto ao seu paradeiro, como poema desaparecido, ou oculto que estava!
Há poucos meses, num Blog que seguimos com interesse pelas suas características lúdicas e culturais http://diasquevoam.blogspot.com/ -, tomámos um apontamento apressado sobre um pedido de um dos seus muitos seguidores/comentadores em que, perguntava aos outros internautas, se sabiam de um poema, da autoria de Cesário Verde, intitulado « Escândalos » .
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Decidimos tomar conta da investigação, até por interesse próprio!... não foi fácil, e tivémos que percorrer muita informação! Começámos a pensar que, não há fumo sem fogo, que ninguém iria inventar um título e que, como quem procura acha,.... procurámos.... e achámos!
Não nos lembramos do nome da comentadora/o que tinha deixado tal "apelo" (...) mas, pode ser que nos encontre aqui neste post do Alfobre, onde também predomina o Verde, tal como Cesário!
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Quase metade da "cesárica" produção literária é de 1874! Chegou-nos ao conhecimento de que o poema perdido em parte incerta, existe mesmo! ... desconhecemos ainda muitos pormenores... tão pouco o motivo porque poderá ter estado durante muitos anos "debaixo de um qualquer tapete", como' lixo' escondido à pressa! (...)
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O Poeta escreveu então quatro quintilhas, exactamente no acima referido período de 1874, fase cesárica da sua produção poética:
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« ESCÂNDALOS »
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Fallava-lhe ella assim: - "Não sei
[porque me odeia.
"Não sei porque despreza a luz dos
[meus olhares.
"Se o adoro com fervor, se não me
[julgo feia.
"E o meu olhar eguala as chammas
[singulares
"Do incendio de Pompeia!
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"Instiga-me o aguilhão do vício
[fatigante.
"E crava-me o caprocho os vigorosos
[dentes;
"Não quero o doce amor platonico do
[Dante
"E sinto vir a febre e as pulsações
[frequentes
"Ao vel-o, ó meu amante!
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"As ancias, as paixões, os fogos, os
[ardores.
"Allucinada e louca, eu vejo que
[abomina.
"E ignoro com que fim, em tempos
[anteriores,
"Enchia me de gosto a bôca
[purpurina
"E o seio de calores!"
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E elle ao vel-a excitante, hysterica,
[exaltada.
Volveu lhe glacial, britannico,
[insolente:
- "A tua exaltação decerto nãao me
[agrada.
"E, ó minha libertina! eu quero-te
[somente
"Para mecher salada!"
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Lisboa, Agosto de 1874
Cesário Verde
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De todos os poetas da chamada «escola nova» Cesário foi o único que conseguiu cortar com a retórica romântica, criando uma expressão nova, ajustada à expressão directa de um novo conteúdo.
É o único verdadeiro poeta «realista» do Sec. XIX.
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Tendo ido em busca do «poema da 'arca' perdida», encontrámos informação que não "cabe" num post de blog, considerando a sua extensão! E ficámos com uma dívida de gratidão ao blog Dias,... por nos ter 'apresentado' alguém que queria saber mais sobre este Poeta!... aprendemos mais..., e ficámos mais ricos, com esta investigação experimental....
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Foi uma bonita 'viagem' de consulta pelas seguintes "Fontes": - Silva Pinto; Jorge de Sena; António José Saraiva; Óscar Lopes; Joel Serrão; recortes pessoais de Artes &Letras e, pseudónimos (não anónimos!) em blogs brasileiros de literatura portuguesa, cujos nomes nos fugiram entre os dedos.... ao correr do teclado....
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Falta referir que tentámos ao máximo manter Cesário Verde em discurso directo no desenrolar deste post,
dando voz,....
às suas próprias expressões ....!



3 comentários:

Luisa Moreira disse...

Foi bom conhecer o poeta com tanto pormenor.

Abraço
Luisa

teresa disse...

E uma 'estória' da história, que é como quem diz "uma curiosidade sobre o poeta": atendendo a que a sua família exportava maçãs para países europeus, bem como para o Brasil, Cesário - por iniciativa própria - cuidava do aspecto desses 'pomos de ouro' (como hoje é determinação da CE) polindo a casca dos frutos e envolvendo-os em papel vegetal antes destes serem encaixotados, a fim de lhes melhorar o aspecto. Apesar da vida efémera mas marcante que teve, poderemos afirmar que não lhe faltaria - a par dos dotes literários - avançada visão comercial:)

Anónimo disse...

Bom post sobre esse grande e muitas vezes esquecido Cesário Verde. Lisboa pode dizer que entre outros tem mais este grande grande Cesário.
Palma - Louletania