[ Vox populi vox Dei ]

2009-09-02

NATUREZA - VIVA




Autor do quadro: V. MAIA
Artista «deficiente»; o motivo foi pintado com a boca.
Óleo sobre tela; 40x30 cm
Data: 1992
A Obra foi exposta em: "Atelier e Galeria de Arte" a céu aberto na Rua Augusta - Lisboa.
Nome da Obra: {O MAR -"Natureza-Viva"}

[Colecção particular do autor do blog.]




(...) a isenção do artista especial à sociedade e ao mercado de trabalho, vencer, superar, alcançar a meta... por seus próprios méritos! Trabalhos revestidos em mimos de Natal e tantas outras inspirações (...)

Estas, são palavras da "APBP - Associação dos Pintores com a boca e os pés"! A UNICEF também colabora em termos de solidariedade e, particularmente no Natal, lá aparecem postais destes artistas extraordinários que, segurando os pincéis com a boca ou com os pés, criam maravilhas que gente ' apta', não consegue fazer com as mãos.

Perguntei ao artista, enquanto lhe pagava o quadro acima reproduzido em fotografia, se estava inserido em algum desses projectos solidários... coisa que lhe permitisse projectar mais longe a sua Arte!... riu-se!... e disse que nunca tinha tido 'notícias' dessas organizações humanitárias(...)
Se calhar, é por isso que, procuro ir ao encontro directo com estes produtores da beleza!

O mar, espelho do céu, é o reflexo do além, do desconhecido, que obcecou muitos poetas antes de Fernando Pessoa. Baudelaire, foi também um desses Poetas.

A busca da novidade, teve para Fernando Pessoa um efeito semelhante ao da explosão do 'eu',
que também se encontra em Rimbaud.

Poeta à deriva, Pessoa, pela boca de Álvaro Campos corre para a dissolução que o Mar lhe proporciona, e diz:


« Não sei que destino ou futuro compete à minha
[angústia sem leme;
Não sei que ilhas do Sul impossível aguardam-me
[náufrago
Ou que palmares de literatura me darão ao menos
[um verso.»



Para Álvaro Campos, o mar, desencadeia de modo ainda mais intenso que a noite, um percurso psíquico dissolvente, do qual é sempre difícil, senão impossível, recuperar-se. É o que se verifica na «Ode Marítima»!

Aqui, as imagens que o mar desencadeia, são de forma violenta: as carnes, os ossos, os nervos, os olhos arrancados, as feridas, a morte antegozada.

Por ser assim, porque na " Ode " o Mar sai misturado com o Sol não se encontrando um cosmos refeito a partir de um caos inicial, ou iniciático, tentarei poupar o espírito do meu Pintor V. Maia, também atormentado por desalento na sua 'aparente' deficiência e, então, resolvi trocar o poema que lhe queria oferecer como legenda da Natureza-Viva que pintou, pelo que passo a expor pela boca do Velho do Restelo e do Gigante Adamastor que rosnou, o que Pessoa num dos poemas de "Mensagem" [na ortografia original] mencionou ser:


«MAR PORTUGUEZ»


Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão resaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!


Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abysmo deu,
Mas nelle é que espelhou o céu.


A água é o lugar onde o real se desfaz e deixa de se ver,.... é o lugar onde a identidade se perde fragmentada definitivamente... talvez por isso,... nunca mais reencontrei o Artista,... o Maia
que sabe pintar quadros com a boca... que tem uma peculiar diferença de outros que têm mãos:
o Maia... pinta e beija, a Arte
que lhe sai da Alma!

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