[ Vox populi vox Dei ]

2009-09-15

TO VOTE, OR NOT TO VOTE ...



[Símbolos políticos da actualidade, e imagem do Dr. Sidónio Pais, o «Presidente-Rei»
(1870-1918)]
.
Vivemos de novo um momento histórico que exige dos candidatos a cargos públicos um comprometimento efectivo na defesa intransigente dos valores da democracia, da ética e da cidadania.
.
Um eleitor bem informado, tem condições de escolher melhor. Para isso, existem as campanhas, os debates e outras atitudes divulgadoras dos projectos, das ideias e programas.
.
A participação da juventude tem um papel fundamental no desenvolvimento da sociedade democrática e na sua constante renovação. Esta participação deverá levar ao desenvolvimento de qualidades como compromisso, envolvimento, responsabilidade, solidariedade, consciência democrática, participação e respeito pelos outros concidadãos.
.
Não somos nós, neste blogue, que vamos ter a veleidade de incentivar o ir, ou não, às urnas! Não passamos de uma pequena 'sementeira' de letras e ideias sentenciadas ao solilóquio para consumo caseiro, limitando-nos ao simples exercício de pensar, e arquivar de forma moderna elementos de interesse histórico com conteúdo, que sirvam para comparar as diferenças, ou as semelhanças, no tempo e no modo de as pessoas reagirem aos fenómenos sociais.
.
Estávamos na I República, o Dr. Bernardino Machado (1851-1944) exercia o mandato de Presidente da República desde o ano de 1915. Acabara um período eleitoral e, o jornal O Século do dia 5 de Novembro de 1917, deixou-nos uma amena palestra sobre o tema de eleições, nos seguintes termos:
.
«Não votar é abdicar dos nossos direitos mais caros, é mais do que indiferença, porque é um crime. Esta verdade acaba de ser escrita em todos os periódicos partidários e não partidários, com uma convicção cuja unanimidade atesta que não estamos de todo, apesar das aparências, divorciados do bom senso.
Não votar é perder, voluntariamente, a faculdade de julgar-mos os actos de outrem, contrários ao bem geral e ao nosso próprio interesse; é um egoísmo repugnante, se se deixa de votar por simples comodidade pessoal, é estupidez se se supõe que um voto apenas não faz falta alguma e, assim, que o acaso é que determina o resultado das eleições.
Não votar, é transigir com os maus hábitos da nossa' raça', sem energia, sem nervos, sem reacção, quando se trata de um esforço, por pequeno que seja.
Não votar é justificar os maus tratos futuros, o abuso, o desprezo pela opinião pública, a surdez aos clamores que se erguem tardiamente, às censuras dos eleitores, aos pedidos de justificação
e castigo.
Não votar é a defesa do absolutismo, é a entrega do que mais se estima na mão dos que, por conveniência própria, nos destroem a fazenda, nos ofendem as crenças, nos esmagam sem dó.
Não votar é caminhar de olhos vendados em estrada cheia de precipícios, quando estava em nossas mãos conservá-los bem abertos e ter preparado um caminho liso e sem obstáculos.
Não votar é isto tudo e muito mais que tem sido dito e redito a propósito dos actos eleitorais entre nós, dos locais desertos, a ponto de em alguns nem se poder constituir a mesa...
Não votar - laconicamente, em três palavras apenas, incisivas e sobretudo verdadeiras - é ser burro!
Pois muito bem. Feitas estas considerações, que decerto estão no ânimo do leitor, dando por escusada a nossa argumentação, tão atrevida como se tentássemos ensinar o padre-nosso ao vigário, acontece que ontem... o signatário destas linhas não foi votar.
É uma besta, evidentemente.»
.
a) J. Neutral
.
Verifica-se que a prática da abstenção é algo que vem de longe! Diz-se que com os erros da história, se aprendem novos caminhos de vida. Há noventa e dois anos, a conversa era a mesma de hoje!... e os usos e costumes na falta de responsabilidade e consciência de cidadania, igual!... lamentavelmente igual!
.
À primeira República 'sucedeu', por golpe militar, a ditadura,... o Estado Novo,... e começaram as queixas de que o voto não era livre,... que as eleições, ou não eram para todos - mulheres não votavam -, ou eram uma farsa.
.
Desenvolveram-se esforços, correram-se enormes riscos,... botou-se a ditadura ao chão e, a democracia renasceu numa manhã de Abril! Voltou o livre exercício da cidadania... a liberdade de expressão... o direito ao voto para todos os portugueses,... os jovens puderam começar a votar logo aos 18 anos... conclusão: muitos fecham-se nas suas conchas, despreza-se o exercício da liberdade de ir às urnas! Dá para entender?... parece que não!... e os responsáveis pela abstenção, estão lentamente a emitir um atestado de extinção da legitimidade democrática, por mor dos seus conflitos internos e vontades pessoais, julgando que governar seria dirigir o país de maneira a contentar todos, um por um, como se cada qual tivesse um condado, com casos exclusivos de vantagens, e leis personalizadas. É mais do que ignorância,... é a estupidez generalizada.
.
A Redacção do Jornal O Século, e muitas instâncias oficiais, não previam que naqueles finais do ano de 1917, a conspiração ameaçava as estruturas nacionais! Muita gente desacreditou os valores democráticos, com a falta de representatividade eleitoral, demonstrada pela generalização abstencionista.
.
Exactamente um mês depois do artigo acima descrito - dia 5 de Dezembro de 1917 -, Sidónio Pais lidera com sucesso um golpe de estado!
.
A 27 do mesmo mês, toma funções como Presidente da República e, desde logo assume atitude ditatorial alterando a Lei Eleitoral, moldando-a ao seu gosto e jeito, sem ouvir o Congresso.
Ligitimou o seu mandato [pudera!] por sufrágio!
.
Os absentistas... lá acharam o que andaram a 'pedir'!... acabaram por fazer de conta que votavam... perderam a liberdade de criticar, pois à mínima censura escutada por polícias ou bufos,... era a prisão arbitrária!
Mas 'conquistaram' uma Nova República,... cujo Chefe,... General Sidónio Pais,... para 'delírio' de muitos,... passou a intitular-se:
O PRESIDENTE-REI! (...)
.
E a Abstenção,... sentiu-se realizada!

12 comentários:

Luisa Moreira disse...

Belo "post" de incentivo ao voto.

Por mim votarei, aliás sempre votei desde que me foi dada essa oportunidade!

Não esquecer os tempos em que, votar estava vedado ás mulheres. Devemos ser uma espécie à parte.

O voto é, um dever cívico.

Abraço

Marta disse...

Boa tarde César Ramos.

Dou-lhe a conhecer a Bubok.Pt, uma nova forma de editar. Depois de um enorme sucesso em Espanha, a Bubok está agora disponível para os autores portugueses. O êxito da Bubok é fácil de explicar, todos podem publicar gratuitamente e a margem para o autor é de 80%!

Visite-nos em www.bubok.pt e conheça as ferramentas que disponibilizamos a todos os autores que queiram publicar os seus conteúdos gratuitamente.

Se quiser ajudar-nos a divulgar a Bubok.Pt, pedimos-lhe que inclua um link para o nosso blog na sua lista: http://www.bubok.pt/blog/.

Visite a Bubok.Pt e, se tiver alguma dúvida, escreva-me para: marta.furtado[@]bubok.com

Zé Manel disse...

Cara Luisa Moreira, é curioso, tenho 61 anos, quase 62 e lembro-me de a minha mãe ter votado sempre...
Lembro-me das eleições para oa presidência em que o Delgado era candidato. E em 1969 e 1973, anos em que também eu votei!

T disse...

As mulheres podem votar desde 1931, mas com restrições várias que só foram extintas em 1974. Se a sua mãe tinha como grau de escolaridade o liceu ou licenciatura podia votar.
Também me lembro da minha mãe ir sempre votar ao lado do meu pai.

Zé Manel disse...

Leu o que "T" esvreveu, Luisa Moreira?

Luisa Moreira disse...

Sr. Zé Manel,

Felizmente que a Sr.ª sua mãe, era, é, licenciada e, podia votar, a minha mãe tem a 4ª classe e, via o meu pai sair para votar sem ela. É na diferença de instrução que se encontra a capacidade de votar?

Também eu vi o meu namorado, hoje meu marido, ir votar sem a minha pessoa, por rebeldia abandonei o Liceu Maria Amália, só regressei aos estudos em 1973 que deu num bacharelato, mas entretanto deu-se o melhor que podia acontecer, o 25 de Abril.

Era isto que queria saber com a sua insistência?

Já que votou em 69 e 73, espero que o faça em 2009.

Luisa Moreira

Luisa Moreira disse...

T.


Grata pela sua explicação e, por me rememorar o porquê de algumas mulheres não poderem votar.

Abraço
Luisa

T disse...

Li algures que os republicanos eram anti-voto feminino e que Salazar o defendia, por considerar que as mulheres eram mais conservadoras que os homens.

D disse...

Impressionamente como ainda hoje se confunde falta de educação, seja porque motivo for, com falta de informação...
O voto é um dever civico e, estando eu numa democracia, como a esmagadora maioria das nações mais evoluídas do planeta, tenho a opção, sem ser alvo de criticas, de pertencer à abstenção.
Serei abstenção, porque não me revejo nos partidos, nas pessoas e no sistema, ainda cheio de vicios e complexos de tempos que nunca deveriam ter existido.
É chegado o momento da 4ª Republica

gin-tonic disse...

Sim, é verdade que há um sentimento de desencanto, tanta esperança perdida, sonhos desfeitos. Mas a abstenção, cara(o) viajante "D" deste blogue, entende-a como uma cobardia. Pooderá fazer do voto o que muito bem entender - ainda se lembra de ouvir dizer para se escrever uma frase revolucionária,outra coisa qualquer - mas terá que existir o dever de, em dia de eleições, se dirigir à assembleia de voto e tentar escolher uma estrada mais suave para o futuro. Por tanta abstenção e desintresse chegamos a esta situação.
Aos filhos sempre disse que não se preocuparia em saber em que quadrado, do boletim de voto, punham a cruzinha, mas sempre exigiu que fossem votar. E lembrou-lhes que para que esse direito exista, portugueses estiveram presos, muitos passaram privações várias, outros morreram. É disso que se deverão sempre lembrar quando num qualquer domingo houver eleições.
Este comentário é um pouco emotivo, acima de tudo não pretende ofender ninguém, nem dar lições a quem quer que seja. Mas não ficaria bem se não o escrevesse.

clara disse...

Sim, nunca deixei de votar.
A história do Presidente-Rei é paradigmática e acabou mal.
Às vezes digo que não voto, mas depois, à última hora, não deixo de cumprir.
Julgo que, mesmo quem nõ o quer fazer, deverá ir à urna e votar em branco. É uma questão de civismo.
Porque não se vê alternativa. É esta democracia ou...
Parabéns pelo post.

Zé Manel disse...

Dª. Luisa Moreira e restantes participantes, é com alegria que vejo reacção às minhas palavras.
Essa foi uma das razões do meu comentário.
A outra foi afirmar que, embora o sistema democrático permita que qualquer gato sapato vá lá por o voto, eu não concordo.
Pronto, acho que nem toda a gemnte tem capacidade para votar em consciência, e, confessem, o voto de um drogado analfabeto que anda a arrumar carros ( e considero um analfabeto alguém que tem o 12º ano das Novas Oportunidades) vale tanto como o voto de alguém consciente daquilo que vai fazer.
Mas é a democracia e democraticamnte exprimo a minha opinião.
Sei que não concordam, mas... eu também provavelmente não concordo com a vossa.
E, sabem que mais???
VIVA A LIBERDADE!!!