[ Vox populi vox Dei ]

2009-09-20

MARÉS DO DESENCONTRO




.[Pela ordem da disposição das imagens publicadas temos: Jean Daniel, o seu livro, e o convite - que recebi e não mereci - para a cerimónia do lançamento da obra - «com Camus - Como aprender a resistir»].
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Foi nos anos sessenta o meu primeiro encontro com Albert Camus. Não pela ordem editorial,
mas,... que importa?... pela maneira como se proporcionou!... a ordem era arbitrária, como arbitrária era a possibilidade de se ter acesso a obras de interesse intelectual, 'naturalmente' sonegadas,... reprimidas,... proibidas (...)
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O primeiro contacto, por incrível, apesar de todos os crivos implementados, foi através de uma colecção em francês, "Recherches Internationales- à la lumière du marxisme"!
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Les Éditions de la Nouvelle Critique, em Paris, enviaram-me o livro «Destins du Roman» e, entre análises sobre Moravia, Faulkner, Joyce, Hemingway,... foi-me dado identificar-me com Camus, pela mão, inteligência e a escrita de Samari Velikovsky.
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Trata-se de um aturado estudo sobre "La Peste", obra d'Albert Camus... datada de 1947, em que Velikovsky considera sem rodeios, tratar-se do livro que encerra a chave do pensamento de Camus! (...)
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Outra,... entre tantas e em tão pouco tempo que a vida - que ele amava sobre todas as coisas - lho permitiu, temos "O Estrangeiro" [1942], que revelou e consagrou o filósofo pensador como um «clássico» da literatura moderna.
Romance considerado estranho, desconcertante, sob a sua aparente singeleza estilística, nele se joga o destino de um homem que viveu a sua vida segundo a sensibilidade.
Jean-Paul Sartre prefaciou-o.
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Afinal,... quem foi... Albert Camus?
Nasceu na Argélia, em Mondovi, província de Constantina, a 7 de Novembro de 1913, e morreu num acidente de automóvel em Janeiro de 1960 ao regressar a Paris de uma pequena digressão pela província.Tinha o bilhete de comboio no bolso, e 'comprou' a morte numa boleia de amizade!
Marés de coincidências,... e encontros com desencontros (...)
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Licenciado em Filosofia, a doença impediu-o de levar mais longe a carreira de professor. Entrou para o jornalismo. Com a invasão da França ingressou na Resistência, e a Libertação encontrou-o redactor do Jornal Combat.
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O seu nome subira entretanto ao primeiro plano das Letras mundiais. Em 1957 sobreveio a consagração do Prémio Nobel da Literatura.
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Para além das obras editadas... é uma fonte de pensamentos, guias de vida e de conduta. Este pequeno trabalho de blogue, não se compadece com a vontade de prolongar a escrita sobre a imensidão de madrugadas e anoiteceres, que Albert Camus nos legou !(...)
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O jornalista JEAN DANIEL [em cima retratado], fundador do "Le Nouvel Observateur", de 88 anos de idade, concedeu uma entrevista na sua casa de Paris, no mês de Março p.p., na pessoa do Dr. Mário Soares que, apresentou essa peça, em gravação no Canal Um da RTP, sobre um alargado tecer de conhecimento da vida e obra de Albert Camus.
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É testemunha viva e companheiro de lutas do homem... Camus, da sua obra, e modus vivendi!...
Escutá-lo é como se estivéssemos a ouvir Camus , os seus amigos, familiares, enfim, toda uma vivência invejável digna do Olimpo dos grandes clássicos da Cultura, e da coragem de lutar contra totalitarismos!... sem tréguas,... numa época de heróis genuínos!...
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Assim,... Jean Daniel decidiu deixar para a posteridade, um livro que ficará como 'Manual de Resistência'!... um dos verdadeiros tesouros que, dizem, os Templários terem escondido algures!
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Jean Daniel, já no Outono avançado da sua existência, fez bem em deixar este testemunho como
Guardião do Templo da Liberdade,... que o é! (...)
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Repete as quatro obrigações que todo o jornalista devia observar e, infelizmente, há muitos a falhar, porque têm de se prostituir para sobreviver!
(...)
«Reconhecer o totalitarismo e denunciá-lo. Não mentir e saber reconhecer o que se ignora. Recusar dominar. Recusar sempre, seja qual for o pretexto, todo o despotismo, mesmo provisório.»
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Porque será,... difícil... seguir estes procedimentos ?
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Não será de todo impossível!...
(...) é aprender... a resistir,
com Camus...!
[eu, vou ler...!]



4 comentários:

teresa disse...

... e tendo acabado de ler agora mesmo o post, ficou também o gostinho por tal leitura. Obrigada, César.

Luisa Moreira disse...

Tive o prazer, de estar no lançamento do livro e, de conhecer pessoalmente o autor do livro. Só não prometo a leitura rápida do mesmo, porque não consigo ler várias coisas ao mesmo tempo. Mas deixo aqui uma proposta, que deixemos depois, aqui, as nossas opiniões., como de uma "Comunidade de Leitores" se tratasse.

Abraço

Luisa

Anónimo disse...

Luísa Moreira,
É um repto muito interessante e estimulante, pensar recriar o espírito da tertúlia que anda por aí, errante e cristalizado.
Quase tudo hoje em dia fica sem sequência... esquecido... e é pena!
As pessoas recusam pensar, desenvolver ideias, ouvir os outros!... dá-lhes sono... abrem mesmo a boca... bocejando e, olham para o relógio, pois é hora da novela...ou da bola.
Bolas!
Garcia Prince

Luisa Moreira disse...

Garcia Prince,

Tenho estado presente, por diversas vezes na Comunidade de Leitores da Livraria Almedina e, não vejo gente com sono nem a olharem para o relógio. Bem sei que os presentes nas sessões, vão porque lhes agrada, logo só participa nestas tertúlias quem tem gosto pela coisa. Contudo não deixo de concordar consigo, que há muita gente mais ansiosa pelo fais divers do que pelas coisas que as tornam maiores. Com isto quero dizer-lhe que há sempre excepções e, ainda bem, caso contrário estávamos muito mal.

Diga-me Sr. Garcia Prince? não vê nesta minha proposta um caso a ponderar?

Cumprimentos,

Luisa Moreira