[ Vox populi vox Dei ]

2009-09-10

« A CASERNA DA ASFIXIA »



[In: Revista Única; Expresso nº 1666 de 2004.10.02]
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"OS MALEFÍCIOS do TABACO" é uma pequena peça do dramaturgo Anton Tchekov (1860-1904), na qual uma personagem razoavelmente anedótica, embora com importante estatuto na Sociedade, profere uma palestra insuportavelmente edificante e de uma hipocrisia risível sobre os horríveis prejuízos que o consumo do tabaco provoca à saúde e à ordem social e moral.
Ora, como o Homem tem o livre arbítrio, e considera que cada coração seu Mestre, há quem da essência da mensagem da palestra apenas extraia e adopte o perfil anedótico do Orador, e continue a fumar, contrariando o propósito do monólogo do escritor, que exercia medicina de dia, e dedicava as noites à escrita.
O Dr. Alberto João Jardim recria na Ilha da Madeira uma espécie de base militar onde se instalou a verborreia, a ofensa gratuita, a comunicação em tons grosseiros... e tudo o mais que é típico e natural entre muitos dos homens fardados das linhagens castrenses! (...)
Mesmo nos tempos censórios da opinião, a dissoluta linguagem e muitos outros comportamentos rudes, esgalha pessegueiro e rascas, era vocabulário libertário autorizado, considerando a identificação lexical com virilidade no combate, e no esmagamento dos sentimentos dos' inferiores', pelo poder hierárquico dos 'superiores', utentes de reluzentes galões.
Contudo, em certas ocasiões abriam-se as portas de armas dos quartéis às mulheres mães, irmãs, namoradas e outras,... e outros... acompanhantes civis, para assistirem às cerimónias do juramento de bandeira, testemunhando o compromisso dos mancebos num casamento algo virtual, mas obrigatório, em que o militar deixava de ser proprietário da sua vida, empenhando-se defender a Pátria a troco dela, acompanhada de todos os sofrimentos que se oferecessem necessários. Naqueles dias, havia um esforço colectivo para ninguém dizer palavrões, nem ter atitudes menos correctas. Era a boa imagem da instituição militar que estava em causa, e tinha que passar com distinção.
Esta textualização prende-se para entender ou não, as afirmações de Alberto João Jardim prestadas desde sempre, e também ao Expresso em 2004, tendo declarado que aplicava na vida política, as técnicas apreendidas no seu tempo do serviço militar, onde adquirira especialização na acção psicológica, usando os conhecimentos com estilo!... assim se afirmou... tanto na escrita... como no terreno.
Não será de todo descabido o que se disse no início deste texto, ao ironizar com a imagem da Ilha da Madeira identificada com uma espécie de base militar! Afinal, o Dr. João Jardim há muito que deixou o subentendido de que é o "Comandante da Unidade", o PSD a ' Arma', e os cidadãos os seus 'soldados'!
Afirmou ainda outra coisa curiosa: "Clausewitz dizia que a política é a guerra sem armas! Para ser um político a sério, tenho de raciocinar em termos militares"!! (...)
Trata-se da reedição de um «Ganso Selvagem»... e 'selvagem'... talvez... no seu melhor [pior]!
Parece não ser de admirar a utilização de expressões ordinárias atiradas ao ar, sem qualquer pudor e de sorriso de orelha a orelha! Até é um ' militar ' diferenciado!... diz palavrões em inglês!
Mas, com uma senhora dentro do quartel, tal como nos dias de juramento de bandeira, MFL deveria ter sido poupada aos ecos daquele impropério...
Só falta dar outro grito de Ipiranga... e berrar a plenos pulmões: " Amem-me,... ou deixem-me!...
Por mim,... dispenso ambientes 'dialogados' em linguagem insultuosa e na versão do reles e baixo latim - mesmo traduzido em inglês -, vulgar nas casernas asfixiantes, rudes, e bestas!
Já conheci casos do género,... que acabaram a julgar...
que eram o Napoleão! (...)

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