[ Vox populi vox Dei ]

2009-08-05

RÉQUIEM POR UM POMBO


«Poema para um Pombo anônimo»




Esta é a foto, texto e poema da autoria de GUTO [http://lotusthesound.blogspot.com] nosso irmão brasileiro de Salvador, Bahia, Brasil:


« Uma pessoa como outra qualquer, mas que nem por isso deixa de ser única, também como as outras pessoas quais quer que estão por aí à nossa volta. Acredita no amor, na vida, na morte e na arte. »


Consultando o Blogue 'LOTUS, THE SOUND !!!', identificámo-nos com o perfil que acabo de citar, e com a obra digna de ser lida,... a literatura de Guto.


Encontrei o Lotus the Sound aleatoriamente quando, na Internet, pesquisava algo de poético que emoldurasse condignamente a mini-cerimónia que protagonizei depois de ter encontrado um pombo morto sobre o asfalto (...)


Pedi-lhe autorização para reproduzir o seu trabalho e, de pronto, respondeu-me afirmativamente!


Reitero os meus agradecimentos, e passo a transcrever a 'peça' que, para além de poesia, tem ainda carga moral e filosófica como valor acrescentado:

- «Pode, a princípio, parecer deveras piegas escrever um poema para um pombo morto. Pois bem, é com esse tipo de pensamentos que paramos de olhar nos rostos uns dos outros e esquecemos que em muitos cantos da cidade poeirenta há não só pombos mortos, mas indivíduos moralmente mortos, e é disso que esse poema fala em sua real essência. 

O pombo aqui nada mais é do que uma representação para a legião de imundos que habitam qualquer cidade grande e ajudam a criar esse enorme panorama de contrastes. 

Diferenças e indiferenças: "Nada é mais assassino do que a ignorância." »




VERSOS MORIBUNDOS
(Vozes da Sarjeta) Guto
I
As ruas não mais irradiam a serenidade
Donde o pombo tombou podre ante a noite.
Os vermes que lhe brotam do seu minúsculo ventre
Querem me oferecer suas respostas pegajosas.
Ninguém os bem quer, por isso devoram
Toda carne ao alcance da sua fúria.
II
Minha serenidade tombou com o pombo
E a sua carne senil igualmente apodreceu.
Por isso penso em minha alma que,
Com asas obscenas, como as do morto pombo,
Também não pode para os céus voar,
Para olhar para essas milhares de faces
Apáticas nesse desespero decadente
Sob o qual nos mergulhamos
Dia a dia em mediocridade e aceitação religiosa.
III
Juntos, devoramos o corpo inerte do pombo;
Em teu bico fúnebre não mais brotam cantigas quais quer.
Nada que lembre a altivez áurea do outrora embriagado.
E só vejo à sua volta o barulho estéreo se chocando
Com a estupidez da cidade indecisa.


[Publicação autorizada pelo autor: Guto. (www.lotusthesound.blogspot.com]

Em data recente postei no «Despassarados» o quanto me incomoda o desprezo dos automobilistas pelos animais que, vítimas de atropelamento, tombaram no asfalto e são 'desportivamente' cilindrados pelos pneus diligentemente apontados aos pobres 'bichos' que, não bastando terem perdido a vida, ainda servem de alvo a atingir.

Há dias, quando circulava na Avenida Dr. Mário Moutinho [zona de S.Francisco Xavier- Lisboa], deparei-me com um pombo caído no meio da via, já morto. Os carros' espezinhadores' eram mais do que muitos! Então, encostei, e dirigi-me na direcção do pombo para o tirar do meio da rua. 

Levei buzinadelas, pois estava a estorvar os donos da estrada que, ao volante, são muito mais do que isso: são "ditadores transtornados" que circulam consumindo mais adrenalina do que gasolina e debitando mais bílis do que CO2 ,... faiscando ódio [ou raiva?] pelos olhos, contra tudo o que lhes aparecer... no seu "horizonte" alcatroado ...
Decidi filmar a cena que aqui apresento:

video


Em Continentes diferentes, sem nada saber um do outro, Guto e eu, fizémos um RÉQUIEM em équipa !

Ele," tratou" da parte espiritual... os índios, acreditam que os animais também têm espírito! Pessoalmente, não sendo índio, através do muito que já estudei - embora nada saiba - sobre Teosofia, leva-me à ideia de que tudo o que é vivo... tem um lugar lá... nas "terras das grandes caçadas"!... incluíndo as plantas!!... que também têm aura!... isso mesmo... a luz do espírito... e, às cores!... mas, invisíveis à vista 'desarmada'!

Pois bem,... Guto levantou a grande "questão" que foi o Pombo!... algo metáfora... e bem denunciada!... Subscrevo tudo!

Eu... tratei da parte 'profana': que foi dar-lhe uma sepultura mais decente do que a «Cremação» no Forno do Inferno das Estradas...

Bem haja! Guto.

11 comentários:

Ornitorrinco disse...

epa, este post é só um dos melhores que já li, com o video incluído!
parabens!

José disse...

Amigo César, permita-me que o trato
assim.
Não me vou alongar muito no meu comentário pelas razões que já sabe.

Quero apenas dizer isto, este post
faz a gente pensar, e só um verdadeiro ser humano faz aquilo que o senhor fez.

obrigado

um grande abraço

Luisa Moreira disse...

César,

Apreciei muito o seu gesto de Homem sensível! Fiquei para aqui a pensar na coincidência, é deveras curiosa!

O poema diz muito, faz pensar...! Aliás voce diz e muito bem: O pombo aqui nada mais é do que uma representação para a legião de imundos que habitam qualquer cidade grande e ajudam a criar esse enorme panorama de contrastes. Diferenças e indiferenças. "Nada é mais assassino do que a ignorância." »
Abraço

Donn disse...

Obrigado pelo poema escrito e pela a ação feita!

Elba disse...

É incrível como estando um aqui no Brasil e outro do outro lado do mundo, em Portugal, ambos conseguiram captar e escrever sobre a essência do mesmo sentimento. Isso só prova que, apesar de estarmos em continentes tão distantes, passamos pelas mesmas situações no dia a dia, estamos vivendo em sociedades de indivíduos moralmente mortos como citou César, vivendo vidas tão parecidas, sendo egoístas, insensíveis a realidade a nossa volta, indiferentes com a vida e com a morte, seja ela humana ou animal.
Parabéns aos dois escritores, Guto (Lótus The Sound) e César Ramos (Alfobre), que expressam tão bem tudo o que deixamos de notar por nossa própria ignorância.

“Em Continentes diferentes, sem nada saber um do outro, Guto e eu, fizémos um RÉQUIEM em équipa ! Ele," tratou" da parte espiritual... Eu,... tratei da parte 'profana', que foi dar-lhe uma sepultura mais decente do que a «Cremação»no Forno do Inferno das Estradas...” Não poderia deixar de citar parte tão bem elucidada e que explana para mim tão claramente este sentimento de inquietação.

T disse...

Eu é mais tirar pombos vivos de dentro de casa ou os meus gatos estralhaçam-nos. Há dias andava aí pela casa com ar de proprietário e nem por nada queria ir embora. Até que pus migalhas no parapeito e ele voou para a liberdade.
No Camões estava eu na esplanada do quiosque da Portas e só via pombos doentes e em muito mau estado. Dizia-me a minha sobrinhita,eles estão doentes porque ninguém trata deles?

Anónimo disse...

BEM HAJA, César, pela partilha de uma acção tão humana e sensível.
Vim aqui pelo "sintra do avesso" e, ainda bem. Aqueceu-me a alma.
ereis

Rita disse...

Esta imagem era desnecessária! :-( Agora não a consigo tirar da cabeça. Ao contrário de muita gente, eu gosto muito de pombos. Vi um documentário sobre estes e fiquei fascinada! Admiro-os pela fidelidade e dedicação eternas ao seu parceiro!

clara disse...

Tocante, muita sensibilidade. Obrigada pelo testemunho.

Guto disse...

Olá César,

como vai? A postagem ficou mas tocante do que eu poderia imaginar. Sinto-me emocionado de poder coparticipar desta homenagem.

Um abração e até breve.

Teresa disse...

César
Sabe que o meu post, em grande parte,era irónico!Não tenho nada contra pombos, ou qualquer outro animalzinho. Como o César sabe. No entanto, preocupa-me a sujidade que espalham pela cidade. Toneladas de excrementos são toneladas de excrementos!
Bjs