[ Vox populi vox Dei ]

2009-09-18

VIDA do MAR


Autor: Virgílio Costa
Óleo sobre tela; 61x45 cm
Data: 1973
Obra adquirida em: Exposição de Arte no Hotel Paris - Estoril.
Nome da Obra: «PRAIA do PEIXE»;também chamada "Praia dos Pescadores" e "Praia da Ribeira") - CASCAIS
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[Colecção particular do autor do blog)



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Claude Debussy, Compositor francês (1862-1918), não apoiava que as suas obras fossem especificamente classificadas como impressionistas - lembra o pintor Degas que, sendo impressionista, também contornou o impressionismo considerando-se independente -, pois achava que a Música é, por definição, uma arte impressionista por natureza.
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«O MAR»,... peça genial, constitui uma das obras-primas na arte da orquestração de todos os tempos - um estudo realmente impressionista (...), cambiantes de cor que o mar vai adquirindo ao longo de um dia, transmitidas através de uma combinação prodigiosa com a variedade dos mais inesperados timbres de sonoridade.
. Além disso, "O Mar" de Debussy também descreve a riqueza rítmica infinita - e sempre diferente, sempre renovada - que caracteriza o movimento das ondas, e o seu diálogo com o vento (...)
Convido a seguir o texto ao som (a imaginação é ilimitada!...) da III interpretação de 'O Mar' (tríptico sinfónico), e que se chama "Dialogue du vent et de la mer" (...)
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["Puisqu'il le faut",... lembramos por ordem decrescente as outras duas obras do tríptico: II - "Jeux de vagues"; I - "De l'aube à midi sur la mer"]
(...) Rasga-se formoso o amanhecer do dia! Para as bandas da serra umas núvens avermelhadas, sanguíneas, começam a manchar de luz o céu, a serra e o mar.
E o mar ruge furioso!
Na praia, a dois passos da água, alteia-se a silhueta possante, airosamente conformada, de um velho pescador.
Observa atenta e demoradamente o Oceano. Sobre o revolver indomável das ondas espraia o fluido do seu olhar vivo, faiscante de coragem...
Fita depois, calmamente, um ponto daquelas águas, na crista de uma vaga além, tocada já pela carícia branda de um primeiro raio de sol.
E deixa-se ficar, namorando-as como se fossem folhas de um romance, páginas de um Oráculo
que se precise consultar, para decidir-se a realização de algum facto.
(...) Agora essa estátua impassível do velho pescador desmancha-se num movimento brusco.
Recua uns passos, desentrança uma da outra as mãos dadas, pendidas sobre o quadril e, com uma delas, tira da cabeça o barrete.
Ergue-o no ar, olha para terra, e assim se conserva uns instantes...
Que indecifrável enigma para a oprimida curiosidade de um 'mirone'!
E, no entanto, a muda expressão daquele gesto é logo compreendida em toda a beira-mar.
Toda a tripulação de pesca tem assim percebido o seu sinal de mobilização, o sinal de ir ao mar.
A criança, o rapaz, o adulto e o velho têm de se manear.
E o mar está 'puxado'! Não amansa nem amansará tão cedo. A maré não está de feição, é certo, mas parece estar a modos de, a jeito de prometer dar sardinha.
A antevisão dessa promessa fascina o pescador; a coragem e a valentia soerguem-se no ânimo dos pescadores que, destemidamente, mais uma vez, à voz do seu arrais, vão vencer as ondas, na
ânsia sacrosanta de ganhar o pão de cada dia.
(...)
O barco entra na água e sofre o embate das primeiras vagas, e os homens colados firmes aos remos, enormes, pesadíssimos, começam a sua extenuante faina de remar.
É um dos momentos mais perigosos que a viagem oferece.
Uma onda alterosa, arqueando-se em foice, vem rebentar na proa do barco que cava nela um abismo com o seu peso; a vaga fendida, sob esta pressão, esguincha enraivecida e, em cachão de espuma, fustiga e sufoca toda a tripulação que resiste heróica, preparando-se para os actos sucessivos que vão acontecendo ao ritmo de Neptuno, até atingirem maior distância, passando a pancada do mar e, teoricamente, mais livres de perigo.
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E a faina acontece entre preces misturadas de fé e superstição em nome de entidades de culto que, pouco lhes valerão, mas talvez ajudem à 'companha' [equipa de pescadores], uma farta colheita de peixe.
(...)
A luz suave do pôr do sol avermelha as núvens na linha do horizonte. Almas amorosas e sonhadoras vão para a praia esperar o seu "home" e,... com elas,... lá está o velho pescador... só, de pé na humedecida areia estendendo a vista pelo Oceano...
Vê e ouve o mar!
Dele tira lição e ensinamento para acantonar-se no trabalho de cada dia, e reconfortar-se na lembrança de alguma ilusão, ou vocação, com que outrora a vida o terá encantado!
Vê e ouve o mar!
O seu olhar poisa ali, como nas folhas de um romance, páginas de um Oráculo que precise consultar!
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Que é que o atrai assim?!
Um vago encantamento de sonho certamente, porque ao mar toda a sua vida se lhe prende, como o coração se nos prende a uma última carta de amor, olhada sempre com enlevo e afecto quando uma e outra vez lhe relemos as suas palavras, que o tempo perfumou de ilusão e saudade.
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Decerto que é angústia, e um apelo muito forte!
O chamamento mágico suave... da sereia...
o hino nostálgico da
Vida do Mar! (...)

3 comentários:

Zé Manel disse...

Hje o palácio continua lá, mas a paisagem está um pouco modificada, com o pontã que fizeram sobre a foz da Ribeira das Vinhas.

César Ramos disse...

Agradece a informação, mas terá o
entendimento que pintor nos anos 70 não tinha perspectiva futurista e adivinhatória da actualidade. Por isso, aprecia qualidade de Vieira da Silva ter pintado aquela riqueza!... caso sobreviva a terramoto,... paisagens dela permanecerão iguais para todo o sempre...

Luisa Moreira disse...

Obrigada pelos aconselhamentos, sobre música já os registei.

Quase não precisava da foto da pintura, porque a vejo com a descrição que faz. Belo olhar sobre uma tela.

Abraço

Luisa