[ Vox populi vox Dei ]

2009-07-27

O "OLHAR" DE... MIGUEL TORGA

Miguel Torga 1907 - 1995


MIGUEL TORGA, pseudónimo de Adolfo Correia Rocha [médico], autodefiniu-se aos 27 anos de idade "Miguel" e "Torga"...

Miguel, em homenagem a dois grandes vultos da cultura Ibérica: Miguel de Cervantes e Miguel de Unamuno [filósofo e poeta espanhol anti-monárquico]. Já Torga, é uma planta brava da montanha com que, pelas suas características, teve afinidade; respeitando esta opção, a sua campa rasa de S.Martinho da Anta, tem uma torga plantada a seu lado, em honra ao poeta.

Para ele, nenhum deus é digno de louvor. Com capacidade de moldar o meio, controlar a Natureza mau grado as limitações enquanto bicho, muito embora nada mais do que ser humano e mortal, na opinião de Torga tudo isto, e mais ainda, fazem do Homem, o único 'ser' digno de adoração.

Sempre fugiu das élites pedantes, deu consultas médicas gratuitas a gente pobre, e é referido pelo povo como um homem de bom coração e de boa conversa.

Produziu vasta obra literária toda ela escrita clara como água cristalina mas, por isso mesmo, complexa de interpretação, como difícil é seguir os finos fios dos trabalhos da filigrana aurea, no trato com que distinguiu a língua portuguesa.

Não se consegue caracterizar Torga, e com rigor, na cena política. Antes do 25 de Abril [1974], sem dúvida foi um homem de grande vigor no combate ao regime instituído, dito de Estado Novo, Fascista, ou 'Regimen' de Salazar!

"Contemplado" com várias prisões, Obras literárias apreendidas,... viajou até Paris e conviveu com exilados políticos que lhe sugeriram que ficasse (...) assunto sempre recusado com o argumento de não se conseguir ajustar à ideia de se distanciar do seu país. Por isso voltou e, no regresso é preso pela polícia política e encerrado na prisão do Aljube.

Homem dotado de grande sentimento pátrio!.. porém,... Ibérista (assim, decidiu o pseudónimo)!

Aos 80 anos decidiu visitar o país todo, a China, a Índia... e, acabou por racionalizar: "Pareço um doido a correr esta pátria, e nem chego a saber por quê tanta peregrinação"; seria o reconhecimento de sentir a cidadania do Mundo com Portugal por Capital?... nunca lhe pude perguntar tal coisa....

Todos não foram demais para lhe aplicarem rótulos políticos! A estatura do Poeta convinha a qualquer força política
no sentido de o ter presente nas suas fileiras! ... mas, distante do Poder, impaciente com os políticos, era mais sensível à Ética do que a uma Ideologia, mesmo fraterna, mas disciplinarmente correlegionária....

O 25 de Abril, a par do sentido de libertação, trouxe-lhe desilusões, na medida em que desabafou que "a política é para eles uma promoção e, para mim, uma aflição".

Anti-europeísta "convicto", realizou que Maastricht há-de ser uma nódoa indelével na memória da Europa! «On Vrra!»

No dia 27 de Julho de 1970, em Coimbra, tomou nota no seu "DIÁRIO" e deixou o registo seguinte:

- Morreu Salazar. Mas tarde de mais para ele e para nós, os que o combatíamos. Para ele, porque não morreu em glória, como sempre deve ter esperado; para nós, porque não o vimos morrer na nossa raiva, na nossa humilhação, na nossa revolta. Viveu a frio conscientemente, envolto numa redoma de severidade gelada, a meter medo, e acabou por morrer a frio inconscientemente, numa preservada agonia amolecida, a meter dó. A doença desceu-o de super-homem a homem, e, a duração dela, de homem a farrapo humano. E, quando há pouco chegou a notícia de que se finara de vez, nenhum estremecimento abalou o país. Nem o dos partidários, nem o dos adversários. Para uns, a sombra definitiva do cadáver sobrepôs-se apenas à bruxuleante luz do ídolo; para os outros, o sentimento de piedade cobriu cristãmente o ressentimento sectário. A obra de domesticação nacional estava realizada há muito por uma tenacidade dominadora que utilizava apenas as qualidades negativas do português, e não tinha outra sabedoria do tempo senão a lição da rotina sancionada nos códigos do passado. A fome de aventura, a inquietação da liberdade, o alento da esperança, o orgulho, o brio, a alegria e a coragem - tudo fora sistemática e impiedosamente apagado na lembrança da grei. Daí que se não vislubrem quaisquer sinais de tristeza aterrada, e, menos ainda, de euforia redentora. A nação inteira passou, sem qualquer sobressalto, de respirar monotonamente com ditador, a respirar monotonamente sem ele.

[Miguel Torga Diário, vol. XI (Coimbra, 1973, pp, 96-97)].

O dia 27 de Julho de 1970 acordou com a notícia de que Salazar tinha morrido, e que, portanto, um dos mais ínclitos portugueses da História de Portugal, tinha deixado de viver, naquela manhã, às 9 e 15.

Oficialmente, foi decretado Luto Nacional .

Era uma Segunda- feira, tal e qual hoje, e completam-se 39 anos. De facto, muita gente desejava o fim físico de Salazar, mas, por sua vez, receavam o dia em que isso acontecesse, pois no imaginário popular existia a crença de que nessa altura aconteceriam convulsões de proporções incalculáveis ! Tipo apocalipse!... mas, nada disso aconteceu. Antes de morrer físicamente, já tivera o seu 'passamento' político. Era Marcelo Caetano que estava no seu lugar, "jogando" com as Estações do ano, acrescentando uma nova que foi a " Primavera " dele próprio [a marcelista].

O futuro não lhe deu razão, e provou-se que o povo tem de facto uma 'sabedoria' nata em horas de mudança, tudo esquecendo, e vira a folha ao canivete com a maior das displicências!

Admirador e apóstolo confesso do Professor Doutor Oliveira Salazar é o Historiador Dr. José H. Saraiva que, diz em todo o lado, e também o subscreveu in: Expresso Revista No. 1563de 12/10/02 « Votei no Soares, votei no Guterres que é meu primo afastado (...) O Cavaco é um pobre diabo (...) Foi a CIA que esteve por detrás do 25 de Abril».

E, continuou: " daqui a 500 anos, na História, porão lá o OTELO porque foi ele que 'arrancou' com a revolução; porão o Spínola, porque foi o primeiro Presidente e renunciou dramaticamente; porão o nome do Dr. Mário Soares, que é o homem da reconciliação da família portuguesa; porão o nome de José Saramago, porque ganhou o Prémio Nobel e... não porão o nome de mais nenhum!

Quer dizer: as únicas eleições que Salazar ganhou, e que foi no Concurso da Maria Elisa, da RTP, como o «Maior Português de Todos os Tempos», para o Professor, tal não tem a mínima relevãncia! ...Não terá o direito de vêr o nome inserido na História dos próximos 500 anos? E afirma-se assim... Salazarista??...

Mas, que« raio de democracia» é esta?!
Francamente !! (...)


















9 comentários:

César Ramos disse...

Curioso!... há 2 blogues [um de 'província' outro 'estranja'] q
republicam alguns destes meus posts e, os seus leitores, por 'tabela', vivem comentando!

Por 'cá'[onde será o 'cá'?...],o ZERO é mais redondo do que o NADA!

A "CRISE", da 'tinta','papel','imaginação', ou desdém... é um BICHO que TORGA não incluíu na sua OBRA!

Vou começar a remexer no meu 'gavetão' e a "publicar" o que lá está como 'discreto', pois seguramente ninguém vai "dizer mal"!... No comments!?...

César Ramos disse...

Haja alguém :)

S.f.f., que avise a drª Teresa,'residente' na Rua dos Dias que Passam... e Profª. em Sintra [a maçada de eu não ter GPS]:) - de que QUARTA FEIRA p.f., O Bardo e Trovador da dor, Leonard COHEN, canta em Lisboa.

O Tal que, como poeta lembra Lorca e é o maior lírico pop, incluindo Dylan.

Um típico literato JUDEU como Saul Bellow...

O Intérprete dos jovens com miolos,... dos 7 aos 777 anos...

Outra 'premonição' minha!... tudo ignorava, e 'desenrolei' a passadeira deste Espectáculo com dois posts de antecipação!

Serão coincidências? no "PARTISAN" digo que não 'aturo' coincidências...

aproveito oportunidades:)

'Farrá o favorrr'? :)
Merci :)

T disse...

Caro César:
Quer que eu avise a teresa é? :)

teresa disse...

Olá César,
agradeço a informação. Já sabia da vinda do grande Leonard Cohen e o dvd que sai amanhã também já está encomendado:)
Já há algum tempo que ando a fazer referências ao espectáculo, mas só em comentários. Virá a ser Nobel? Aguardemos...
A amiga T. teve o cuidado de me enviar o mail informativo.
Merci bien.

José Bernardino disse...

Hoje, 27 de Julho de 2007, a Pátria está de luto.
E nada mais digo.

Ornitorrinco disse...

O nome dele já está inscrito na história. Mas nunca da forma que os salarazistas e anti-salaristas gostariam. Não passa de mais um governante (ignorante) que nada fez ou contribuíu para desenvolver o país. Nada.

César Ramos disse...

Sai um 'prato' forte p'rá mesa do canto,... e aparecem os comentários!

Assim, está bem!... sem discussão, não dá 'pica' esgalhar conversa de muro das lamentações.

Miguel Torga na sua clareza objectiva parece ter dito tudo e, finando-se 'recentemente', o seu discurso mantém-se actual quanto a
partidários e adversários.

Hoje é fácil falar do 'nada'!... mais a mais, quando se caminha para o caos(...)

Saber mais,... foi nesta visita Presidencial à Áustria quando Heinz Fischer [Chefe de Estado Austríaco] agradeceu a Portugal na pessoa de Cavaco Silva, o facto de o nosso país ter recebido mais de cinco mil crianças no final da II Guerra Mundial (...)

[Música no Coração à Portuguesa... que apanhou Cavaco desprevenido!... por isso, comoveu-se...]

Mais tarde, também recebeu inúmeros jovens refugiados da Hungria, fugitivos do 'paternalismo' invasor da U.R.S.S. [CCCP]!

Gosto de História e da 'Arqueologia'...

há muita coisa ainda por 'cavar',... muitos esqueletos nos armários da 'Diplomacia' para estudar os seus ADN's!

Sem ódios, tudo será esclarecido...
aos poucos.

É que eu, até acredito no "Pai Natal",
mesmo sem me dar nada...

Anónimo disse...

A ignorância do Ornitorrinco é um espanto...

César Ramos disse...

Falta-me muito [tudo] para escrever como Miguel Torga: cultura, humanismo e habitat!

Também me faltam interlocutores que ajudem a evoluir, pois... ficamos sempre pelas conversas neolíticas, onde grunhir já parecia uma Ode!...

Por vezes 'lamento' não ter paciência para o desporto caceteiro do futebol, pois através dessa possibilidade de 'contacto' -tipo ET - talvez pudesse subverter alguns ideólogos dessa 'teologia' do esférico e arrastá-los - como Lutero - para outro campo em que para além de trocar a bola, se protestantizaria também o trocar a palavra.

Torga nada escreveu nos Jornais Desportivos, mas se por absurdo o tivesse feito, qualquer assunto do seu vasto Diário seria um tema de discussão super aceso!...

...tão aceso, que era capaz de incendiar as torgas todas lá da montanha ...

Conformemo-nos: quem dá o que tem, a mais não é obrigado!