[ Vox populi vox Dei ]

2009-08-18

JOSÉ TAGARRO - Pintor


Num dos melhores blogs da nossa «blogosfera», li uma denúncia que me estarreceu e envergonhou, na qualidade de português que faz parte dos privilegiados que se 'orgulham' de saberem ler, escrever e contar:

José Tagarro, notável pintor e desenhista, está actualmente votado ao esquecimento e, cumpre-nos combater esta amnésia unindo esforços na luta pela reabilitação de um dos grandes, entre os melhores artístas plásticos do início do Século XX , da 2ª geração de modernistas.

Da linha artística de Almeida Negreiros, volatilizou-se nos tempos, levado pela Senhora vestida de negro que, armada de foice, ceifou-lhe a vida aos 29 anos como se já tivesse cumprido a sua missão terrena. Sem pré-aviso, a Morte desceu sobre o seu estro e raptou-o do convívio humano, insigne companheiro dotado da tanta expressão que era suposto continuar a melhorar com Arte o planeta que Deus nos legou, depois da lenda da' Génesis'.

A mesma divindade que a crença, a ingenuídade popular ou o temor exacerbado afirma bajuladamente que é entidade infalível, que escreve direito por linhas tortas, mas... quantas vezes, e esta foi uma delas, terá escrito direito, mas com péssima caligrafia ao enviar a sua tenebrosa torcionária.

Em cima está exposto o Auto-retrato do Artista, com dupla representação. A secção direita da composição é ocupada com o retrato a óleo. À esquerda é representada, em traço linear de extremo rigor, a imagem que o artista estaria a ver reflectida no espelho hipotético/observador e onde convergem os olhares de ambas as representações. Jogo anacrónico concretizado entre os doi universos, o do Desenho e o da Pintura, em que se moveu a prática do artista, com reforço evidente ao primeiro (desenho).
*Obra exposta no Museu Nacional de Soares dos reis [Medidas: altura-62 cm; largura-79 cm; data: 1929; Técnicas: Pintura a Óleo sobre tela]*
Notável pintor, nasceu em 30/03/1902 no Cartaxo, e morreu em Lisboa a 12/07/1931.
Mostrando vocação para as Artes, a família levou-o para Lisboa fazendo o antigo curso preparatório de desenho e Pintura na Escola-Oficina nº1, da capital.

Ingressou na Escola de Belas-Artes de Lisboa a 4/10/1919. Inscreveu-se nos cursos de Pintura e Escultura mas parece ter desistido deste último pois só se encontram registos de lições que lhe foram ministradas por Columbano e Carlos Reis. Enquanto seguia a sua carreira escolar, revelava-se, para o grande público, como um desenhista cheio de vigor e personalidade, ilustrador de merecimentos invulgares e pintor forte e original. A sua extraordinária sobriedade e um trabalho probo e incansável grangearam-lhe, em breve, renome e consideração geral da crítica e entre os seus colegas que o estimavam também pelas suas excepcionais qualidades morais e de carácter.
Colaborou com relevo em Civilização, de Ferreira de Castro, Seara Nova e Ilustração, Magazine Bertrand e Voga, direcção de João de Sousa Fonseca, além de muitas outras revistas e livros do mundo da arte e das letras, ilustrando na sua expressão Modernista, e dando alma ao corpo dos textos dos outros, dizendo por imagens, as palavras ocultas dos escribas.
O famoso e lendário «Repórter X» teve a preciosa aliança do traço poderoso e moderno de José Tagarro, realçando e animando a prosa fluída do repórter, escritor e dramaturgo, considerado um 'globe-trotter' de todos os tempos dos anais do Jornalismo: Reinaldo Ferreira.
Expôs regularmente nos certames da Sociedade Nacional de Belas-Artes e realizou exposições individuais, muito elogiadas, em Lisboa e Porto, nos anos de 1928, 1929 e 1930. Também apresentou trabalhos de vulto na Exposição dos Independentes e Salão de Outono. Em 1929 viveu em Paris, onde se apefeiçoou notavelmente na Técnica e estudou com uma enorme entrega e aproveitamento os melhores mestres.
Foi principalmente um retratista vigoroso e de enormes qualidades, tendo a sua morte, ocorrida em circunstâncias muito penosas, após uma melidrosíssima operação cirúrgica no Hospital dos Capuchos, de Lisboa, causado enorme pesar nos meios artísticos, pelo que os seus colegas organizaram, em 1932, uma brilhante exposição retrospectiva da sua obra cujo catálogo foi prefaciado, num gesto de merecida justiça, pelo ilustre crítico de arte Dr. José Figueiredo, então Director do Museu de Arte Antiga [a que muitos chamam das Janelas Verdes], que era um dos seus mais sinceros admiradores.
Tanto valor em evidência numa existência tão preenchida e que se consumiu em tão pouco tempo de vida, chamou inevitavelmente as atenções das autoridades estatais da época - o Estado Novo - e, através do seu Orgão competente da chamada propaganda e apoio às inciativas artísticas e culturais - o S.N.I. - instituiu-se o « Prémio José Tagarro », um prémio anual de Desenho para o melhor trabalho apresentado.
De salientar que uma das publicações com que José Tagarro colaborava, a Seara Nova, era de ideias contrárias à Ditadura, postura que Tagarro privilegiava na Seara Nova, comungando nos mesmos ideais políticos! Apesar disso, o chamado Estado Novo honrou o trabalho e a sua memória - a de alguém que lhe era oposto intrinsecamente!(...)
Contadições dos tempos!... actualmente... é ignorado... ou... quase! De facto,... é vergonhoso!(...)
A Edilidade da sua terra natal - Cartaxo - recorda-o com o seu nome dado a uma rua, o seu nome a prestigiar uma Escola, e uma Galeria de Arte também com o seu nome e ... pouco mais...
O Museu de Arte Contemporânea expõe o busto de José Tagarro, saído do escopro do grande escultor Rui Roque Gameiro.
Poder-se-á pensar que todo este desfilar de referências é suficiente. Não o é de todo! Por cá, há a tendência de premiar compadrios na pessoa da mediocridade, ' medalhando-se' valores relativos em detrimento de valores absolutos como, José Tagarro.
Fala-se muito em Cultura e adjectivam-se discursos laudatórios que enchem enormes bolas de sabão, que logo se esfumam espalhando gotículas húmidas sobre almas artísticas muito grandes,... mas penadas,... e repletas de nada...
A zona do Cartaxo é muito bonita, terra natal de Tagarro, e é de louvar o esforço que lá se tem feito desdobrando-se em inicitativas para honrar e perpetuar um seu filho deste gabarito!
Porém, o Cartaxo é uma área geográfica diminuta para conter este Notável Artista de dimensão Universal... há que mover montanhas e fazer Justiça, pois José Tagarro não nos pertence!...
JOSÉ TAGARRO é ... "Propriedade"... do Mundo !...
É um" ícone" Universal! (...)











5 comentários:

T disse...

Fantástico e completíssimo post:)
Obrigada César:)

teresa disse...

... e é esta (opinião pessoal) uma das nobres funções dos blogs, reavivar memórias que, infelizmente, não são por outros devidamente destacadas.
Faço coro com a T nos agradecimentos.

Luisa Moreira disse...

Muito completo, acrescentou algo em mim.

Obrigada César

Fernando Grade (Poeta) disse...

Aplaudo o teor do texto pró-Tagarro. Com efeito, uma sinistra nuvem de olvido tem amortalhado cada vez mais a obra do grande desenhista cartaxense. É um gesto típico deste nosso país de anõezinhos interesseiros. Até um dia!!!...
Saudações pictóricas e literárias do Fernando Grade

Fernando Grade (Poeta) disse...

Aplaudo o teor do texto pró-Tagarro. Com efeito, uma sinistra nuvem de olvido tem amortalhado cada vez mais a obra do grande desenhista cartaxense. É um gesto típico deste nosso país de anõezinhos interesseiros. Até um dia!!!...
Saudações pictóricas e literárias do Fernando Grade