[ Vox populi vox Dei ]

2009-09-12

O BALLET de DEGAS







Faz-nos muita confusão as pessoas pouco saberem e 'explicarem-se' tanto! Ao contrário do habitual que é a discussão sobre 'football', há dias ouvimos uma troca de opiniões sobre autores clássicos de pintura e, esticámos os tímpanos para apreciar o tom de um discurso diferente daquele do das quatro linhas, mas depressa nos apercebemos da confusão de nomes e estilos, pois alguém já tinha visto um original de Salvador Dali na parede de um 'Snack' lá do bairro, José Malhoa não tinha sido pintor pois era o nome do Café lá do bairro e, Monet não foi pintor,... mas o cérebro da construção da CEE!
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Lembrámo-nos ainda de, em tempo, num Café, durante a exibição televisiva de um concurso, ter ocorrido uma onda de pareceres sobre Edgar Degas que, de estilista a músico... percorreu uma série de vocações artísticas... menos a das artes plásticas.
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Edgar Hilaire Germain De Gas, ou Edgar Degas, pintor, gravador e escultor francês, um dos mestres da Escola Impressionista (1834-1917). Foi o pintor da vida moderna e procurou nas suas telas e 'pastéis' representá-la em plena acção, com as suas dançarinas, interiores de oficinas (engomadeiras, modistas), etc. [é o perfil que as Enciclopédias dão!]
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Porém, a Edgar DEGAS, só as atmosferas parecem preocupar. Se bem que estivesse ligado ao grupo impressionista, participando nas suas exposições conjuntas, mantém claras diferenças, ao ponto de preferir o estatuto de independente ao de impressionista. Destaca-se pela dedicação à figura humana em vez da paisagem, preferências pela luz artificial e dirigida, em vez da pintura ao ar livre.
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Pierre Francastel, que estabelece uma relação entre Degas e os impressionistas, afirmou: «Se bem que ele vire as costas à luz do dia, atrai-o a luz dos projectores, e chega desta maaneira aos resultados de Manet: a dissolução da forma»!
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Como independente no impressionismo, o artista chegou a afirmar: «Está muito bem copiar o que se vê, mas é muito melhor uma pessoa desenhar o que vê apenas na sua memória. É uma transformação na qual a memória colabora com a imaginação, em que apenas se reproduz o que nos chamou a atenção, ou seja, o necessário.»
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De personalidade fechada, mas muito observadora, mais retratista dos seres humanos do que da natureza vegetal, DEGAS marcou o início da sua independência do grupo impressionista quando esculpiu em cera, "A pequena bailarina de 14 anos"(...)
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Ao exibir a escultura, deixou em choque os colegas e o "jet set" da época! Não suportaram a imagem de cera que encerrava uma enorme carga de reprovação da alta sociedade, na denúncia do alheamento aos desfavorecidos. A bailarina representava uma dançarina da Ópera que Degas conheceu, e convenceu a posar para ele, desde os esboços iniciais até à 'clonagem' de cera! De familia miserável,... uma irmã prostituía-se para sobreviver... destino igual que a bailarina prosseguiu... também,... para sobreviver!...
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Escultura carregada de significado acusatório,... através dela... denunciou a indiferença dos 'grandes' pelos 'pequenos'...
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Chocou o mundo!... mas pô-lo a reflectir,... como um bem nascido [ele era aristocrático] se atreveu a provocar a sociedade!
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Foi rejeitado,... mesmo humilhado,... mas a atitude... aos poucos... conseguiu mudar a visão conservadora e eclética do mundo, nunca deixando de agitar e tornar públicos os problemas sociais. Anos mais tarde, a famosa escultura tornou-se um ícone desta forma de Arte.
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É esta a imagem que nos chegou aos dias de hoje, dando a impressão de que DEGAS fez um passeio tranquilo pelos tempos da sua existência. Estivémos sempre a vê-lo, através de fontes de compêndios e enciclopédias, ao género de aventuras e desventuras de um bem intencionado.
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Mais ou menos ficou aqui o registo, de que o artista sofreu represálias pelas suas atitudes solidárias! As classes sociais mais favorecidas nunca gostaram de que lhes apresentassem problemas de indigências, para além da oportunidade de poderem exercer a caridade!... o que reconforta a alma,... e dá estatuto de benfeitor ! Que seria dos privilegiados sem pobres,... para poderem praticar o bem!?
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Vejamos no ano da sua morte, em 1917, como as pessoas achavam Degas,... e o suportavam com muito custo... e faziam o que era possível para lhe ofuscar a imagem até aos limites do desprezível.
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Uma peça de reportagem com origem de Paris, descrevia nos seguintes termos, sobre a recente morte do pobre Degas,... já muito velho,... quase cego, na sua casa de Montmartre. Pobre, porque de facto o foi durante toda a sua vida, carente de alegria de alma ou felicidade que encerra a doçura de viver. Era um homem azedo, de relações cortadas com a sociedade do seu tempo, de mal com todos e de mal consigo mesmo, semeando a torto e a direito sarcasmos crueis de onde nasciam ódios, revoltando-se contra a hipocrisia dos homens, rindo amarelo da comédia da vida, criando em torno de si uma barreira de respeito talvez um pouco, mas também de muita inimizade e de terror.
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Terrível homem, mas um grande artista! Os frequentadores de museus conheciam-no pouco. Havia uma pequena parcela da sua obra no museu do Luxemburgo! Raras vezes expôs, muito embora uma das suas telas tivesse sido vendida por uma soma fabulosa! A celebridade veio-lhe sem que ele a tivesse procurado, e não era excessivo dizer que a recebeu de mau humor!
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Degas sabia pintar, admitiam, aprendera numa grande e boa escola: na dos antigos, os verdadeiros mestres. Percorreu a Itália tendo adquirido apenas perfeição!... quanto a atender às graças da natureza, nada!... desdenhava tal e, preferia as pequenas dançarinas dos seus quadros mais célebres, escleróticas, sem mocidade, sem elegância, pobres fantoches armados para a ilusão da ribalta, verdadeiras por certo... mas de uma verdade atroz.
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Degas não era sociável, e isso criou-lhe inimizades!... aqueles que ele magoou com as suas 'bondades', não lhe perdoarão nunca, porque essas coisas não se perdoam...
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Mas,... a posteridade,... que não terá conhecido o homem, poderá à vontade, largamente, admirar o artista.
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O articulista desta matéria carregada de rancor, terminava a exposição admitindo alguma indisposição pelo facto de em Paris,... naquele dia, o céu não estr azul,... cor de chumbo,... e o frio começava e o carvão faltava a pobres e a ricos... era a miséria dos tempos... era a I Guerra Mundial!
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Terminava filosofando com a seguinte' máxima': «Porque está escrito que a única igualdade que de vez em quando ainda é possível neste mundo, é a igualdade na dor.»
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Como convém lembrar, EDGAR DEGAS tinha acabado de falecer não havia muito tempo e, já de provecta idade. Mesmo assim,... ainda despertava desdém que chegasse! É notório que fez uma vida remando contra as correntes sociais,... achando-se desencontrado naquela época de desprezo por direitos, ou quaisquer conceitos humanitários!... ressoa ainda, o" belo" pensamento:
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IGUALDADE,...
SÓ NA DOR!
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[DEGAS teria hoje cerca de 170 anos se fosse vivo; bem poderia fazer outra estátua, pois há ainda muito caminho a percorrer!... No entanto, a dançarina de cera, após a sua morte, foi moldada em bronze, e está num Museu]




1 comentário:

Zé Manel disse...

Mais uma lição de cultura do meu amigo César!
Parabéns renovados!