[ Vox populi vox Dei ]

2009-07-18

«DESPASSARADOS»



Regressando às "pinturas rupestres" dos nossos dias, eis um 'graffiti' cheio de expressão, com mais temática para desenvolver e meditar do que qualquer obra burguesa de Vieira da Silva, com todos os méritos e deméritos próprios da perspectiva subjectiva de quem observa a Arte.

Pessoalmente, o encarar da morte de qualquer ser vivo, desde o pássaro - como este -, morto à beira do passeio, ao gato ou ao cão estratificado pelos pneus dos carros que diligenciam fazer daqueles corpos sem vida um alvo a pisar, cria em mim um mal estar idêntico ao que sinto pelo abandono dos humanos desprezados pelo planeta fora, ignorados desde aqui ao lado, junto da nossa porta, ao contrário do que pensamos que isso só existe a milhares de quilómetros de distância da nossa generosidade do 'dia' do "Combate à Fome", e de outras solidariedades «úteis», mas cínicas, hipócritas, no mínimo balofas(...)

Leiam comigo este poema, que me caíu do céu [talvez por ser de ave], da Autoria de Betha M. Costa, intitulado:

« POEMA DO PÁSSARO TRISTE »


Há um pássaro enraizado na pedra,
Que vive dentro do meu coração,
Seu canto agudo e torturado medra,
Amor ao peito do mais severo capitâo.

Meu imperfeito olhar castanho redra,
No azul do céu as núvens da escuridão,
Bico adunco, eu afasto camadas da esfera,
E veio o Universo em toda a amplidão.

Ah visão em constante inversão!
As asas rasteiam na vida em queda,
Nada afasta a dor e a consternação,
Do pássaro sofrido sobre a pedra,
Que está com ela em eterna fusão.

[e o meu passarinho está sobre a pedra!]

N.B.

O Poema caíu-me do Céu, através da Net, a reler pelo título e o nome da autora.
Quem procura sempre alcança! Hoje, quis mostrar este passarinho morto na berma do passeio e à beira da sarjeta, e faltava-me algo de 'réquiem' ou 'epitáfio'! Hoje, tinha de dizer ao Mundo que, quando fiz quinze anos [e já lá vão décadas, e muitas...], decidi nunca mais matar aves nem qualquer espécie de animais, e consegui reunir os elementos que precisava para narrar o seguinte:


Foi um episódio violento de assistir. Com a espingarda de ar comprimido ia dizimando a passarada quando, um dia, não nas férias de província, mas da janela do meu quarto em Lisboa, ia visando as avezitas que, inocentes se colocavam ao meu alcance!

Nada como a província para nos confrontarmos com a Natureza! Porém, foi na cidade que, depois de abater um pardal acabado de poisar num telhado em frente, presenciei a reacção e o alvoroço do resto do bando de pardais, que carpiram desesperadamente à volta do seu companheiro morto.

Aos quinze anos de idade senti-me criminoso por aquilo que fiz àquela ave [e companheiras], e pelo que decerto fiz a todas as outras anteriormente abatidas, que a natureza provinciana disfarçou, esbatendo o drama na vastidão das paisagens.

Não pretendo maçar mais ninguém com poesias, pelo que 'atamanco' as ideias gerais de Carlos do Carmo, na sua voz e música quando se refere aos "putos",... que... parecem bandos de pardais à solta,... mas quando a tarde cai, vai-se embora a revolta, e sentam-se ao colo do pai e,... volta a ternura! Somos os "putos" deste Povo a aprender a ser Homens,... e não é com caricas brilhando na mão, ou um berlinde, ou pião sem cor,... e os putos a pedirem esmola porque a fome já não abafa a dor,... deixarão de ser pardais à solta, e índios... "Putos"... mas capitães da malta... à Luta (...)

Percebe-se porque é que ainda hoje me sinto muito mal com a 'proeza' dos meus verdes anos? Matar displicentemente animais por mero divertimento, ou malvadez, é crime contra a Humanidade, pois todos somos iguais!

Como tenho a "pancada" por Música Coimbrã - Fados de Estudantes - vou lembrar alguém que, do Fado de Coimbra e da Velha Academia, ficou Lenda Viva:

ANTÓNIO MENANO...[Estudante cantor já do tempo dos Bisavós]

= O Fado dos Passarinhos =

Passarinho da Ribeira

Se não fores meu inimigo

Empresta-me as tuas asas

Deixa-me voar contigo.


Passarinho da Ribeira

Ai!... Se não fores meu inimigo

Ao longo cruzando o espaço

Vai um bando de andorinhas

Que te leva um abraço

E muitas saudades minhas

Ao longe cruzando o espaço

Ai!... Vai um bando de andorinhas



Música de: António Menano
Letra Popular: Açores (Fado de Coimbra)
Fernando Carvalho, (Ilha das Flores)

No meu 'perfil' do Blog lá está, à cabeça dos Filmes preferidos: "Capas Negras"!

- um Filme português do tempo dos "Afonsinos", mas uma relíquia histórica do Cinema Português e, s/o Tema do Fado dos Estudantes de Coimbra:

- os da Capa e Batina!

3 comentários:

Luisa Moreira disse...

Como é bom ler coisas bem escritas! Ainda bem que deixou de matar pássaros, nunca seria caçadora.
Bom fim-de-semana

Zé Manel disse...

Bem, este meu amigo de longa data (mais ou menos 50 anos) está sempre a surpreender-me...
Esta faceta que está a revelar no blogue é para mim fantástica!!!
Como disse Luisa Moreira, é tão bom ler coisas bem escritas...
Um grande abraço, César.
Continua que agradas. E muito.

ariouroguto disse...

Olá Cesar
Sinceramente eu me sentiria bastante lisonjeado se você postasse meu poema em seu blog, é bom saber que outras pessoas apreciam sua obra (ainda que pequena), ainda mais quando é uma pessoa que escreve tão bem.
Um abraço e até breve.
Guto.